É bom saber um pouco de juridiquês, economês e politiquês

6 de setembro de 2018

Enquanto você se prepara para as provas de seu vestibular, o Brasil continua vivendo uma fase muito turbulenta em termos econômicos, políticos e jurídicos. É praticamente impossível que você não tenha percebido isso.

O problema, porém, não é perceber, é descobrir se alguma coisa desse período pode interferir de algum modo em seus exames. Pode? Na verdade, pode, sim. Em primeiro lugar, porque não é impossível que os elaboradores de provas de História ou de Filosofia, por exemplo, escolham temas para questões que versem, direta ou indiretamente, sobre problemas semelhantes aos que vive nosso país. Por isso é bom estar atualizado a respeito. Nada de dizer que economia não lhe diz respeito. Diz, sim. Nada de afirmar que não gosta de política. Goste ou não goste, tem de conhecer. E igualmente, goste ou não goste, é bom estar bem informado sobre o que hoje ocorre nos meios jurídicos, especialmente no que diz respeito aos julgamentos de indivíduos apanhados com a mão na massa ou, como também diz o povo, com a boca na botija do erário de nosso país.

E não é improvável, também, que a proposta de redação de algum vestibular fundamente nesses fatos o tema solicitado.

O Blogueiro pensou nisso uns dias atrás, ao ouvir na televisão entrevistas e comentários de especialistas recheados de expressões do que podemos um tanto vulgarmente chamar juridiquês, politiquês e economês, vale dizer, o discurso ou o vocabulário jurídico, político e econômico. Eis algumas dessas expressões que o Blogueiro anotou na oportunidade: sub judice, a seu talante, questão de ordem, habeas corpus, carta magna,  acórdão. Você conhece o significado e a aplicação de todas elas? Pelas razões apontadas, é bom conhecer.

A locução sub judice está sendo muito frequente nos meios de comunicação. Significa em juízo, sob apreciação judicial, que ainda não recebeu sentença definitiva. Exemplo: O processo contra o candidato ainda se encontra sub judice.

 

A seu talante é uma expressão que significa simplesmente a sua vontade, a seu arbítrio, a seu desejo (lembrando que talante significa isso mesmo: vontade, arbítrio, escolha, desejo, etc.). Os juristas adoram empregá-la.

Com certeza já ouviu a expressão questão de ordem muitas vezes, até mesmo em assembleias estudantis. Os políticos em suas sessões deveriam empregá-la apenas para, quando não estão com o a palavra, pedir esclarecimento ou informação sobre o encaminhamento dos trabalhos. Na prática, porém, a expressão questão de ordem acaba sendo usada para fazer qualquer tipo de interrupção, inclusive manifestação de reparos ou críticas àquele que está com a palavra. Transformou-se, portanto, em mero pretexto para interromper o andamento dos trabalhos. Ninguém reclama da distorção, porque todos a usam.

Habeas corpus é uma locução da língua latina muito usada nos meios jurídicos, particularmente na atualidade, em que há tantas pessoas presas ou sendo julgadas. No latim, significa que tenhas o corpo. Em português, na prática, já se tornou um substantivo composto, pois é empregada precedida de artigo: o habeas corpus. Na prática jurídica, corresponde ao pedido dos advogados de que o acusado aguarde o julgamento em liberdade, mediante fiança, o que, porém, só é permitido por lei em determinados casos.

O termo carta magna, sinônimo de constituição, carta constitucional, lei básica, lei maior, significa o conjunto das leis fundamentais que regem a vida de uma nação. Deve ser estabelecida por uma assembleia constituinte formada pelos representantes de todas as classes da população. Em algumas nações, porém, ditadores impõem, a seu talante, uma constituição forjada por eles mesmos.

Acórdão é o termo usado para designar uma decisão sobre um processo judicial proferida por um tribunal superior. Neste sentido, funciona como paradigma para a solução posterior de casos análogos.

