Vocábulos e conceitos

26 de junho de 2019

Você já parou para pensar seriamente na relação entre vocábulo e conceito? Seus professores com certeza tocaram algumas vezes no assunto, para que você e seus colegas melhorassem seu desempenho de redação.

O Blogueiro vai tentar mostrar essa relação de outro modo, para que você a domine ainda mais. Observe que, quando escreve, os conteúdos são transportados por meio dos vocábulos de que se serve, organizados dentro das estruturas sintáticas denominadas termos, orações, períodos, textos.   Ora, se você domina poucos conceitos sobre determinado tema, pode imaginar que terá dificuldades em obter com sucesso total essa expressão, não é? Com base em constatações como esta, pode entender que, para dominar a capacidade de redação, terá de dominar também o máximo possível de conceitos expressos pelos vocábulos.

Imagine uma pessoa que nunca ligou para futebol nem fez questão de assistir a qualquer partida. De repente, lhe pedem para escrever uma redação sobre a Copa América. É claro que não saberá, pois o futebol não é apenas uma área de esporte e de lazer, mas um campo muito vasto de conceitos expressos por vocábulos especializados. Esta é a questão. Quando nos comunicamos, comunicamos a nossa visão das coisas do mundo por meio dos conceitos que as envolvem. Quanto mais conhecemos uma área de conhecimento, de ação, de atuação, de divertimento, de esporte, de arte, de política, etc., etc., mais dominamos palavras que carregam os conceitos dessas áreas e mais capazes nos tornamos de dialogar, debater, escrever sobre elas. Cultura, neste sentido, corresponde exatamente a esse conhecimento. Quanto mais culto um ser humano, mais preparado se revela sobre os campos da experiência humana.

Todas estas observações conduzem a uma conclusão: saber falar ou escrever com competência implica o domínio do máximo possível de vocábulos que expressam o máximo possível de conceitos de diferentes áreas do conhecimento humano. Justamente por isso, em todo o ensino fundamental e médio, você foi estimulado a trabalhar com exercícios adequados a aumentar seu vocabulário e a perceber que um vocábulo pode expressar diversos conceitos diferentes. Mas não bastou o que você fez na escola. É preciso continuar adquirindo vocabulário permanentemente, pelas leituras de livros de diferentes áreas e pela consulta permanente dos dicionários. Não apenas, portanto, a leitura de livros de literatura, mas de todos os campos do conhecimento, até mesmo daqueles que você não aprecia muito.

Por outro lado, é preciso também exercitar-se no domínio daqueles vocábulos que, por largo uso, acumulam a expressão de conceitos diversos e por vezes conflitantes, como por exemplo democracia. Consulte o dicionário e perceba esse fato. Fazendo isso com este e outros vocábulos, você evitará cometer erros em sua expressão, quer oral, quer escrita.

Compreendeu bem? Então mãos à obra, vale dizer, aos vocábulos e conceitos.

 

Como fazer prova de questões objetivas

25 de junho de 2019

Os sites sobre vestibulares estão repletos de indicações sobre como fazer uma prova de questões objetivas. Você, porém, nem sempre consegue seguir tais conselhos, porque cada pessoa tem um modo particular, todo seu, de encarar as provas. É difícil, portanto, aderir a uma linha de ação proposta de fora, porque, entre outras coisas, exige treinamento adequado.

O Blogueiro não tem, por isso, a pretensão de dar conselhos salvadores a esse respeito, mas, talvez, iluminar um pouco suas ações nas provas. E faz isso com base em sua própria experiência, que pode ser útil para a sua reflexão. Alguns anos atrás, teve ele de prestar um concurso com a duração de quatro horas, que exigia 100 questões objetivas e uma dissertação sobre tema sorteado na hora. Difícil, não é? Sim, nem tanto pela matéria, pelos conteúdos, e mais pela exiguidade do tempo destinado para tal. Quatro horas já é muito pouco para uma prova de cem questões. Imagine agora que essas questões dividam o tempo com uma dissertação. Mesmo conhecendo e dominando o tema sorteado, não é fácil escrever uma redação de concurso em duas horas, pelo menos uma redação que mereça obter nota alta da banca de correção.

