Na hora “h” evite os coloquialismos ridículos

December 14th, 2017

Agora que a prova está aí, um último conselho: evite o emprego de certos vocábulos e expressões que, embora aceitos no discurso oral e familiar, geram modos de dizer um tanto ridículos quando transplantados para o discurso formal.  Isso deve ser feito em todas as respostas discursivas e na redação.

Uma dessas besteirinhas é representada pela palavra tipo. Você com certeza já ouviu falarem assim: Estou dizendo que minha colega é tipo assim uma imitação desastrada de Barbie.

Na oralidade, esse emprego de tipo como comparativo está muito disseminado. As pessoas nem notam mais que estão falando assim. O problema é empregar em discurso escrito, especialmente em resposta discursiva de prova ou redação de vestibular. Nesses casos, o discurso deve ser formal, obediente à norma-padrão. “Tipo assim” é um uso que podemos considerar, com o povo, um tanto brega. E não apenas isso, mas também vulgar e ignorante. Muito melhor seria falar ou escrever, simplesmente: Estou dizendo que minha colega é como uma imitação desastrada de Barbie. Nada de tipo assim em seu discurso escrito, certo?

Outro mau uso diz respeito a por causa que ou por causo que: Eu atirei o lápis pela janela por causa que meu colega me irritou. Ora, ora, também é irritante para qualquer professor de português deparar-se com esse uso, quando a forma correta e simples é porque: Eu atirei o lápis pela janela, porque meu colega me irritou. Não é muito mais simples? Então, nada de por causa que em suas provas, certo?

Pior ainda é o uso de coisa. No discurso oral, vez por outra, quando esquecemos o nome de uma pessoa, acabamos dizendo o coisa. Meu irmão encontrou o coisa lá na estação de trem. Horrível, não é. No discurso escrito, jamais faça isso. Há mil maneiras de dizer o mesmo de modo correto e elegante: Meu irmão encontrou o rapaz lá na estação de trem. Ou: Meu irmão encontrou essa pessoa lá na estação de trem. Deste modo, cuidado, muito cuidado como esse coisa, que pode ser uma coisa bem ruim para sua prova, certo?

Outro uso equivocado, finalmente, é a forma verbal pegou para indicar a sequência de uma estória. No discurso oral, ainda vá: Ela pegou e começou a chorar por não ter encontrado sua madrinha. No discurso escrito, porém, há formas e formas de evitar esse equívoco, inclusive com a própria supressão da palavra: Ela começou a chorar por não ter encontrado sua madrinha. Por isso mesmo, ao responder a questões discursivas ou a escrever sua redação, não pegue nada: simplesmente escreva de modo o mais claro possível.

Um conselho final: crie frases com essas palavras equivocadas e, em seguida, faça você mesmo a correção. Será um bom modo de preparar-se para não embarcar no verdadeiro “besteirol” que tais usos acabam criando em nossos textos.

 

Questões discursivas: respostas discursivas

December 8th, 2017

Você já refletiu bastante sobre as chamadas questões discursivas? Bom, questão é o mesmo que “pergunta”; e discursiva quer dizer por meio de discurso. Por isso mesmo, resposta corresponde a questão, assim como discursiva significa por meio de discurso. Vale dizer: as questões discursivas não apresentam resposta a escolher por meio de alternativas, como nas questões objetivas da primeira parte do vestibular, mas têm de ser elaboradas por meio de um discurso, um texto. Sua resposta, no caso, é um pequeno texto.

Observe que nas questões de matemática e física você tem de fazer uma demonstração, por meio de cálculos que solucionem a questão proposta. Já nas provas discursivas de língua, literatura, artes, história, geografia, ciências e filosofia, por exemplo,  as respostas são apresentadas por meio de pequenos textos, formadas por um ou dois parágrafos.

Uma resposta discursiva, assim, desenvolve um tema, representado pela solução da questão proposta, que você tem de desenvolver e demonstrar. Parece óbvio, não parece? Sim, mas por vezes o óbvio é que pode atrapalhar, caso você esqueça que sua resposta está sendo alimentada por esse tema, que é a solução da questão. Por isso mesmo, é muito fácil perder-se na obviedade e acabar respondendo o que a questão não propõe, isto é, não pergunta.

