Um errinho banal: sujeito preposicionado

8 de novembro de 2018

Muitas pessoas que deveriam ter um pouco mais cuidado com seu idioma, como políticos, jornalistas, profissionais ilustres que vivem cochilando em uma construção bastante simples da língua portuguesa. Os gramáticos costumam alertar para esse erro, com base no estudo dos escritores clássicos, mas nem todos levam muito a sério. Observe o exemplo seguinte, colhido nesta semana num artigo de comentarista na internet, que focalizava a questão das notícias falsas (fake news) utilizadas como meio de propaganda eleitoral:

Ela, de resto, esteve na vanguarda das notícias falsas, antes mesmo delas receberem o epíteto de fake News.

Aparentemente, para o escritor descuidado, nada há de irregular na frase acima. Mas há. Apresenta um caso de preposicionamento do sujeito, que os gramáticos não admitem: não devia estar escrito “antes mesmo delas”, mas “antes mesmo de elas”, como se vê no exemplar corrigido:

Ela, de resto, esteve na vanguarda das notícias falsas, antes mesmo de elas receberem o epíteto de fake News.

Você deve notar que “elas” é o sujeito de “receberem”, e por isso, num texto que se queira realmente formal, quando precedido por preposição como “de”, não deve, rezam os gramáticos, ocorrer a combinação com o artigo que determina o sujeito.

Embora em muitos casos aqui comentados o Blogueiro tenha ressalvado que no uso oral certos lapsos são “perdoáveis”, neste caso ocorre o contrário: é melhor cada um acostumar-se a não preposicionar o sujeito, para que o vício não passe para o texto, quando escreverem. Observe outros exemplos semelhantes:

ERRADO: Há muita chance da cantora vir ao Brasil no ano que vem.

CERTO: Há muita chance de a cantora vir ao Brasil no ano que vem.

ERRADO: Apesar do parecer não ter sido emitido, tudo correrá bem.

CERTO: Apesar de o parecer não ter sido emitido, tudo correrá bem.

ERRADO: Não se pode dizer que haja algo de ilícito nele solicitar retratação do jornalista.

CERTO: Não se pode dizer que haja algo de ilícito em ele solicitar retratação do jornalista.

ERRADO: No caso do candidato vencer a eleição, cobraremos suas promessas.

CERTO: No caso de o candidato vencer a eleição, cobraremos suas promessas.

ERRADO: É chegada a hora do Brasil desenvolver-se.

CERTO: É chegada a hora de o Brasil desenvolver-se.

Percebeu como é simples este tipo de frase? 1) Após o sujeito surge o verbo no infinitivo. 2) Quer seja a preposição “de”, quer “em”, não se pode combinar com o artigo que precede o sujeito. 3) É bom seguir esse princípio também no discurso oral, para não levar o erro ao escrito. Vamos exercitar bastante, para consolidar este conhecimento?

 

Vigie os seus as

29 de outubro de 2018

O Blogueiro resolveu retomar, neste tempo de vestibulares, uma questão que suscita dúvidas aos candidatos, provocando por vezes muitos erros. Trata-se do emprego de a (artigo), a (preposição) e há (verbo haver). Observe os exemplos:

 

A cidade, hoje, está cheia de entulho provocado pela tempestade.

Da fazenda a São Paulo são três horas de viagem.

Há três dias não para de chover em São Paulo.

 

No primeiro exemplo, o “a” que antecede “cidade” é um artigo, determinante do substantivo. Já no segundo, embora a pronúncia seja exatamente a mesma, não se trata mais de artigo, mas de uma preposição. No terceiro exemplo, “há” é a terceira pessoa do presente do indicativo do verbo “haver” (eu hei, tu hás, ele há), que tem a mesma pronúncia do artigo e da preposição, embora a grafia seja distinta. Não causa problemas quando se fala, mas, na hora de escrever, pode complicar.

O emprego do artigo geralmente não implica grande dificuldade. Já o da preposição e do verbo pode implicar erros crassos. O Blogueiro retoma esta lição, porque na própria mídia (jornais, revistas, tevês), verificam-se muito cochilos dos escritores, como, por exemplo, num jornal:

 

A cinco dias, o empresário disse que estava em Berlim.

 

Na verdade, o “a” inicial está colocado por equívoco, quando deveria o escritor ter utilizado o verbo “haver”. Talvez tenha até pensado nesse verbo, mas, na hora de escrever, escapou o “a”. A frase correta, portanto, é

 

Há cinco dias, o empresário disse que estava em Berlim.