Pois é. O Blogueiro, por essa época, estava acostumado a fazer provas objetivas de uma assentada só, sem retornar. Era o seu método. Quando se trata desse tipo de questões, os prognósticos podem ser: sei, não sei, talvez saiba uma parte. E as respostas consistem em acertar ou errar, já que, mesmo conhecendo uma parte, a questão objetiva não dá margem para mais ou menos: ou está certa a resposta ou não está.

Ao planejar sua prova, sem esperança de que fosse concedido mais tempo, depois de muito refletir, o Blogueiro decidiu que tinha de alterar sua prática anterior de responder direto sem deixar nenhuma questão sem resposta. Então decidiu fazer o seguinte: responder as questões que sabia e deixar em branco as que não sabia. Depois, voltar para essas questões deixadas em branco e dedicar um pouco mais de esforço para tentar acertar algumas. Por quê? O estresse de responder a tantas questões pode causar alguns “brancos” e esquecimentos. O tempo restante caberia à dissertação, torcendo, é claro, para que o tema sorteado fosse bom de desenvolver. Vale observar que estava preparadíssimo para a prova, tendo estudado com atenção toda a bibliografia e toda a lista de pontos. Numa prova de questões discursivas tinha certeza de se sair muito bem, mas, em se tratando de questões objetivas, um plano equivocado poderia custar-lhe muitos pontos a menos.

No dia aprazado, quando iniciou sua prova, o Blogueiro pôs seu plano em execução. Das cem questões tinha certeza de ter acertado setenta e estava em dúvida em pelo menos umas vinte. Respondeu as setenta e voltou a examinar as trinta restantes. Acabou por descobrir as respostas de quinze e não descobriu as das outras quinze. Havia sobrado uma hora e cinquenta minutos para a dissertação, cujo tema felizmente dominava muito bem, pois havia lido um livro que tratava exatamente daquele tema. Não deu tempo para fazer rascunho. A um minuto para o recolhimento das provas, terminou. Ficou, assim, mais preocupado com a dissertação do que com as questões objetivas.

Alguns dias depois, o resultado: havia acertado oitenta e cinco questões objetivas e tirado cinco na dissertação, obtendo uma nota final de 9,25. O plano tinha funcionado a contento. Os colegas, alguns seriamente, outros por brincadeira, o chamaram de “gênio”. Gênio nada, respondeu ele, em concursos e vestibulares, tudo é questão de preparação e planejamento, inclusive do modo de fazer a prova.

Por essa história verídica, você pode verificar que, ao fim e ao cabo, quem decide como vai fazer sua prova de questões objetivas é você. E o fará de acordo com seu próprio modo de ser, com seu estilo de prestar provas, com sua preparação, em contraste com o tipo e o tamanho da prova. Às vezes é melhor responder tudo de uma vez; em outras, vale deixar as que não sabe em branco e retornar para uma nova tentativa. Ocorre muito em provas estar respondendo lá à frente e surgir na memória a resposta de outras que pensávamos não saber.

Pense nisso. Siga seu próprio modo de considerar e responder as questões. Depois, planeje. E faça boas provas.

 

Evitar subjetividades

11 de junho de 2019

Você aprendeu nos longos anos de ensino fundamental e médio dois conceitos que se tornam muito importantes em trabalhos de pesquisa, tarefas, provas, concursos, vestibulares: subjetivo e objetivo. Estas duas palavrinhas são bastante usadas, mas nem sempre de acordo com os conceitos que devem expressar.

Subjetivo se refere ao que é muito pessoal, particular, relativo ao sujeito, que envolve sua visão, suas atividades psíquicas particulares, seus desejos, suas emoções e sentimentos. Quando dizemos que a opinião de um colega é muito subjetiva, estamos querendo significar que é produto dessa visão individual, exclusivamente dele, que vale apenas para ele. Já objetivo é bastante diferente, refere-se ao que é válido para todos, e não apenas para um só indivíduo, àquilo que é determinado por lógica, por critérios científicos, não por visões pessoais.