Imagine que uma questão de história solicite que você verifique, num texto dado como base, o posicionamento do autor sobre o descobrimento do Brasil. O autor, um historiador português, afirma que o Brasil foi descoberto, de fato, um pouco antes, e que Cabral veio apenas sacramentar a descoberta pelo reino de Portugal. Imagine que alguém respondeu assim: Não, o Brasil foi realmente descoberto por Pedro Álvares Cabral. Notou como o óbvio pode atrapalhar e fazê-lo errar a resposta? Na verdade, quem respondeu desse jeito deu a sua opinião, embora a questão tenha solicitado verificar no texto a opinião do autor. Percebeu? Não foi pedida a opinião do candidato, mas a do autor do texto. Uma questão óbvia, deste modo, pode levar a um erro crasso, pela não observância da perspectiva solicitada pelo enunciado da questão. O verdadeiro tema da resposta, nesse caso, foi perdido pelo candidato.

Que conclusões tirar a esse respeito? A primeira é acabar com a impressão de que as questões discursivas são mais fáceis que as objetivas. O fato de poder apresentar a própria resposta não representa nenhuma vantagem a esse respeito. A segunda é verificar, com muita atenção, o que o enunciado da questão está realmente pedindo, que constituirá a base de sua resposta. A terceira é que as questões aparentemente mais fáceis são as mais perigosas, sendo necessário lê-las com atenção e repetir a leitura, para ter certeza do que estão realmente solicitando como resposta.

E nunca esqueça: escrita a resposta, não custa conferir, lendo atentamente, como se fosse membro da banca corretora, para ter certeza de que sua resposta corresponde perfeitamente ao que foi proposto no enunciado da questão.

Reflita bastante sobre o que foi dito. E bom discurso!

 

 

Os verbos: fontes de ideias

November 29th, 2017

De modo didático, os professores de português muitas vezes representam a oração como um sistema solar, com o verbo no centro e os complementos orbitando em torno. Esta imagem tem algum fundamento, pois no sistema da oração o verbo é realmente o ponto principal e em seu entorno, fortemente relacionados com ele, se alojam os complementos oracionais. Neste sentido, o próprio sujeito, que semanticamente é um dos principais elementos criadores e condutores do sentido, faz vassalagem ao verbo, principal condutor da oração.

A reflexão manifestada pelo Blogueiro no parágrafo anterior tem como objetivo alertar o estudante para a grande importância semântica do verbo, que pode, conforme o papel que venha a assumir, mudar completamente o sentido de uma oração. Note, por exemplo, o comportamento dos verbos aspirar e contar nos exemplos seguintes:

 

A menina aspirou com prazer o perfume da orquídea.

Meu filho aspira a um cargo de executivo numa empresa multinacional.

 

O caixa contou o dinheiro.

Meu pai contou uma lenda sobre o Capa-Preta.

 

Percebeu? Nos primeiros dois exemplos verifica-se a transformação do verbo aspirar de transitivo direto, com o sentido de cheirar, para transitivo indireto, com o sentido de desejar, objetivar, por meio da preposição a. Já nos dois exemplos seguintes, embora o verbo não mude de regência (em ambos os casos é transitivo direto), o sentido muda de uma frase para outra.

É esse um dos pontos que os professores têm mais dificuldade de explicar a seus alunos: em boa parte, talvez maioria, dos verbos pode haver significados diferentes com a mesma regência ou com regências diferentes.

Esse fato, embora à primeira vista pareça um complicador para suas redações ou respostas a questões discursivas, é na realidade uma fonte de riqueza expressiva: quanto maior variedade de significados de cada verbo você conhecer, maior a possibilidade de expressar-se com segurança e criatividade. Certo professor do Blogueiro dizia e repetia, em aulas, que a leitura do dicionário era uma de suas preferidas, porque aumentava seu poder verbal (ele era também jornalista que assinava artigos em jornais e revistas). Na verdade, o professor tinha muita razão: os dicionários não estão nas estantes, ou nos devedês, ou na mídia digital da internet para ser olhados de longe, são fontes permanentes de consulta e, como dizia o professor, leitura.

Observe, por exemplo, o que podemos extrair de dicionários sobre as regências e significados do verbo acusar:

 

O promotor acusou-os e pediu justiça.

O exame de sangue acusou a doença.

O delegado acusou-os do crime de lavagem de dinheiro.

Neste momento eu não acuso: apenas ouço seu depoimento.

Nenhum dos dois rapazes se acusou.