Trata-se de um lapso bastante comum em textos escritos, particularmente na internet, em que a pressa de postar artigos predomina. Num vestibular, todavia, isso não pode acontecer. Então, atente para o fato de que o emprego do verbo “haver”, nos casos citados, aparece sempre com referência ao passado:

 

Doutorei-me há três anos.

Há exatamente nove dias o candidato disse uma grande mentira.

Meu tio garantiu que há cinco meses encontrou uma onça ferida e a curou.

 

Já a preposição “a”, quando empregada com sentido de tempo em frases que poderiam gerar confusão, não aponta para o passado, mas para o futuro:

 

A banda chegará daqui a dois dias.

Estamos a vinte e quatro horas da eleição.

 

Deu para perceber? Então sempre vigie seu emprego de “a” e “há”, para não ser prejudicado na nota, por menor que seja esse prejuízo. Centésimos ou até milésimos em sua média final podem decidir uma vaga. E nem você, nem tampouco o Blogueiro, desejam que isso aconteça.

 

Não seja subjetivo nas provas objetivas

18 de outubro de 2018

As provas assim chamadas objetivas carregam a ideia de que suas questões são elaboradas de modo lógico, com a banca elaboradora criando o enunciado e respostas possíveis a esse enunciado em cinco alternativas, devendo ser apenas uma delas a correta. Vale dizer: a banca elabora e responde cada questão, como espécie de aluno que sabe tudo, cabendo ao candidato identificar “objetivamente” a resposta mais adequada.

Antes de prosseguir, vale lembrar a você os significados de objetivo e subjetivo. Subjetivo quer dizer “relacionado ao sujeito, individual, pessoal, particular ao indivíduo”. Já objetivo quer dizer “relacionado ao objeto, válido para todos os indivíduos, e não apenas para um”.  Um poema, por exemplo, pode ser entendido como subjetivo, pois expressa conteúdos relativos ao eu do poeta. Um texto científico, porém, é necessariamente objetivo, pois a meta do cientista está centrada no que é objeto de sua pesquisa. Uma questão objetiva, assim, está completa, devendo apenas o candidato escolher a resposta correspondente.

Isto posto, você percebe que nesse tipo de questão a interpretação lógica é tudo. Deve procurar compreender primeiro o enunciado e descobrir exatamente o que solicita. Em seguida, deve entender uma a uma as alternativas, comparando-as com tal solicitação, e verificar qual a que mais provavelmente atende ao enunciado. Nesse caminho tome bastante cuidado, porque a elaboração da questão não é ingênua. O elaborador “sabe” qual a resposta correta e elabora as outras alternativas de modo a não facilitar a escolha pelo candidato. A finalidade da questão é verificar se o candidato conhece bem o conteúdo. Por isso, muitas vezes, há alternativas semelhantes, que podem causar dúvida e hesitação. O melhor modo de escapar deste tipo de obstáculo é comparar com o que solicita o enunciado.

Não esqueça, porém, de um fato importantíssimo. Caso ainda pairem dúvidas, por exemplo, entre duas alternativas, não escolha a que você “sente” como mais provável, mas o que a análise do conteúdo aponta objetivamente como mais provável, sempre pensando que a resposta certa está ali, é uma das cinco alternativas. Fazer uma prova objetiva, neste sentido, é como resolver um quebra-cabeça, lançando mão de sua inteligência e capacidade de análise e síntese. Somente em último caso deve arriscar uma resposta de que não tenha plena certeza.

O Blogueiro quase ia esquecendo de lembrar: você precisa, é claro, ter um bom conhecimento dos conteúdos, tanto para questões objetivas quanto para questões discursivas. Sem isso, o melhor dos métodos não funcionará.

 

 

 

Empregue bem “democracia”

11 de outubro de 2018

Nesta época de grande efervescência política e eleições, você não tem como esquivar-se das falas de políticos, jornalistas, comentaristas e críticos que a todo instante surgem na mídia (televisões, rádios, jornais, revistas) e o bombardeiam com suas opiniões sobre o que está ocorrendo e o que pode ocorrer. Será este presidente o eleito? Aquele o governador? Aqueloutro o senador? E os deputados federais? E os estaduais?