Pois é. Poderíamos escrever ainda muito sobre as diferenças entre objetivo e subjetivo, mas o que está explicado acima já basta para que você perceba o cuidado que deve ter com manifestações subjetivas em suas provas. Ao responder uma pergunta, não interessa o que você “acha”, mas o que a pergunta quer que você encontre no enunciado da questão e eventualmente no texto em que este se baseia. Seja objetivo, disseram todo o tempo seus professores, e estavam certíssimos.

Justamente por essas razões, tome bastante cuidado em não deixar escapar palavras ou expressões ou até mesmo opiniões pessoais, subjetivas, quando o alvo da questão é uma resposta clara, precisa, objetiva, que não valha apenas para você, mas para todos. Deste modo, manifestações como “eu acho que…”, “eu creio que…”, “imagino que…” são perniciosas em suas respostas e, mesmo, em suas redações. Tais manifestações são tipicamente pessoais, individuais, particulares. Com toda a certeza uma pergunta de concurso ou de vestibular não quer saber o que você acha, mas o que é solicitado como resposta.

Outra escorregadela de subjetividade muito perigosa é o vício de empregar o futuro do pretérito do indicativo. Entre outros significados, este tempo e modo verbal indica uma ação potencial, possível, provável. Formas verbais como seria, poderia, indicaria, etc., podem anular uma resposta, porque não significam que alguma coisa seja, mas que pode ser ou não ser. Resposta assim não responde absolutamente nada.

Finalmente, é bom também tomar cuidado, pelo conteúdo que encerram, com advérbios como talvez, porventura, possivelmente, etc., pois atribuem a mesma forma de indefinição a suas respostas.

Percebeu? Não é não. Sim é sim. Pode ser não equivale a é. Seja preciso. Seja claro. Seja objetivo. Valeu?

 

A norma padrão: para quê?

7 de junho de 2019

Você muitas vezes se pergunta por que tanto falam os professores na norma da língua portuguesa: Afinal, ela é tão importante assim? Por que não posso escrever do meu jeito, como eu gosto?

Nem tudo pode ser como queremos, mas como temos de fazer. A questão da norma é uma dessas coisas que independe de nossa vontade. Afinal, o que é a norma? Para que serve?

Pense um pouquinho. Toda língua, do passado ou do presente, não importa qual, não possui apenas uma forma de realização. A língua falada se diferencia em seu emprego em diferentes formas conforme a região e conforme o nível social. Você já prestou atenção no modo de falar dos nordestinos e o comparou com o dos gaúchos? Ou o dos paulistas? Claro que sim. E já percebeu que há diferenças notáveis, embora se trate da mesma língua portuguesa. As línguas faladas no mundo inteiro não são diferentes. Em Portugal, por exemplo, a mesma língua portuguesa apresenta variações muito grandes conforme a região em que seja falada.

Quando usamos o português em nosso lar, em nossas relações com os parentes e amigos próximos, usamos também uma variedade, a que é chamada usualmente português coloquial. Mas essa mesma variedade não é empregada em todo o país, mas só em seu meio. E nesse ponto é que surge o problema: o país também precisa de uma variedade falada e escrita que seja aceita em todas as regiões, em todas as comunicações oficiais, jornalísticas, profissionais, que os professores possam usar e ensinar em sala de aula e as instituições exijam nos concursos e exames vestibulares. Esta é a que denominamos norma-padrão. Antigamente se dava o nome de norma culta, mas isso não pegava muito bem, porque não se trata propriamente de uma variedade mais culta, mas de uma variedade mais ampla, de maior alcance.

A norma-padrão, assim, é um dos laços que serve para unir o país numa consciência de totalidade. Na mídia, por exemplo, nas televisões, os jornalistas a empregam de norte a sul e de leste a oeste.