Notou como um simples e usual verbo pode acusar surpresas? No primeiro exemplo, acusar é transitivo direto (os, como você sabe, funciona como objeto direto) e significa imputar culpa. No segundo caso, o verbo continua transitivo direto, mas o significado é completamente diferente: acusar, nessa oração, significa revelar, apontar. No terceiro exemplo o verbo assume dois objetos: os, direto, e do crime de lavagem de dinheiro, indireto. Já no quarto exemplo o verbo acusar aparece como intransitivo, sem objeto, portanto, no sentido de incriminar, apontar falta. E na última oração o verbo volta a ser transitivo direto, mas com objeto direto reflexivo (o objeto representa o próprio sujeito): o significado passa a ser assumir a culpa, o erro, o crime, etc.

O Blogueiro acredita que, com os exemplos apresentados e os comentários feitos, você se interessou pelo tema e passou a valorizar mais os dicionários, não como meras fontes de informação produzidas por velhos pesquisadores, mas de aumento de conhecimentos e poder de expressão. Mãos à obra, quer dizer, aos verbos, portanto.

 

 

Primeira fase, segunda fase – não é fase demais?!

November 15th, 2017

Você com certeza já tentou imaginar a razão por que alguns vestibulares, como o da Unesp, se realizam em duas fases, uma com questões objetivas, outra com questões discursivas e redação. Não seriam fases demais? Não seria melhor fazer tudo numa fase só?

À primeira vista, podemos até pensar que sim. Na verdade, porém, basta um pouco de reflexão para perceber que andam certos os principais vestibulares do país ao dividir as provas em duas fases distintas, ambas classificatórias. Por quê? Por muitas razões, que o Blogueiro gosta de comentar. A primeira delas é o grande número de candidatos, que complicaria e encareceria a realização numa fase só. Imagine quantos profissionais seriam necessários para uma banca de correção de redações e outra para a correção de questões discursivas de cento e tantos mil candidatos! O encarecimento em virtude do aumento brutal do número de profissionais seria repassado, neste sentido, para o valor das taxas de inscrição. Nada recomendável, não é?

Mas as justificativas não ficam por aí. Imagine você, em segundo lugar, que fazer tudo numa fase só aumentaria o número de questões e do período de realização da prova. Se quatro horas já são difíceis de enfrentar, imagine uma prova que durasse cinco ou seis horas. Também nada recomendável, não é?

Em terceiro lugar, imagine que, mantido o período da prova em quatro horas, seria muito complicado abranger todo o programa das disciplinas. Uma das consequências seria uma prova com menor poder de avaliação. A outra, você bem sabe, seria o aumento do número de reclamações sobre o horizonte de avaliação da prova. Em quarto lugar, é preciso ter em mente que na primeira fase não haveria período de tempo adequado para uma boa redação, criada e revisada.

Bastam esses quatro aspectos, portanto, para demonstrar que um vestibular em duas fases é o mais indicado. Na primeira, com uma prova abrangente formada por questões objetivas, ocorre a seleção inicial, tendo como parâmetro o número de vagas disponíveis. Na segunda, os melhores da primeira fase passam por uma nova triagem, com vistas a elaborar a relação dos que comprovam mais condições de obter as vagas. Além do mais, sendo uma fase formada por questões objetivas, outra por questões discursivas e uma redação, o perfil de competência do candidato é estabelecido com muito maior precisão.

Se tudo ficou bem claro, as perguntas colocadas no primeiro parágrafo deste artigo estão perfeitamente respondidas: duas fases representam o ideal. E você se sente plenamente convencido de que tem muito mais chances com um vestibular assim estruturado e realizado. Boas provas!

 

 

Falar bem ou falar mal, saiba o que fala!

November 10th, 2017

No artigo anterior, o Blogueiro focalizou um assunto muito importante, que andou e anda preocupando os candidatos aos exames vestibulares: o receio de ver recusadas redações que, por exemplo, argumentem contra a ética vigente e os próprios fundamentos da democracia. E assim também outros posicionamentos considerados abomináveis pela sociedade atual. A questão estava pendente: deveriam receber nota zero redações com tais teores? Nas bancas de que participou, o Blogueiro sempre achou que não, argumentando que não se corrigem opiniões, mas redações, já porque pode haver, por exemplo, bons textos que opinem contra a democracia, já porque pode haver maus textos que a defendam

No final da semana, uma decisão da presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha, sobre essa matéria, pôs fim a todas as especulações e preocupações a respeito, já que reafirmou o princípio constitucional da livre manifestação de opinião. A partir dessa decisão do STF, nenhuma redação de vestibular ou de concurso público pode ser zerada por defender argumentos que se oponham aos fundamentos democráticos vigentes. Em conclusão: mesmo que defenda uma tese abominada pela sociedade democrática, a redação tem de ser corrigida como texto, não como opinião.