Percebeu? Termos como esses, que antes pareciam confinados ao universo jurídico e político, estão aí na mídia às dezenas aos nossos ouvidos e vistas, em virtude da tecnologia da informação e dos percalços por que passa a vida brasileira na atualidade. É recomendável, portanto, que você dê um pouco mais de importância a eles e pesquise na rede, para estar ainda mais preparado para as questões sobre atualidades em suas provas. Não deixe que sejam familiares somente a candidatos ao curso de Direito ou a profissionais das áreas mencionadas, mas a você também. De repente, numa proposta de redação…

 

Pronome relativo e preposição: que perigo!

30 de agosto de 2018

Já examinou com atenção o que acontece quando você emprega pronomes relativos em seu discurso, tanto oral, quanto escrito? Se não prestou, deve prestar. E muito. Claro que você sabe o que são pronomes relativos e os identifica facilmente, como, por exemplo, os seguintes: que, quem o qual (a qual, os quais, as quais), cujo (cuja, cujos, cujas). Em frases como

 

O professor que chegou estava doente.

Não conheço a pessoa a quem você se refere.

A igrejinha, cuja torre se pode ver deste morro, está em obras.

você identifica facilmente os relativos que, quem e cuja. Parecem tão fáceis de reconhecer, que nem é preciso estudar muito.

Aí é que mora o perigo. E este surge quando a regência de um nome ou de um verbo solicita a presença de uma preposição antes do relativo. Se a omitimos, a frase fica manca e quem corrige nosso texto pode nos penalizar com um desconto de nota. Observe os exemplos seguintes:

 

Esta regra, que discordamos, não tem fundamento algum.

Não sei quem você brigou, mas não acredito muito.

A garota a qual meu vizinho se refere não estava lá nesse dia.

No discurso oral, frases como essas acabam passando sem que haja reclamação dos interlocutores, embora esteja em todas elas faltando uma preposição antes dos pronomes relativos. No discurso escrito, porém, especialmente em uma prova discursiva ou numa redação, a lacuna é detectada e penalizada de imediato. O adequado seria empregar

Esta regra, de que discordamos, não tem fundamento algum.

Não sei com quem você brigou, mas não acredito muito.

A garota à qual meu vizinho se refere não estava lá nesse dia.

 

Percebeu? O verbo discordar solicita a preposição “de”; já brigar implica “com”; e referir-se pede “a”. Por isso os relativos que, quem e a qual devem vir precedidos das referidas preposições: de que, com quem, à qual.

O perigo, porém, é ainda maior quando uma vaga ideia da necessidade de preposição surge na mente do usuário (falante, escritor), de modo que ele tenta consertar o esquecimento com um remendo. Essa atitude é comum no discurso coloquial, mas pode também chegar ao escrito. Observe:

 

A garota que eu saí com ela estuda Direito.

O futebol é um esporte que gostamos muito dele.

 

Notou? No primeiro exemplo, o usuário deveria ter dito ou escrito A garota com que eu saí estuda Direito. Mas acabou produzindo uma sequência absurda, em que uma personagem é referida três vezes, de três modos diferentes: a garota, que, ela. E a preposição, que deveria preceder o relativo, acabou precedendo o pronome ela, que invadiu indevidamente a frase. No segundo exemplo, a forma adequada deve ser O futebol é um esporte de que gostamos muito.

Viu que perigos se correm nesses casamentos entre preposições e pronomes relativos? Faça uma revisão criteriosa de suas redações para verificar se não caiu numa dessas armadilhas.

 

Qual a disciplina mais importante?

29 de agosto de 2018

Você já se perguntou qual a disciplina mais importante em um vestibular ou outro concurso? Provavelmente deve ter sua opinião. Se o curso buscado se situa na área de Exatas, por certo julgará que é Matemática a disciplina mais importante; se na área de Biológicas, não terá dúvidas em dizer que é a Biologia; se em Humanas, é claro que vai depender da natureza do curso.