Exatamente por isso também se coloca a questão da ascensão social e profissional dos cidadãos. A norma-padrão é um dos instrumentos para essa ascensão. Você, uma vez formado, se tiver de trabalhar no Ceará, não utilizará em suas atividades profissionais nosso modo de falar regional do estado de São Paulo, mas a norma-padrão, tanto em sua fala como em sua escrita. Ela é seu instrumento de trabalho como tantos outros.

Percebeu agora a importância da norma-padrão? Cremos que sim. Então trate de caprichar ainda mais em seu domínio, porque ela o acompanhará pela vida toda.

 

Períodos curtos, longos, confusos

30 de maio de 2019

Você certamente já ouviu lições sobre como devem ser os períodos de suas respostas discursivas e redações. Ouviu? Alguns “conselheiros” sugerem que períodos curtos são preferíveis, porque você tem menos possibilidades de errar. Outros acham que períodos longos demonstram capacidade de raciocínio e argumentação.

E daí? Como fazer sua opção? Como resolver essa dúvida? Na verdade, essa dúvida é inventada por quem quer dar uma de “entendido” e conselheiro. A questão não se resume ao fato de escolher, por fora do texto, se usa períodos curtos ou períodos longos. Na verdade, nem existe de fato essa escolha. A questão é interna ao texto: se você sabe exatamente o que responder, responderá adequadamente; se domina bem o tema de sua redação, escreverá a contento. Será muito errado decidir, antes de escrever, se utilizará períodos breves ou longos. Isso só poderá atrapalhar.

Ponha na cabeça: um bom escritor sabe o que escrever, sem se preocupar. A clareza de seu raciocínio se expressará naturalmente em seu texto, sem complicações. No caso do candidato, podem ocorrer duas possibilidades: primeira, você ter realmente capacidade de escrever com clareza e eficácia. Neste caso, não precisa se preocupar, é só seguir em frente. Segunda, você sentir insegurança em sua capacidade de redação. Precisará, então, de algumas orientações. Em primeiro lugar, deve esquecer essa estória de longos ou breves, apenas escreva. Em segundo, tenha em mente que, como diziam antigos gregos e romanos, a virtude está no meio. Não exagere nem na brevidade, nem na maior extensão. O perigo que corre, nesse caso, é escrever de modo confuso, como por exemplo numa resposta à questão A Ciência tem hoje capacidade total para resolver o problema dos buracos na camada de ozônio?

Vamos imaginar uma resposta confusa, tal como ocorre por vezes em concursos:

Creio que a ciência tem hoje, nos seus numerosos métodos e nos trabalhos de numerosos cientistas, não a capacidade total de resolver o problema, mas de resolver os problemas que assolam o planeta e podem, como sugerem muitos cientistas, levar a sérios problemas que podem até representar o fim do nosso planeta, pois os problemas criados pelos homens são muitos, dos quais o da camada de ozônio é apenas um, embora seja um problema muito perigoso e de difícil solução, já que envolveria muitas ações e tecnologia, que não sei ainda se já foi criada, pois a todo instante as revistas especializadas informam que o perigo continua existindo e aumentando.

Observou a extensão demasiada da resposta, as repetições inúteis e, ao fim e ao cabo, a falta de definição da própria resposta? Afinal, o candidato respondeu sim, não ou mais ou menos? Está aí o perigo: responder muito sem definir nada. O que deveria fazer o candidato?

Em primeiro lugar, deveria decidir sua opinião exatamente para o que foi indagado: a ciência tem hoje capacidade total para resolver os problemas da camada de ozônio? Assumida uma opinião positiva ou negativa, justificá-la, evitando repetições e explicações inúteis. Imaginemos uma resposta negativa:

Não, atualmente a Ciência ainda não tem total capacidade para resolver de vez os problemas da camada de ozônio, embora esteja havendo um grande esforço de cientistas e laboratórios do mundo todo nesse sentido.

Note que esta resposta é simples, clara e lógica, demonstrando plenamente a opinião do candidato.

Percebeu? Compare as duas respostas e tire suas próprias conclusões sobre a questão da simplicidade, clareza e coerência. E use suas observações como critério para aperfeiçoar seu modo de responder.

 

Com cotas, mais fácil? Mais difícil?