O perigo, porém, não corresponde aos candidatos nem aos partidos, mas às palavras. E são estas que podem atrapalhá-lo em eventuais questões e propostas de redações dos diversos exames vestibulares. Será difícil, a esse respeito, que muitos vestibulares não adotem como tema de redações fatos políticos sobre as eleições deste ano e os eventos a estas relacionados. Aí, todo cuidado é pouco. Mesmo que não aprecie muito, você deve ter prestado atenção a muitas notícias e, nesse processo, aprendido o significado de muitas palavras que antes não lhe provocavam maior interesse.

Uma dessas palavras, com certeza, muitíssimo empregada, é democracia. É uma verdadeira moeda corrente, que frequenta dezenas de vezes por dia os programas da mídia. Que lhe pode dizer o Blogueiro a respeito? Alerta! Antes de se deixar levar pelo emprego da palavra por este ou aquele jornalista, este ou aquele candidato, procure conhecer muito bem o verdadeiro sentido dela, que dicionários como o Aurélio e o Houaiss apresentam:

Aurélio: Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição equitativa do poder, ou seja, regime de governo que se caracteriza, em essência, pela liberdade do ato eleitoral, pela divisão dos poderes e pelo controle da autoridade, i. e., dos poderes de decisão e de execução; democratismo.

Houaiss: governo em que o povo exerce a soberania; sistema político em que os cidadãos elegem os seus dirigentes por meio de eleições periódicas; regime em que há liberdade de associação e de expressão e no qual não existem distinções ou  privilégios de classe hereditários ou arbitrários; país em que prevalece um governo democrático.

Observando e interpretando muito bem o que definiram os dois mestres, você terá a perfeita noção do que é democracia ou regime democrático de governo. E perceberá, com certeza, que nem todas as pessoas empregam a palavra com esse sentido. Muitos, aliás, a usam com o significado exatamente oposto. Há até países que se intitulam democráticos, em que o povo é inteiramente dominado pelas classes dirigentes. Esteja atento, portanto, para não cair na armadilha de usar a palavra democracia num sentido que não se coaduna com o que aparece definido pelos dois lexicógrafos citados.

Não é demais repetir, neste final, o que resume mestre Aurélio, para servir-lhe de bússola, caso venha a empregar a palavra numa resposta de questão discursiva ou numa redação:  Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição equitativa do poder, ou seja, regime de governo que se caracteriza, em essência, pela liberdade do ato eleitoral, pela divisão dos poderes e pelo controle da autoridade, i. e., dos poderes de decisão e de execução.

 

 

 

 

Sua redação: o começo e o fim

11 de outubro de 2018

Dando como certeza que você vai ser aprovado na primeira fase do exame vestibular da Unesp, o Blogueiro quer fazer algumas observações muito importantes sobre a segunda fase, em especial a prova de redação.

Você está cansado de saber que toda redação dissertativa apresenta um início, em que a abordagem do tema é introduzida e justificada, um meio, o corpo da redação, em que sua argumentação se desenvolve, e um final, a que sua argumentação converge. Esses três patamares, em seu conjunto, têm de estar indissoluvelmente entrosados, formando um todo. Tecnicamente, percebe-se que o começo e o final trazem certas dificuldades de entrosamento. Muitas lições são dadas, por isso, a respeito de como proceder, mas nem sempre são muito recomendáveis, vale dizer, podem trazer mais prejuízos que vantagens a seu texto.

Algumas pessoas podem tentar ensiná-lo, em sua prova de redação, a começar com chavões, como, por exemplo, Desde a mais remota antiguidade, Desde os tempos mais primitivos, Nos primórdios, etc., etc. Dizem que, deste modo, seu texto mostrará competência e capacidade de escritor desde o começo. Trata-se, na verdade, de um mau conselho. Você reparou que o Blogueiro disse chavões exatamente para caracterizar que frases como tais são muito batidas pelo uso. Se consultar seu dicionário, verificará que chavões são também chamados lugares-comuns, estereótipos, clichês, chapas, ou seja, expressões ou frases cujo uso repetido e retomado as torna vulgares demais, inteiramente faltas de originalidade. Não enriquecem, mas empobrecem seu texto.

É melhor, portanto, iniciar a redação de outro modo, focalizando diretamente o tema proposto.

O mesmo se pode dizer dos finais. Nada de enfatizar o encerramento com portanto, por isso, concluindo, como acabamos de demonstrar, etc., etc. Será muito melhor fazer uma ligação mais adequada entre os argumentos apresentados ao longo do texto e a conclusão, com palavras e expressões simples que caracterizem melhor a firmeza de sua linha argumentativa e o coroamento desta no parágrafo de encerramento.