Não poderia ser de outro modo: o sistema democrático se baseia, por princípio e natureza, no respeito às liberdades individuais, entre as quais a liberdade de pensar e opinar. Os políticos costumam dizer e repetir à saciedade que a democracia se fundamenta na convivência de contrários. Nada mais verdadeiro: no exato instante em que uma opinião, por mais extrema e abominável que seja, é censurada, não estamos mais num sistema democrático, mas num regime de força, numa ditadura.

Beleza! exclamará algum candidato e concluirá: Então vou poder dizer o diabo em minha redação sem que a banca corretora possa zerá-la. Não é bem assim, retrucará o Blogueiro, lembrando o dito popular: aí é que a porca torce o rabo. O candidato deve observar que, ao expressar sua opinião, pode estar infringindo em parte o regulamento da correção no que diz respeito ao desenvolvimento do tema. Nesse caso, bem como noutros semelhantes, sua redação não receberá zero, mas, em virtude da própria proposta, poderá ser penalizada com a perda de alguns pontinhos por não atender a um requisito. E ninguém quer saber de perder alguns pontinhos em vestibular, em que uma vaga pode ser decidida por minúsculas frações de pontos.

Por tudo isso, o Blogueiro reafirma o que disse no texto postado anteriormente, sugerindo ao candidato avalie muito bem a proposta de redação e desenvolva seu texto de acordo com esses parâmetros. De fato, embora não seja proibido, ainda mais após a decisão do STF, a redação de vestibular não é o local ideal para defender ideias extremamente contrárias ao status quo. É o local, porém, para o candidato demonstrar que é capaz de produzir um ótimo texto ao explorar o tema proposto. O maior valor, portanto, está no texto, e não na natureza da opinião.

É claro, todavia, que o Blogueiro apenas está dando um conselho brotado de sua experiência, já que também há certo tempo prestou seu vestibular. O candidato poderá ter raciocínio diverso: Sei bem que minha redação pode perder alguns pontos, mas vou manifestar minha opinião livremente e fazer um texto chocante. E, como escrevo muito bem, posso convencer a banca a não me penalizar de nenhum modo. Neste caso, o Blogueiro lhe deseja boa sorte. A conclusão de outros candidatos poderá ser muito diferente: Sou capaz de defender muito bem qualquer ponto de vista do tema proposto. Vou escolher o que me permita fazer um texto de melhor e maior qualidade, para receber o máximo possível de pontos. Esta é uma atitude muito mais ponderada e mais em acordo com os reais interesses dos candidatos em obterem suas vagas nos cursos pretendidos.

O assunto, portanto, está agora resolvido, sendo responsabilidade do próprio candidato o caminho a seguir: arriscar-se, confiando no seu taco, como se costuma dizer, ou escolher um trajeto mais seguro, menos sujeito a surpresas. Pense bem a respeito e tome sua decisão de acordo com sua própria personalidade e interesses.

 

 

Sua redação x sua opinião

November 1st, 2017

Preste muita atenção a este conselho nascido da experiência de um velho professor: na vida, nem sempre vale o que é, mas o que tem de ser.

Por que o Blogueiro está se valendo desse princípio? Porque está sendo muito discutido, nos meios de comunicação, o problema das opiniões dos vestibulandos em suas redações. E o tema é a aceitação ou não de opiniões dos candidatos que contrariem a ética e o estado democrático, só para citar dois dos pontos considerados nevrálgicos. Em resumo: tem o vestibulando e qualquer candidato a concursos o direito de defender, em sua redação, opiniões opostas a esses pontos? Trata-se de uma questão que, como diz o povo, dá muito pano pra mangas.