30 de maio de 2019

Desde que foram implantadas as cotas nas universidades, muito se discute sobre a maior ou menor facilidade para aprovação, tanto num sistema como em outro.

Logo no início, dizia-se que ficaria mais difícil para os candidatos sem direito a cotas a aprovação, porque em vez de cem por cento de possibilidades ficariam apenas com cinquenta. Aparentemente, estavam certos, mas um pouco de reflexão acabou demonstrando que não era bem assim. Por quê? Porque os candidatos que tinham plenas possibilidades de aprovação continuavam os mesmos. Assim, não importava o número maior ou menor de concorrentes, mas a capacidade de cada um de receber as melhores notas.

Quanto às cotas, houve unanimidade no país sobre a sua justificativa, dado que enfrentavam, antes, candidatos muito mais preparados e com melhores condições de obtenção das vagas. As cotas representam uma forma de justiça social, para evitar que candidatos com menos possibilidades de superar os não cotistas pudessem ter uma chance real de ingressar nas universidades. Com isso não se perderiam muitos talentos que, de outro modo, ficariam marginalizados e obrigados a enfrentar trabalhos profissionais em desacordo com suas reais vocações. Esse sistema acabou se consolidando, ficando as discussões pró e contra como coisa do passado. A realidade é que há cotas e há muitos candidatos que se inscrevem com base nelas e conseguem ingressar nos cursos pretendidos.

Como no sistema sem cotas, porém, outra questão tem sido a da maior ou menor dificuldade de ingresso. No início, muitos cotistas julgaram que seria agora muito mais fácil a obtenção de vagas. Isso, na verdade, foi colocar, como diz o povo, o carro para puxar os bois. As cotas, se eliminaram a concorrência dos não cotistas, não eliminaram, porém, a concorrência dos demais. A necessidade de preparar-se, de estudar mais, continuou semelhante, assim como a própria concorrência. Aumentou inclusive a responsabilidade.

Os dois sistemas, portanto, apesar de independentes, apresentam características comuns, que podem ser resumidas do seguinte modo: é preciso estudar, e estudar muito, para vencer os concorrentes e obter a vaga pretendida.

Percebeu? Então não brinque em serviço! Empregue todo o seu esforço de preparação para atingir seu objetivo. Com as cotas ficou mais fácil? Mais difícil? Nem uma coisa nem outra. Em exames vestibulares, qualquer que seja o sistema de ingresso, não há facilidade.

 

A vírgula, amiga ou inimiga?

16 de maio de 2019

Quem vai fazer prova discursiva, para responder a questões e elaborar uma redação, tem de tomar muitas cautelas com relação à vírgula. As regras de pontuação falam em ponto, ponto final, ponto e vírgula, dois pontos, ponto de interrogação, de exclamação, etc., etc.  Mas, de todos, realmente, a vírgula é o mais importante, porque mais empregada e porque define muitos sentidos para um texto.

Sendo o sinal de pontuação mais empregado, evidentemente é aquele com que o estudante deve mais se preocupar, pois as possibilidades de equívocos, por vezes inesperados, são muito fortes e de consequências péssimas. Um velho mas enfático exemplo disso é a historinha, provavelmente folclórica, da comutação de pena de morte pelo presidente de certo país. O condenado seria executado em horas e seu advogado pediu comutação da pena, para ser transformada em perpétua. O presidente se apiedou e, percebendo que as acusações tinham alguns problemas, resolveu transformar a pena em prisão perpétua e telegrafou ao diretor do presídio para não executar o réu. O funcionário que transcreveu o telegrama, porém, colocou uma vírgula onde não era necessária, e a mensagem, que era Não execute, transformou-se em Não, execute. A vírgula, colocada por engano, alterou para o oposto o sentido da frase.

Embora possa se tratar apenas de uma anedota, o exemplo é bem sintomático sobre a importância da vírgula, não é? E acaba se tornando um padrão, pois muitas outras frases podem sofrer idêntico equívoco: Não pense, com vírgula, pode transformar-se em Não, pense; Não corra, com vírgula, torna-se Não, corra. E assim por diante. Este sinalzinho, portanto, apesar de muito pequeno, encerra muitas armadilhas.