Nada mais natural. Essa questão, porém, pode ser observada por você sob outro ponto de vista: o da utilidade da disciplina no vestibular ou concurso como um todo. E não será necessário pensar muito para concluir que a mais importante, em termos de utilidade para praticamente todas as provas de todas as áreas, é realmente a Língua Portuguesa. Por quê? Muito simples, até óbvio: porque suas respostas, quaisquer que sejam tais disciplinas, são feitas em Língua Portuguesa. Deste modo, não adianta muito saber a resposta de qualquer pergunta, se não for capaz de demonstrar esse conhecimento com um discurso claro e adequado, que não deixe margem de dúvidas para a banca de correção. Basta um equívoco, uma palavra empregada indevidamente, uma regência verbal errada ou uma sequência que produza duplo sentido para lhe tirar pontos preciosos, até mesmo toda a nota.

Foi exatamente por isso que os professores de Língua Portuguesa tanto insistiram em que você desenvolvesse em alto nível sua capacidade de ler e interpretar, bem como dominasse seu discurso, evitando obscuridades, ambiguidades, prolixidades, laconismos. Muitos estudantes julgam que os professores de português exageram nessas exigências. Alguns até ironizam, sugerindo que querem torná-los literatos. Sou um cara simples, não sou poeta, quero apenas saber o suficiente de português para prestar meus exames! dizem. E estão enganados. Não têm consciência, por exemplo, de que grandes poetas ou prosadores eram advogados, médicos, engenheiros, que, além de conhecerem muito bem os conteúdos de sua formação, dominavam o discurso em língua portuguesa. Guimarães Rosa era médico. Monteiro Lobato era formado em Direito e foi promotor público, Carlos Drummond de Andrade era formado em Farmácia, Joaquim Cardozo era engenheiro (fez os cálculos de projetos de Niemeyer na Pampulha e em Brasília), só para citar alguns grandes escritores nacionais.

É preciso, portanto, repensar a importância que você atribui à Língua Portuguesa em sua formação nos ensinos fundamental e médio, bem como na participação em exames vestibulares. A Língua Portuguesa é seu instrumento fundamental, qualquer que seja a profissão escolhida. Estudá-la a fundo não é obrigação, é necessidade.

Além de tudo o que o Blogueiro disse, é preciso lembrar que nos vestibulares além de toda essa importância para as outras disciplinas, você tem de fazer uma prova de redação que vale muito em pontos para a média. Pense em tudo isso e agradeça a seus professores pelo grande favor que fizeram a você, insistindo no aperfeiçoamento de sua capacidade de ler, compreender, interpretar e escrever.

 

Respostas inseguras: um ponto negativo

17 de agosto de 2018

Talvez você nunca tenha pensado muito a respeito, mas, independentemente de estar certo ou errado, o modo como responde uma questão de prova pode interferir no julgamento de sua resposta. O ideal é escrever com convicção, mostrando segurança. Mesmo que não tenha plena certeza de ter entendido inteiramente a questão, é preciso escrever com clareza, para valorizar sua resposta. Isso, porém, nem sempre acontece e, preocupado com o que não sabe, acaba não conseguindo demonstrar o que sabe.

Este é exatamente o caso das respostas que o Blogueiro denomina inseguras, por revelarem mais as dúvidas do que as certezas do candidato. A insegurança pode revelar-se em pedidos de desculpas ou, menos mal, no uso de palavras ou expressões que materializam a hesitação. Típica manifestação de insegurança é o emprego de formas verbais no futuro do pretérito (seria, haveria, poderia, etc.), de advérbios de dúvida (talvez, provavelmente, possivelmente, etc.) ou de expressões como acho que, penso que, creio que.

Um exemplo de resposta em vestibular antigo da Unesp pode servir para que você entenda melhor esse perigo. A questão focalizava um texto de Darcy Ribeiro sobre a colonização portuguesa, particularmente a respeito da aproximação e convivência entre portugueses e indígenas. Darcy empregou o termo “guerra biológica” como imagem do fato de os portugueses haverem trazido consigo vírus e bactérias que causaram extermínio de parte da população indígena. Observe uma resposta insegura a tal questão:

 

Seria o confronto entre os índios saudáveis e os brancos impregnados de doenças. Vivendo no meio da natureza por vários anos, os índios não estavam imunes às doenças do velho mundo que seriam trazidas pelos europeus. Dessa forma os índios morreriam facilmente com qualquer doença, até mesmo as mais fracas gripes. Esse fator seria decisivo para a dizimação dos nativos.