Algumas pessoas argumentam que nossa Carta Magna, a Constituição brasileira, estabelece a liberdade de opinião. É verdade. Todos temos o direito de escolher nossas opiniões e manifestá-las, mesmo que contrariem o status quo, vale dizer, o que se pensa e se defende comumente no estado de direito democrático. Aí é que reside o problema verdadeiro: mesmo que tenhamos o direito de defender certos pontos de vista que o senso comum abomina como antiéticos e antidemocráticos, será aconselhável fazê-lo em todas as situações? Claríssimo que não. Nossa vida é uma sequência de situações, e em cada uma delas nossas atitudes nem sempre podem ser as mesmas: dependem do que esteja em jogo em cada caso.

Alguém poderia até dizer: É, mas a Constituição brasileira me dá o direito de defender meus pontos de vista. Agora o Blogueiro chega ao ponto. É a redação de concurso público ou de vestibular o meio adequado para a defesa de pontos de vista extremos, contrários, por exemplo, à igualdade de direitos no que se refere a credo religioso, a escolhas sexuais e opções políticas? Não é. Qualquer de nós pode ter suas opiniões, por mais absurdas que sejam, mas nem todo meio e nem todo momento serão adequados para defendê-las. E a redação de vestibular não é seguramente esse meio, por muitas razões, inclusive a mais importante: obter o máximo possível em termos de pontuação.

Se o candidato sabe, deste modo, que em determinado vestibular haverá perda de pontos em caso de opiniões que contrariem os princípios éticos vigentes, deverá ter a perspicácia de conduzir sua argumentação sem correr esse risco. Para falar a verdade, o melhor mesmo será assumir tal atitude em qualquer vestibular ou concurso que venha a prestar. Com isso, um possível perigo será 100% neutralizado, podendo o candidato, em seu texto, cuidar de outros aspectos que possam levá-lo a uma pontuação maior.

Conclusão: do mesmo modo que, para não ser penalizado na nota, o candidato procura respeitar a ortografia, os princípios gramaticais, a coesão textual, deve tomar todos os cuidados para evitar que o conteúdo de seu texto possa ser penalizado pela adoção de posturas negadas e até combatidas pela sociedade atual.

Não se trata, portanto, de uma questão de direitos, mas de postura realista e de discernimento: nem sempre vale o que é em todas as situações, mas o que deve ser em situações determinadas. Valeu a observação?

 

 

Evasão universitária: algo para você pensar

October 27th, 2017

Você por certo sabe o que é evasão escolar: é o nome que se dá ao fato de estudantes que iniciam cursos, em qualquer nível, desistirem antes de formar-se, quer por necessidade, quer por decisão pessoal. No caso dos ensinos fundamental e médio, a evasão escolar é muito preocupante, pois significa que crianças e jovens crescerão sem a formação escolar necessária para a ascensão social e profissional em suas vidas.

A evasão, porém, atinge igualmente o ensino superior: jovens que conseguiram aprovação em vestibulares para os tão sonhados cursos acabam desistindo, muitas vezes ainda nos primeiros anos, de modo que o número dos que completam os cursos acaba sendo inferior — em alguns casos bem inferior — aos que iniciaram.

Mas afinal, pensará você, o que é que eu tenho a ver com isso, senhor Blogueiro, se sou apenas um candidato ainda? Na verdade, esse assunto deve interessá-lo, e muito, como base para suas reflexões sobre o que pretende ao prestar o vestibular. Pense bem: por que será que o índice de evasão universitária, mesmo nas universidades públicas é tão alto, muitas vezes beirando os 20%? Os estudos a respeito revelam que os estudantes desistentes apontam muitos motivos para abandonar os cursos que iniciaram: falta de conhecimento prévio a respeito do curso escolhido, dificuldade das aulas, pouca diversidade das grades curriculares, falta de didática de alguns professores, falta de segurança nas cidades em que se localizam as unidades universitárias, falta de infraestrutura, falta de apoio sob forma de bolsas para estudantes que necessitam, etc., etc.

Está percebendo agora como esta questão lhe interessa mesmo neste momento? Os motivos apontados devem interessá-lo e muito, pois poderá ocorrer que você se veja, quando na universidade, naquelas condições apontadas. O primeiro motivo, sobretudo, é algo que deve merecer toda a sua atenção. Não basta gostar do curso, estar apaixonado(a) por ele desde pequeno(a). É preciso investigar mais, verificar a grade curricular, ou seja, o conjunto das disciplinas e conteúdos que serão abordados ao longo do curso, para ter uma noção plena do caminho que vai trilhar. Em cursos da área de Exatas, muitas desistências são explicadas pela grande dificuldade de acompanhar as disciplinas da área nos primeiros anos.