Por isso mesmo, dedique atenção às propriedades da vírgula, especialmente àquelas que podem prejudicar ou até inviabilizar uma oração ou um período inteiro de seu texto de redação ou de resposta discursiva. Um erro bastante apontado, criticado e penalizado em correções de concursos e vestibulares é o de colocar a vírgula entre o sujeito e o predicado. Não faça isso jamais. A relação entre o sujeito e o predicado nas orações é indissolúvel, os dois termos são inseparáveis. Dizer, por exemplo, O candidato fez, a prova é um lapso lamentável. O correto será sempre O candidato fez a prova. Tome bastante cuidado para não colocar distraidamente a vírgula nesses casos. O mesmo se pode dizer da relação entre o verbo e seus complementos; são inseparáveis e não admitem vírgula, como por exemplo: Meu amigo comprou, muitos livros. Errado. O certo é Meu amigo comprou muitos livros. Pode surgir a vírgula, porém, em caso de elipse, para não repetir o verbo numa segunda oração: Meu amigo comprou muitos livros; sua esposa, muitas canetas. A vírgula, neste exemplo sinaliza a omissão do verbo.

Muito cuidado também em certas enumerações de termos separados por vírgula. O último deles não deve ser virgulado: Pedro comprou computadores, laptops, tablets e celulares, do importador. Errado. O último termo desse tipo de enumeração não deve ser virgulado, para não ter interrompida a relação da série enumerativa com o verbo. O correto, pois, será: Pedro comprou computadores, laptops, tablets e celulares do importador.

Percebeu? O Blogueiro apontou apenas alguns exemplos da importância e dos riscos da vírgula. Trate de dar uma boa revisada em livros sobre o assunto, para não cometer nenhuma “mancada” em suas provas.

Pois é. A vírgula, pode crer, é uma boa amiga do texto. Mas pode ser uma  terrível inimiga. Boas provas!

 

 

 

Caligrafia: bela escrita

13 de maio de 2019

O Blogueiro já tem explorado esse tema algumas vezes, para alertar os candidatos sobre os perigos de grafar mal.

Antigamente, os professores do ensino fundamental insistiam bastante em exercícios de caligrafia, para que os alunos tivessem letra pelo menos clara e legível. Evidentemente, nem todos os estudantes têm o dom de escrever letras como se desenhassem, que fazem um texto manuscrito perfeito. Alguns têm mesmo letra mais bela que a dos próprios professores.

Houve uma época, porém, sabe-se lá se vinda de fontes oficiais, sabe-se lá se inventada pelos próprios estudantes, em que se dizia que a caligrafia não importa, já que a letra é uma característica da personalidade do próprio indivíduo. Nessa época, passou-se a dar menos importância ao traço das letras que à própria clareza. Isso foi péssimo. Os corretores de concursos e de vestibulares muitas vezes sofrem para “decifrar” as letras dos candidatos. Quando não o conseguem, a questão discursiva fica anulada, zerada. Nenhum corretor tem obrigação de ser especialista em decifrar enigmas, hieróglifos ou escrita cuneiforme.

Num tempo em que corrigiu redações, o Blogueiro se deparou com inúmeros exemplos de escrita tão personalizada, que, no fim, provavelmente, só o próprio candidato podia entender. Ou talvez até nem ele mesmo!

Falando sério, a estória de que a letra revela a personalidade do escritor só tem servido para prejudicar os próprios estudantes que aderem a essa tese bastante duvidosa. Na verdade, tudo o que fazemos revela a nossa personalidade: o modo como andamos, como nos vestimos, como nos comportamos, como seguramos o lápis ou a caneta, etc., etc. A letra é apenas uma parte dessa revelação. De fato, ninguém quer andar como um palhaço, vestir-se com desmazelo, comportar-se de modo ridículo. E ninguém deveria, também, desejar ter uma letra praticamente ilegível. Por quê? Porque ninguém quer reprovar em concurso ou vestibular. Desejamos passar, dar um show com nossas respostas, tirar notas muito altas. Mas isso não será possível se não formos entendidos no que escrevemos.