Dá para perceber que o candidato compreendeu o significado de “guerra biológica”, mas o uso excessivo do futuro do pretérito nos verbos (seria, seriam, morreriam, seria) atrapalha bastante sua resposta, que dessa forma parece revelar indecisão, podendo provocar um desconto de nota. Com menos insegurança, o candidato deveria ter escrito foi, era, morriam, foi.

Percebeu o risco de usar o futuro do pretérito? Então passe a tomar bastante cuidado com ele a partir de agora. E cuidado também com os advérbios de dúvida e expressões que denotam falta de certeza. Note o que fazem quando empregados:

(A) Os indígenas eram pessoas generosas.

(B) Provavelmente os indígenas eram pessoas generosas.

(C) Eu acho que os indígenas eram pessoas generosas.

Notou? Na frase (A) a afirmação é categórica, mas, se acrescentado o advérbio “provavelmente”, transforma-se, na frase (B), numa possibilidade, uma hipótese; e, na frase (C), “Eu acho que” sugere falta de confiança na própria declaração. Imagine isso ocorrendo, por insegurança, numa resposta discursiva. Esta sofrerá perda de pontos na correção.  Neste caso, vale o alerta: você sabe integral ou parcialmente a resposta correta ou não sabe; qualquer que seja o caso, é melhor jogar fora esses seria, poderia, haveria, talvez, provavelmente, eu acho que, etc., etc., e procurar ser claro, direto e positivo em todas as respostas. Isso não o fará ganhar mais pontos, mas, seguramente, também não o fará perder.

Faça experiências a respeito, utilizando respostas que já deu em provas e simulados. Você só terá a ganhar.

 

Pronúncia ruim, escrita pior

13 de agosto de 2018

O Blogueiro não se cansa de alertar os candidatos para deslizes que podem prejudicar suas notas, tanto em redações quanto em respostas discursivas. Tais deslizes, muitas vezes, passam despercebidos aos estudantes, em virtude da relação estreita, mas errônea, entre sua fala e sua escrita. Preste bastante atenção nas seguintes frases:

Espero que meu novo colega não seje preconceituoso.

Quando eu ver você na escola, entregarei o caderno.

Se ele por algum defeito em meu trabalho, ficarei triste.

Se você supor que eu o enganei, poderei explicar.

Todos esperamos que nossa colega esteje bem.

Pedro disse que eu robo, mas não é verdade.

Minha irmã foi ao cabelereiro.

Há pessoas que gostam de agorar.

A chegada de minha colega foi um estoro.

Meu professor disse que o uso de aerosol é proibido.

Em frente à catedral há uma pessoa mendingando.

Pode baixar, que esse game é gratuíto.

Colocados todos juntos, os erros que aparecem nessas frases parecem óbvios. Nem tanto. São lapsos comuns em concursos e provas de vestibulares. Por quê? A razão é simples: como nossa fala diária é menos tensa, nem sempre nos damos ao cuidado de pronunciar corretamente. Vamos falando, falando, e deixamos escapar enganos como esses. Em nossa comunicação ordinária, raramente alguém nos adverte para os equívocos, porque muita gente os comete. O maior problema surge quando, numa prova escrita, cochilamos e acabamos escrevendo como às vezes pronunciamos. Aí, como diz o povo, é que o bicho pega. Erramos e somos penalizados na nota. Observe as mesmas frases com as palavras grafadas corretamente:

Espero que meu novo colega não seja preconceituoso.

Quando eu vir você na escola, entregarei o caderno.

Se ele puser algum defeito em meu trabalho, ficarei triste.

Se você supuser que eu o enganei, poderei explicar.

Todos esperamos que nossa colega esteja bem.

Pedro disse que eu roubo, mas não é verdade.

Minha irmã foi ao cabeleireiro.

Há pessoas que gostam de agourar.

A chegada de minha colega foi um estouro.

Meu professor disse que o uso de aerossol é proibido.

Em frente à catedral há uma pessoa mendigando.