Busque sempre, quer no início, quer no final, ser simples e direto, sem recair na vulgaridade e no emprego de expressões batidas. Simplicidade e eficácia serão a melhor solução para a exposição de suas ideias e a compreensão destas pela banca de correção. Não faça como o jogador de futebol que, quando ia marcar um belo gol, resolveu dar um drible a mais, fazer uma firula, e acabou sendo desarmado, desperdiçando a oportunidade.

Exibir-se, quer ao jogar futebol, quer ao escrever, pode ser até prazeroso, mas carrega perigos que nem sempre vale a pena enfrentar.

 

Acentue/não acentue ói, éi, éu / oi, ei, eu

26 de setembro de 2018

A reforma ortográfica ocorrida há alguns anos, resultante de acordo entre países de língua portuguesa, não modificou muito as regras antigas, mas deixa você por vezes em dúvida no que se refere à acentuação, pois acabou produzindo algumas armadilhas. Você já pode ter caído, sem querer, em algumas delas. Um bom conselho, nesse caso, é não tentar entender todas as alterações de uma só vez, mas procurar esclarecer uma a uma.

Um dos casos que pode nos deixar atrapalhados é a acentuação dos ditongos abertos tônicos, que, na regra antiga, recebiam sempre o acento agudo, quer em palavras paroxítonas, quer em oxítonas ou monossílabas. Assim, era bem fácil memorizar e aplicar: véu, papéis, heróico. A regra atual, porém, criada pela reforma, dispensou o acento gráfico no caso de a palavra ser paroxítona: heroico, epopeia, apneia. Houve, portanto, uma redução do número de vocábulos atingidos pela regra. Só continuaram a receber o acento gráfico os ditongos abertos tônicos de palavras oxítonas e monossílabas: coronéis, cachecóis, réis, sóis. É claro, que, assim, ficou mais simples e econômico, mas com a possibilidade de provocar equívocos, como no caso da palavra ideia, que de vez em quando nos leva a deixar escapar o acento agudo sobre o -e-. O próprio Blogueiro cometeu esse deslize no início da aplicação da nova regra, pois estava acostumado a colocar o acento desde que passara a frequentar a escola. Quebrar velhos hábitos não é muito fácil.

Entendeu? Como os ditongos abertos tônicos soam muito nítidos e fortes, podemos nos distrair e colocar o acento agudo onde a regra não mais permite. É bom, por isso, manter a vigilância e só marcar com o acento agudo as vogais dos ditongos abertos tônicos de palavras oxítonas e monossílabas: chapéu, chapéus, herói, heróis, papéis, pastéis, coronéis, urinóis, lençóis, atóis, réis, sóis, véu, véus, dói (verbo doer).

Ter em mente uma razoável relação de palavras paroxítonas cujos ditongos abertos tônicos não se acentuam é também recomendável: heroico, estoico, paranoico, ateia, ideia, panaceia, apoio (verbo apoiar), ureia, epopeia, epopeico, assembleia, boleia, jiboia, onomatopeico, proteico, alcaloide, boia, comboio (verbo comboiar), estroina, introito, centopeia, diarreia, estreia, europeia, geleia, plateia, debiloide, ovoide, colmeia, Coreia, plebeia, asteroide.

Agora ficou mais fácil, não é? Mas tome cuidado e seja bem observador: uma palavra como destróier não se enquadra nessa regra, porque termina em –r.  Enquadra-se, no entanto, entre os paroxítonos terminados em –r, que sempre recebem o devido acento gráfico: revólver, pulôver, destróier, etc.

Tudo claro agora? Então, mantenha-se sempre atento com respeito a essa regra e às outras que foram modificadas em parte ou no todo com a reforma ortográfica.

 

Cuidado com o “de” indevido!

21 de setembro de 2018

A Língua Portuguesa, como você sabe, é cheia de manhas. Por isso, é preciso tomar muito cuidado, quando escrevemos, em não omitir o que deve ser evidenciado ou apresentar o que não deve existir.