O próprio Blogueiro se enganou, anos atrás, quando ingressou no curso de Letras Clássicas. Imaginava que iria formar-se como escritor, que era seu objetivo de vida. Na verdade, os cursos de Letras formam professores, de sorte que o Blogueiro acabou virando um professor. É claro que também se tornou escritor, embora o magistério lhe tenha causado dificuldades para atingir plenamente seu objetivo inicial. Menos mal, porque foi o magistério que sustentou sua vida, já que em nosso país a carreira de escritor não é lá muito bem remunerada.

Percebeu? Obter informações completas sobre o curso que pretende fazer é algo crucial, para evitar problemas futuros que possam levá-lo a desistir. Do mesmo modo, verificar as condições que terá na unidade universitária que ministra o curso é algo também muito importante. Para alguns, um curso numa capital é o mais desejável; para outros, será melhor numa cidade de menor porte; para outros, ainda, o ideal será na próprima cidade em que residem.

Por fim, é bom interessar-se, também, pela leitura de informações sobre os índices de evasão do curso escolhido e das razões apresentadas pelos desistentes. Não é impossível que algumas dessas razões possam fazê-lo alterar a localização do curso escolhido e até mesmo escolher outro curso.

Ficou claro para você? Ingressar numa universidade não é um ato que se limite apenas a prestar provas e receber aprovação. Será preciso, também, muita informação, muita reflexão, muita ponderação até que possa decidir com segurança. Pense nisso.

Informática: o denominador comum!

October 25th, 2017

O Blogueiro conversou ontem com uma estudante universitária que disse ter lido quase tudo do nosso Blogue, quando se preparava para o vestibular. Foram muitos elogios à utilidade dos artigos, particularmente os que abordam os problemas das provas objetiva e discursiva. Sem se revelar, o Blogueiro ficou extremamente feliz, ao perceber que os objetivos do Blogue de auxiliar os candidatos em todos os aspectos possíveis das provas estão sendo atingidos.

Conversa vai, conversa vem, a interlocutora mencionou uma passagem de que o Blogueiro nem se lembrava mais: a questão da Informática nos estudos. Essa referência provocou reflexões que culminaram com o artigo de hoje. Evidentemente, os estudantes contam com celulares, tablets, computadores não apenas para comunicar-se e se divertir, mas também para estudar. Celulares e tablets são, de fato, pequenos computadores de bolso, com os quais se faz quase tudo o que fazem laptops e computadores de mesa. A Informática invadiu nossas vidas. Tomou conta. Aos poucos, estamos até abandonando os livros em papel (as árvores agradecem) e utilizando para leitura os e-readers, que têm a vantagem de ser verdadeiras bibliotecas de bolso.

É claro que essa profusão de aparelhos e o enorme horizonte de comunicação que propiciam tem também seus lados negativos, que não precisam ser abordados neste artigo. O Blogueiro faz questão de enfatizar o aspecto da utilidade desses aparelhinhos em nossa vida particular e profissional. Este é o alerta: se ainda não está totalmente preparado para a utilização de todos os programas e recursos que a Informática coloca em nossas mãos, já é tempo de abrir os olhos. Você está prestes a fazer mais de um vestibular e, por certo, será aprovado em um deles. Então não pode ignorar que hoje, em todas as formas de atividades, a Informática está presente, é o denominador comum. Qualquer que seja o curso que venha a fazer, os computadores e seus programas representarão um dos instrumentos indispensáveis. Assim, na mesma medida em que vislumbra sua formação no curso universitário, tente vislumbrar também o papel que os computadores e programas representarão nas variadas atividades profissionais que você terá. É inimaginável, hoje, por exemplo, qualquer forma de trabalho de formação superior sem a Informática, que acabou se tornando a linguagem das linguagens.