Se você é frequentemente advertido por seus garranchos, pode ter certeza de que sua letra vai mal. E, se não tomar providências, irá de mal a pior. Está na hora, portanto, de melhorar o curso e o contorno de suas letras, arrendondar o a e o o, botar o pingo nos is e nos jotas, deixar bem nítidos o g e o q, para que não possam ser confundidos, dar contorno adequado ao s final, arrendondar as curvas do m e do n, para que não se confundam com o u, etc., etc., etc. Nesse caminho, não pode haver preguiça. O objetivo final é ser plenamente entendido pelos corretores, para que não possa vir um desconto na média final que lhe levará embora a vaga. Vagas, como mais de uma vez disse o Blogueiro, se decidem por milésimos.

A melhor forma de afirmar sua personalidade é saber demonstrar, com o máximo de clareza, que sabe muito, que estudou bastante para chegar aonde chegou, uma prova muito bem feita, exemplar, elogiável. Busque esse objetivo. Se julgar necessário, faça até exercícios de caligrafia para um melhor desempenho. Pense que, atualmente, caligrafia não corresponde necessariamente a uma escrita bela, mas a uma escrita clara, perfeitamente inteligível à leitura de qualquer pessoa. Pense e execute. Ou espere alguns anos até que a tecnologia crie carteiras onde possa digitar suas provas discursivas, valendo lembrar que, nessa hipótese, você terá de treinar muito para ser um excelente digitador.

 

Cuidados com o verbo haver

8 de maio de 2019

Outro dia um entrevistado na tevê, focalizando a tramitação de um projeto na Câmara Federal, disse ao jornalista: Houveram muitos problemas nessa sessão, mas o projeto acabou sendo aprovado.

Se você não percebeu o erro crasso, preste bem atenção neste artigo.

O verbo haver apresenta muitos significados, o que pode ocasionar diferentes regências verbais. Por isso, é bom tomar cuidado, pois uma dessas regências é a que induz a mais erros, até mesmo de pessoas bem informadas. O Aurélio apresenta informações muito úteis a este respeito. Informa que haver pode ser transitivo direto nos sentidos de ter, possuir, alcançar, obter, conseguir, sentir, experimentar, considerar, julgar, entender. Pode ser também impessoal, nos sentidos de existir, suceder, acontecer, ocorrer, dar-se, realizar-se, efetuar-se, ocorrer, dar-se, fazer. Pode ser transitivo direto e indireto nos sentidos de obter, conseguir, alcançar. Pode ser transobjetivo nos sentidos de ter na conta de, julgar, supor, considerar. Pode ser intransitivo nos sentidos de existir meio de, ser possível. Pode ser pronominal nos sentidos de proceder, portar-se, comportar-se,  entender-se, arranjar-se, avir-se. Além de tudo isso, pode ser um verbo auxiliar: precedendo um particípio, constitui tempos compostos do pretérito. Sem esquecer que haver pode surgir como substantivo, no sentido de “pertences” e também como indicador  da parte do crédito da escrituração contábil. Tudo isso para um verbo só, hem? Observe alguns exemplos:

Naquela cidade hei um grande amigo. (tenho, possuo)

Estudou bastante, mas não houve o resultado que esperava (alcançou, obteve)

Meus colegas houveram grande medo de entrar naquela casa. (sentiram)

Houveram que era risco demasiado investir naquelas ações. (consideraram)

Haverá muitos prêmios nos sorteios daquela festa. (existirão muitos prêmios)

Houve sérios desentendimentos antes de chegarem a um acordo. (ocorreram)

Havia meses que não chovia. (fazia)

Os filhos mais velhos houveram dos pais a licença para ir à Europa (conseguiram)

Todos os policiais o haviam por arruaceiro. (consideravam, tinham na conta de)

Não há mais contê-los. (não existe meio, é possível)

Havia começado o jogo pouco antes de ele chegar. (haver como verbo auxiliar)

É muito significado e muita regência para um verbo só, não é? Pois é. E note que o Blogueiro não deu todos os exemplos fornecidos pelo Aurélio. Convém completar o que diz este artigo com uma visitinha ao dicionário.