Pode baixar, que esse game é gratuito.

Ficou claro? Então comece a prestar atenção nas conversas com seus colegas ou com outras pessoas. Você observará, por exemplo, que é bastante comum pronunciarem erradamente seje em vez de seja, e também ver, por, supor no futuro do modo subjuntivo, quando o correto é vir, puser, supuser (vir, vires, vir, virmos, virdes, virem; puser, puseres, puser, pusermos, puserdes, puserem; supuser, supuseres, supuser, supusermos, supuserdes, supuserem); não é raro também pronunciarem esteje, quando o certo no presente do subjuntivo de estar é  esteja (esteja, estejas, esteja, estejamos, estejais, estejam), e assim também cabelereiro, agorar, estoro, aerosol, mendingando, gratuíto, em lugar das formas corretas agourar, estouro, aerossol, mendigando, gratuito.

Muita cautela, portanto, e mais atenção em pronunciar corretamente para escrever também corretamente essas e muitas outras palavras. Pronunciar mal já é ruim, mas escrever mal é ainda pior.

 

Repetições: virtudes ou defeitos?

31 de julho de 2018

Você já conhece o valor das repetições na poesia, não conhece? Então veja esta bela sequência do Canto VI de Os Lusíadas, de Luís de Camões:

 

No mais interno fundo das profundas

Cavernas altas, onde o mar se esconde,

Lá donde as ondas saem  furibundas,

Quando às iras do vento o mar responde,

Netuno mora (…)

Lindo exemplo, não é? Dá vontade de ficar repetindo a leitura por muito tempo, para sentir a força expressiva destes versos. Aproveite para observar este exemplo, mais recente, de nosso poeta Manuel Bandeira:

 

A onda

 

a onda anda

aonde anda

a onda?

a onda ainda

ainda onda

ainda anda

aonde?

aonde?

a onda a onda

Também muito bonita a sugestão das ondas por meio dos ecos das repetições. Os poetas, de fato, adoram repetições, porque podem criar com elas uma espécie de orquestração como base do significado que  os versos transportam.

Pois é. E já lhe falaram sobre as repetições, sobretudo de palavras, em suas redações ou respostas a questões discursivas? Provavelmente. E lhe disseram, com certeza, que em textos dissertativos não cabem esses recursos tão caros aos poetas. É bom então tomar bastante cuidado, pois o que é virtude na poesia pode ser um grande atrapalho para a avaliação de seus textos. E você não quer que uma banca de correção se atrapalhe com seus textos, não é?

Isso não quer dizer que não possa haver nenhuma repetição em suas redações, mas, se surgirem, deverão ter um peso na sua exposição e na sua argumentação. Compreendeu? Então acostume-se, na revisão de seus rascunhos, a eliminar as repetições desagradáveis, como, por exemplo, e e mas. Redações cheias de e e mas causam atrapalhos e aborrecimentos à leitura. E você tem formação suficiente para evitá-las¸ quer trocando esses conectivos por outros, quer mudando a construção das frases. Um texto cheio de mas é realmente irritante de se ler. E sempre é possível trocar, por porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto.

Os perigos não param por aí. Sem nos darmos conta, costumamos repetir em demasia palavras como quando, talvez, vez, sempre, mais, ainda, demais, mesmo, apenas, apesar, embora, só, somente, entre outras. Trate então, de praticar bastante, nas revisões de seus textos, a substituição dessas palavras por outras, ou também a modificação da estrutura das frases em que surgem. Observe como é fácil, por exemplo, com quando:

 

Quando ele me agredir, vou revidar na mesma altura.

Se ele me agredir, vou revidar na mesma altura.

 

Quando ele chegar, receberá o pagamento devido.

Logo que ele chegue, receberá o pagamento devido.

Quando ele correu, comprovou que era o traidor.

Ao correr, comprovou que era o traidor.

 

Notou bem? Claro que notou. Por isso mesmo, verifique suas redações já corrigidas para observar se nelas há muitas repetições. Se houver, comece sua prática de limpeza. Seus textos ficarão muito melhores. Mãos às obras!