Um bom exemplo que o Blogueiro quer explicar neste artigo diz respeito ao emprego ou não emprego da preposição “de”. Você aprendeu que há verbos e nomes (substantivos, adjetivos) que pedem a presença dessa preposição antes do complemento que vem em seguida. Complementos de verbos cuja regência solicita uma preposição se enquadram como objetos indiretos; e complementos de nomes cuja regência solicita preposição se identificam como complementos nominais. Eis alguns exemplos de frases em que a regência dos verbos solicita a preposição “de”:

Eu precisava da nota que o professor me deu.

Os operários foram avisados de que a fábrica faliu.

Não necessito de ninguém para me auxiliar.

Observe também exemplos de complementos nominais precedidos da mesma preposição:

Tenho medo de que me assaltem.

O hospital tem urgência de medicamentos adequados.

Acho que estou isento de imposto de renda.

Estou convencido de que o planejamento é necessário.

Até aqui, tudo bem. Usualmente, você erra pouco nessa questão de regência verbal e nominal. Todavia, se prestar bem atenção nas entrevistas em rádios, tevês e jornais, verificará que, muitas vezes, os entrevistados cometem erros crassos, ao “inventar” a presença de “de” em contextos nos quais a regência não solicita essa preposição. Observe exemplos disso:

O candidato declarou de que tem certeza da vitória.

Ninguém achava de que os ventos fossem tão fortes.

Meus melhores professores sequer imaginavam de que o vestibular fosse tão difícil.

O prefeito solicitou de que houvesse maior vigilância nas praças da cidade.

Percebeu bem a razão do emprego indevido da preposição? Trata-se de um erro crasso e você mesmo pode julgar esse deslize lembrando do que dizia o professor em seu curso fundamental: declarar alguma coisa; achar alguma coisa; imaginar alguma coisa; solicitar alguma coisa. Esse “alguma coisa”, ainda dizia o professor, é um objeto direto ou uma oração subordinada substantiva objetiva direta. Portanto, nada de “inventar” preposição onde a estrutura da frase não a solicita.

Faça uma boa revisão de seus textos, para verificar se não andou escorregando nesse equívoco, certo? E, para se divertir, preste atenção nas entrevistas na tevê para verificar como os figurões cometem esse erro, achando que estão falando muito bem.

 

Sua resposta, sua proposta

18 de setembro de 2018

Você acha que em vestibulares haverá perguntas fáceis e perguntas difíceis? Está ligeiramente enganado. Não existe isso. Vestibular não tem por objetivo facilitar sua vida, mas avaliá-lo. As perguntas são elaboradas geralmente com a mesma dose de dificuldade. Você, evidentemente, pode achar umas fáceis, outras difíceis, na medida em que saiba responder sem ou com dificuldades. Essa facilidade, porém, corresponde ao seu conhecimento, e não propriamente ao fato de serem em si as questões fáceis ou difíceis, ou mais fáceis e mais difíceis.

É muito importante perceber isso, para não se ver atrapalhado em suas respostas ao considerar que certas questões são muito difíceis e não vale a pena dedicar muita atenção a elas. Na verdade, podem ser apenas trabalhosas, solicitando uma atenção um pouco maior que outras, em virtude da sua dificuldade em entendê-las ou do conhecimento em que se baseiam. Em resumo: em provas de vestibulares, não há questões “dadas”. Como geralmente se fundamentam em textos, cabe a você perceber que suas respostas estarão condicionadas ao que dizem esses textos. Por vezes, você pode até discordar da opinião neles manifestada, mas deve ler com muita atenção o enunciado das questões para verificar exatamente o que é pedido a respeito desta ou daquela passagem. Sua opinião será manifestada na redação. Nas perguntas, você deve encontrar o que se pede que encontre nos textos, e não na sua opinião particular.

Do que se disse acima se conclui que é da maior importância praticar a leitura e a interpretação. Quando a banca elaboradora estabelece as questões, tem como objetivo avaliar diferentes habilidades de leitura e de interpretação de textos, além, é claro, do conhecimento específico em virtude do qual tais textos foram escolhidos. Isso vale para todas as diferentes disciplinas e conteúdos que compõem as provas. Comece a analisar questões de provas e respectivas respostas de vestibulares anteriores, para verificar como costumam operar os elaboradores. Você pode, com isso, até descobrir certas “manhas” dos elaboradores ao focalizar um aspecto para interpretação. Depois de algum tempo, perceberá que perguntas à primeira vista consideradas difíceis são apenas mais trabalhosas para compreender o que pretendiam os elaboradores e, talvez por isso mesmo, para responder de modo adequado.