Em inícios dos anos noventa, no século passado, alguns professores universitários eram avessos aos computadores. Hoje, fazendo um trocadilho, é impensável pensar que alguns pensem assim. No mencionado início dos anos noventa, um professor de Arquitetura afirmou a um aluno, com muita convicção, que a prancheta e o lápis jamais seriam substituídos. Pura ilusão. Não demorou muito para os softwares de computador se tornarem uma sofisticada prancheta eletrônica com milhares de recursos. As maquetes se tornaram digitais e as animações passaram a fornecer uma visão das obras projetadas muito mais próxima da realidade. Nem é preciso mencionar outros exemplos que você conhece muito bem, como os milhares de recursos e possibilidades que a Informática tornou possível hoje para a Medicina, as Engenharias, a Agronomia, o Jornalismo, a Publicidade, o Ensino, a Administração, etc., etc., etc.

É isso aí. Na mesma medida em que vai ganhando certeza de que conquistará sua vaga, informe-se também sobre os softwares que serão utilizados ao longo de sua formação nesse curso. Se ainda não sabe utilizar, terá algum tempo para preparar-se até o início das aulas. Se já sabe, procure melhorar ainda mais seu desempenho. Será um modo de ingressar no ensino superior com o pé direito, ou, dito de outro modo, com outra metáfora, muito bem calçado.

 

 

Expressão idiomática: uma faca de dois gumes

October 18th, 2017

Alguém já aconselhou a “enfeitar” seus textos com expressões idiomáticas, quer da língua portuguesa, quer do latim? Ou você mesmo resolveu fazer isso? Então é bom ser cuidadoso. Enfeites mal empregados podem tornar-se atrapalhos, isto quando não revelam ignorância. Um bom exemplo que pessoas experientes nos dão é que só devemos fazer aquilo que revele nossa capacidade, não nossa ingenuidade. Isto em qualquer atividade que tenhamos, seja na escola, seja no trabalho, seja em nossas relações com amigos e familiares. Você por certo já ouviu um narrador de futebol ou vôlei ou basquete dizer de um atleta: tentou enfeitar e se deu mal.

A questão do uso das frases idiomáticas se encaixa na observação acima. É interessante empregá-las em nossos escritos ou até mesmo em nosso discurso oral? Claro que é. Mas empregá-las com cuidado e conhecimento do que estamos realmente dizendo. Se alguns colegas seus lhe disseram que empregar expressões latinas revela conhecimento, entenda isso com muita consciência do que está fazendo. Todas as línguas são ricas em expressões idiomáticas, e isso até dificulta o aprendizado por estrangeiros. Você por certo já se deparou com muitas delas em textos em inglês e pode ter passado dificuldades para entender alguma em prova, quando conseguiu entender. Para um falante de inglês, a mesma coisa ocorre com expressões idiomáticas em português. Imagine um novaiorquino tentando entender uma expressão como confundir alhos com bugalhos. Você mesmo, que fala português, entende?

Complicado, não é? Por isso, muito cuidado ao empregar expressões como esta, se continuar sem entender. Mas, se pesquisar e verificar pelo menos alguma explicação, como por exemplo a do fato de que a bolota, fruto do carvalho, quando descascada para fazer farinha, fica bastante semelhante, visualmente, ao alho, poderá compreender melhor que, confundir alhos com bugalhos significa confundir coisas que podem até ter certas semelhanças, mas são muito diferentes. Percebeu?

Nós assimilamos muitas expressões idiomáticas à medida que vamos aprendendo a falar, desde pequenos, e acabamos empregando todas elas adequadamente, sem problemas. No escrever, porém, é preciso ter bastante precaução para não cometer nenhum deslize que prejudique a compreensão do que estamos declarando.

Os comentários feitos até aqui são reveladores, não são? Então passe a examinar com muita atenção cada expressão idiomática que lhe escapa em seu texto. Se tiver dúvida, a internet atualmente tem sites que focalizam e muito bem essa questão. Verifique, só para exercitar-se, expressões usuais como abraço de tamanduá, levantar acampamento, provar por a+b, descascar um abacaxi, ter um parafuso a menos, engolir  sapos, procurar agulha em palheiro, ser algodão entre cristais, amigo da onça, angu de caroço, etc., etc.