Aqui nos interessa apenas um aspecto, porque nos demais provavelmente você não erra. É o caso da frase do entrevistado:

Houveram muitos problemas nessa sessão, mas o projeto acabou sendo aprovado.

Agora você já deve ter percebido que o entrevistado deveria ter dito:

Houve muitos problemas nessa sessão, mas o projeto acabou sendo aprovado.

E por quê? Porque o verbo haver, no sentido em que é empregado na frase, significando “existir”, é impessoal, apresenta-se sempre na terceira pessoa do singular, não importando se o complemento que surge depois está no singular ou no plural. Confira no Aurélio.

Neste artigo, como deve ter notado, você leva dois conselhos: empregar adequadamente o verbo haver, sobretudo quando é impessoal, e perceber que deve consultar usualmente os significados e as regências dos verbos. Aprenderá muito, pode ter certeza, e evitará muitos erros crassos, que poderiam fazê-lo perder alguns décimos ou centésimos de sua nota e, com isso, até deixar escapar sua vaga.

 

 

Existe a dica perfeita?

25 de abril de 2019

Muitos vestibulandos procuram encontrar em livros, apostilas, sites e em professores especializados a tal dica perfeita. Isso existe? Tentativas, sim, mas realidade, não. Quem conseguisse as tais dicas perfeitas para passar a estudantes acabaria ficando rico. Mas, que o Blogueiro saiba, ninguém ainda ficou rico fornecendo tais informações eficientíssimas, simplesmente porque, no caso do estudo para vestibulares e concursos, o valor não reside apenas na dica, mas na relação que o candidato tem com ela.

De fato, não há dois estudantes iguais: o que pode funcionar com um não funciona com outro, porque depende do temperamento, dos conhecimentos acumulados e da experiência de cada um. Isso explica a decepção que tem um estudante ao receber de outro ou de um professor a informação de que em tal livro ou em tal apostila ou em tal site encontrará sugestões perfeitas para aumentar em muito sua capacidade de fazer provas. O estudante, por exemplo, entra no site indicado por um colega e não encontra nada capaz de melhorar seu domínio. Uma decepção total.

Quem procura dicas desse porte, senão perfeitas, pelo menos úteis para o maior domínio dos conteúdos desta ou daquela matéria, tem de levar em conta sua própria base de conhecimentos e seu modo de considerar as provas. Há disciplinas que o candidato detesta e por isso estuda pouco. Qualquer dica tem de passar por esse verdadeiro muro de preconceitos para poder ser aproveitada.

O caso da redação é sintomático. Há sites e sites que prometem aumentar em muito a capacidade redacional do candidato. Parece bom, mas não é tanto assim. O candidato precisa, primeiro, avaliar sua capacidade atual e em que pontos julga que falha e pode melhorar. Precisa, também, verificar sua própria boa vontade em aprender. De que adianta uma dica sugerindo que, para a redação, os conteúdos da atualidade social, política e científica são muito necessários, se o candidato não é chegado à leitura de jornais, revistas e sites da rede que fornecem esses conteúdos e os renovam permanentemente. Redação não é só escrever bem; é escrever bem sobre atualidades, porque os temas solicitados pelos vestibulares diversos se enquadram geralmente nesse campo.

O mesmo vale para as diferentes disciplinas. O candidato tem de abandonar o preconceito do gosto/não gosto e avaliar o quanto sabe, para depois procurar as dicas, não necessariamente para atingir dez, mas para fazê-lo subir patamares de desempenho com relação ao que sabe.

Finalizando, em resposta ao próprio título deste artigo, pode-se dizer que a dica se torna perfeita na medida em que o candidato consegue mobilizá-la para os seus conhecimentos. Pense bastante nisso e estabeleça sua procura de acordo com suas próprias expectativas.