Assim fazendo, você chegará à conclusão de que suas respostas não podem ser extremamente simples, realizadas, por exemplo, por meio de uma frase curta. Responder uma questão é, neste sentido, fazer análise, interpretação e apresentar o resultado de forma mais clara possível. De certo modo, ao responder questões discursivas, por exemplo, você acaba elaborando uma verdadeira proposta de solução, que tem de ser muito bem embasada nos elementos questionados. Isso não quer dizer, por outro lado, que deva escrever demais ou encher linguiça, como costuma dizer o povo a alguém que fala muito e acaba não dizendo nada. Sua resposta, além de identificar o que é solicitado, tem de ser bem dosada, para demonstrar que você fez o caminho certo ao longo da leitura.

É com isso em mente que deve fazer exercícios de leitura e intepretação ao longo de seus estudos. Analise as questões de vestibulares anteriores, verifique as respostas apresentadas pelos diferentes sites de cursos preparatórios e escolas. Tente mesmo fazer a crítica dessas respostas, verificando em que aspectos poderiam ser mais claras e explícitas.

E não esqueça, quando estiver fazendo seu vestibular: de certo modo, ao responder, você está elaborando uma proposta de interpretação ante a proposta de questão elaborada pela banca.

Agora você já sabe responder a indagação inicial deste artigo: com a preparação e o treinamento adequados, todas as questões se tornam fáceis.

 

É bom saber um pouco de juridiquês, economês e politiquês

6 de setembro de 2018

Enquanto você se prepara para as provas de seu vestibular, o Brasil continua vivendo uma fase muito turbulenta em termos econômicos, políticos e jurídicos. É praticamente impossível que você não tenha percebido isso.

O problema, porém, não é perceber, é descobrir se alguma coisa desse período pode interferir de algum modo em seus exames. Pode? Na verdade, pode, sim. Em primeiro lugar, porque não é impossível que os elaboradores de provas de História ou de Filosofia, por exemplo, escolham temas para questões que versem, direta ou indiretamente, sobre problemas semelhantes aos que vive nosso país. Por isso é bom estar atualizado a respeito. Nada de dizer que economia não lhe diz respeito. Diz, sim. Nada de afirmar que não gosta de política. Goste ou não goste, tem de conhecer. E igualmente, goste ou não goste, é bom estar bem informado sobre o que hoje ocorre nos meios jurídicos, especialmente no que diz respeito aos julgamentos de indivíduos apanhados com a mão na massa ou, como também diz o povo, com a boca na botija do erário de nosso país.

E não é improvável, também, que a proposta de redação de algum vestibular fundamente nesses fatos o tema solicitado.

O Blogueiro pensou nisso uns dias atrás, ao ouvir na televisão entrevistas e comentários de especialistas recheados de expressões do que podemos um tanto vulgarmente chamar juridiquês, politiquês e economês, vale dizer, o discurso ou o vocabulário jurídico, político e econômico. Eis algumas dessas expressões que o Blogueiro anotou na oportunidade: sub judice, a seu talante, questão de ordem, habeas corpus, carta magna,  acórdão. Você conhece o significado e a aplicação de todas elas? Pelas razões apontadas, é bom conhecer.

A locução sub judice está sendo muito frequente nos meios de comunicação. Significa em juízo, sob apreciação judicial, que ainda não recebeu sentença definitiva. Exemplo: O processo contra o candidato ainda se encontra sub judice.

 

A seu talante é uma expressão que significa simplesmente a sua vontade, a seu arbítrio, a seu desejo (lembrando que talante significa isso mesmo: vontade, arbítrio, escolha, desejo, etc.). Os juristas adoram empregá-la.

Com certeza já ouviu a expressão questão de ordem muitas vezes, até mesmo em assembleias estudantis. Os políticos em suas sessões deveriam empregá-la apenas para, quando não estão com o a palavra, pedir esclarecimento ou informação sobre o encaminhamento dos trabalhos. Na prática, porém, a expressão questão de ordem acaba sendo usada para fazer qualquer tipo de interrupção, inclusive manifestação de reparos ou críticas àquele que está com a palavra. Transformou-se, portanto, em mero pretexto para interromper o andamento dos trabalhos. Ninguém reclama da distorção, porque todos a usam.