E muito mais cautela você deve ter com o emprego de fraseologia latina. Alguns imaginam que o emprego de expressões típicas latinas revela intelectualidade e conhecimento. Revelará, se você houver estudado latim e souber realmente o significado original da expressão e o que quer atribuir a seu texto. Se não souber, é melhor esquecer. Infelizmente, hoje são poucas as pessoas, como o Blogueiro, que estudaram três ou mais anos de latim nos ensinos fundamental e médio e outro tanto em cursos universitários. Cada expressão originária do latim tem sua história, que adere indissoluvelmente a seu significado, como Jacta est alea ou Alea jacta est. Você talvez já tenha empregado, no sentido de “a sorte está lançada”, como comumente se entende. Alea se refere ao jogo de dados. Mas poderá empregar com muito mais certeza e competência se verificar a história por trás da expressão. Esta foi pronunciada, segundo informa o historiador latino Suetônio, por Júlio César, ao atravessar o rio Rubicão, que separava as províncias das Gálias do território romano. Ao atravessá-lo, César iniciava a guerra civil contra Pompeu, em busca do poder romano, o que veio realmente a acontecer.

Percebeu? Você pode até enriquecer seus textos com expressões como essa ou também mutatis mutandis, deus ex machina, dura lex sed lex, auctoritate legis, in abstracto, etc., etc. E também pode se valer de expressões idiomáticas em outras línguas, como inglês, francês ou espanhol. Tome porém muito cuidado para fazê-lo apropriadamente, de modo a enriquecer seu texto com tons de intelectualidade, e não empobrecê-lo com traços de ingenuidade. Não vá fazer como, segundo reza o foclore futebolístico brasileiro, aquele dirigente de clube que usou, em vez da expressão faca de dois gumes, a por ele mesmo inventada faca de dois legumes!   

 

As quotas: uma universidade justa

October 5th, 2017

Você sabe, é claro, que há muitos anos se desenvolvem as reivindicações de estudantes sobre a necessidade de quotas em todas as universidades. Saiba também que o  Blogueiro sempre foi favorável a essas demandas, por razões inquestionáveis. A principal delas nasce do fato de que, por não ter um índice de investimento tão alto quanto o de escolas particulares, as escolas públicas não conseguiam levar seus alunos a desempenhos suficientes em exames vestibulares, marcados pelo grande predomínio de candidatos egressos de escolas particulares. Se você é ou está se formando agora, sabe muito bem disso.

A solução desse problema não foi fácil. Para o Blogueiro, que prestou seu vestibular ainda sem que houvesse sistema de quotas, a consciência desenvolvida nas universidades públicas a respeito da necessidade de abrir tal sistema foi um processo talvez lento, mas seguro e justo, que atinge hoje seus índices mais elevados. De fato, à medida que o número de universidades públicas aumentou, bem como o número de vagas que foram passando a oferecer, ficava evidente a distorção social nessas ofertas, já que as vagas, particularmente nos cursos mais procurados, eram predominantemente ocupadas por candidatos oriundos de classes mais abastadas, por haverem cursado escolas bem mais estruturadas e cursos preparatórios de alto custo. Poder-se-ia falar em “culpados” dessa distorção? De modo algum. Foi algo que se criou a partir do próprio crescimento populacional, do desenvolvimento do ensino no país e das sucessivas crises que veio enfrentando ao longo do tempo. As reivindicações dos estudantes, neste sentido, foram verdadeiros alertas de que as universidades deveriam criar sistemas em que o problema social do ingresso em seus cursos deveria ser enfrentado e buscadas soluções adequadas. Felizmente, tais soluções acabaram chegando sob a forma de quotas.

Neste panorama, você deve saber que a UNESP representa um dos mais louváveis exemplos. Em primeiro lugar, porque, mesmo antes do sistema de quotas, sempre foi uma universidade com alto índice de egressos da rede pública. Em segundo, porque, percebendo que isso ainda não bastava, foi elaborando e aperfeiçoando a cada vestibular seu Sistema de Reserva de Vagas para Educação Básica Pública, que atinge, nos exames vestibulares deste ano, a quota de 50% de suas vagas em todos os cursos para candidatos oriundos das escolas públicas. Esta é a melhor resposta às reivindicações dos estudantes, que podem disputar suas vagas em condições de igualdade. Neste sentido, pesquisas demonstram que tais candidatos, quando ingressam nas universidades, têm desempenho inteiramente satisfatório, muitas vezes igual ou até superior ao de egressos de escolas particulares.

Repare agora num importante aspecto das quotas que não o meramente estatístico. Elas representam o fato de anularem as perdas de talentos, que os vestibulares sem quotas, do passado, ocasionavam. São, assim, uma grande vitória na luta em busca de uma Universidade mais justa, de um Brasil mais justo, porque é da soma dos talentos de seus jovens que surgirá o país com que todos sonhamos.