Habeas corpus é uma locução da língua latina muito usada nos meios jurídicos, particularmente na atualidade, em que há tantas pessoas presas ou sendo julgadas. No latim, significa que tenhas o corpo. Em português, na prática, já se tornou um substantivo composto, pois é empregada precedida de artigo: o habeas corpus. Na prática jurídica, corresponde ao pedido dos advogados de que o acusado aguarde o julgamento em liberdade, mediante fiança, o que, porém, só é permitido por lei em determinados casos.

O termo carta magna, sinônimo de constituição, carta constitucional, lei básica, lei maior, significa o conjunto das leis fundamentais que regem a vida de uma nação. Deve ser estabelecida por uma assembleia constituinte formada pelos representantes de todas as classes da população. Em algumas nações, porém, ditadores impõem, a seu talante, uma constituição forjada por eles mesmos.

Acórdão é o termo usado para designar uma decisão sobre um processo judicial proferida por um tribunal superior. Neste sentido, funciona como paradigma para a solução posterior de casos análogos.

Percebeu? Termos como esses, que antes pareciam confinados ao universo jurídico e político, estão aí na mídia às dezenas aos nossos ouvidos e vistas, em virtude da tecnologia da informação e dos percalços por que passa a vida brasileira na atualidade. É recomendável, portanto, que você dê um pouco mais de importância a eles e pesquise na rede, para estar ainda mais preparado para as questões sobre atualidades em suas provas. Não deixe que sejam familiares somente a candidatos ao curso de Direito ou a profissionais das áreas mencionadas, mas a você também. De repente, numa proposta de redação…

 

Pronome relativo e preposição: que perigo!

30 de agosto de 2018

Já examinou com atenção o que acontece quando você emprega pronomes relativos em seu discurso, tanto oral, quanto escrito? Se não prestou, deve prestar. E muito. Claro que você sabe o que são pronomes relativos e os identifica facilmente, como, por exemplo, os seguintes: que, quem o qual (a qual, os quais, as quais), cujo (cuja, cujos, cujas). Em frases como

 

O professor que chegou estava doente.

Não conheço a pessoa a quem você se refere.

A igrejinha, cuja torre se pode ver deste morro, está em obras.

você identifica facilmente os relativos que, quem e cuja. Parecem tão fáceis de reconhecer, que nem é preciso estudar muito.

Aí é que mora o perigo. E este surge quando a regência de um nome ou de um verbo solicita a presença de uma preposição antes do relativo. Se a omitimos, a frase fica manca e quem corrige nosso texto pode nos penalizar com um desconto de nota. Observe os exemplos seguintes:

 

Esta regra, que discordamos, não tem fundamento algum.

Não sei quem você brigou, mas não acredito muito.

A garota a qual meu vizinho se refere não estava lá nesse dia.

No discurso oral, frases como essas acabam passando sem que haja reclamação dos interlocutores, embora esteja em todas elas faltando uma preposição antes dos pronomes relativos. No discurso escrito, porém, especialmente em uma prova discursiva ou numa redação, a lacuna é detectada e penalizada de imediato. O adequado seria empregar

Esta regra, de que discordamos, não tem fundamento algum.

Não sei com quem você brigou, mas não acredito muito.

A garota à qual meu vizinho se refere não estava lá nesse dia.

 

Percebeu? O verbo discordar solicita a preposição “de”; já brigar implica “com”; e referir-se pede “a”. Por isso os relativos que, quem e a qual devem vir precedidos das referidas preposições: de que, com quem, à qual.

O perigo, porém, é ainda maior quando uma vaga ideia da necessidade de preposição surge na mente do usuário (falante, escritor), de modo que ele tenta consertar o esquecimento com um remendo. Essa atitude é comum no discurso coloquial, mas pode também chegar ao escrito. Observe:

 

A garota que eu saí com ela estuda Direito.

O futebol é um esporte que gostamos muito dele.

 

Notou? No primeiro exemplo, o usuário deveria ter dito ou escrito A garota com que eu saí estuda Direito. Mas acabou produzindo uma sequência absurda, em que uma personagem é referida três vezes, de três modos diferentes: a garota, que, ela. E a preposição, que deveria preceder o relativo, acabou precedendo o pronome ela, que invadiu indevidamente a frase. No segundo exemplo, a forma adequada deve ser O futebol é um esporte de que gostamos muito.

Viu que perigos se correm nesses casamentos entre preposições e pronomes relativos? Faça uma revisão criteriosa de suas redações para verificar se não caiu numa dessas armadilhas.