 

Seu pensamento x Seu discurso

19 de julho de 2018

Os professores procuraram ensinar-lhe como escrever bem, ao longo de todo o ensino fundamental e médio. Você deve, portanto, ter aprendido o suficiente para escrever redações razoáveis e respostas adequadas a questões discursivas. Eventualmente, você pode ser daqueles estudantes que se orgulham de suas redações e por isso não manifestam nenhuma preocupação a esse respeito em vestibulares. Ótimo. Todavia, sempre há algo a aprender, para tornar ainda melhor seu desempenho.

Quando falamos ou escrevemos, elaboramos mentalmente nossas frases e as expressamos. Alguns pensam até que as frases pensadas são exatamente iguais às faladas ou escritas. Não é bem isso. Na transformação de pensamento em discurso, muitas vezes, deixamos de nos guiar por um fator importantíssimo: o ouvinte, no caso da fala, ou o leitor, no caso da escrita. Esse fato conduz frequentemente a problemas de interpretação de nosso discurso. Quantas vezes alguém que conversa com você lhe pede para “explicar” o que falou? Ou lhe aponta alguma dúvida sobre o que acaba de proferir? Na comunicação oral, tudo fica mais fácil, é só explicar o que não foi entendido ou corrigir o que não conseguiu expressar direito. Na comunicação escrita, por meio de redações ou de respostas a questões discursivas, isso não é possível. A banca de correção de um vestibular ou outro tipo de concurso estará só com seu texto e o interpretará objetivamente em função do que estiver escrito.

Não está percebendo muito bem aonde o Blogueiro pretende chegar? Então examine a seguinte frase, colhida em um texto de notícia na internet:

 

A vítima frequentava o hotel onde foi encontrada morta regularmente.

 

Observou bem o problema? Uma leitura atenta nos faz entender perfeitamente a frase, mas também nos leva a perceber o deslize cometido pelo escritor: um deslocamento inoportuno de palavra, que prejudica as primeiras tentativas de interpretação do que foi dito. Um leitor bem-humorado debochará, perguntando: Quantas vezes a vítima foi morta “regularmente”? A estas alturas, você já percebeu a natureza do problema: a palavra “regularmente”, no local em que está, não infringe nenhuma regra gramatical; a frase é gramaticalmente correta e pode ser compreendida com auxílio da lógica; no entanto, em tal posição, a palavra dá margem a interpretações que não correspondem ao que realmente o escritor quis dizer. Em resumo, há um local melhor, mais adequado, para colocar o advérbio regularmente e, assim, eliminar qualquer possibilidade de interpretação equivocada:

 

A vítima frequentava regularmente o hotel onde foi encontrada morta.

 

Compreendeu o que o Blogueiro tentou explicar? Nem sempre os erros detectados em frases são de natureza gramatical. No caso exemplificado, trata-se de uma questão por assim dizer estilística: a escolha da ordem das palavras e termos mais adequada à compreensão do leitor. A ordem das palavras na frase, portanto, é algo com que precisamos sempre nos preocupar.

Exatamente por isso o Blogueiro sugeriu, no título deste artigo, uma espécie de conflito entre pensamento e expressão. Quando escrevemos, vamos elaborando do pensamento ao texto nossas frases. Isso não quer dizer necessariamente que estejam prontas para funcionar de modo adequado. Há um segundo nível de trabalho, que o escritor deve fazer lendo o que acaba de escrever, para verificar incongruências como a apontada no exemplo. E as incongruências de ordem das palavras e termos são as mais perigosas, por gerarem ambiguidades e prejudicarem o entendimento.

O Blogueiro encerra este comentário servindo-se de um exemplo deste mesmo artigo. Observe:

Você deve, portanto, ter aprendido o suficiente para escrever redações razoáveis e respostas adequadas a questões discursivas.

 

Imagine, só por um instante, que estivesse escrito:

 

Você deve, portanto, ter aprendido, para escrever redações razoáveis e respostas adequadas a questões discursivas, o suficiente.

 

Evidentemente, o leitor, num primeiro momento, estranharia um pouco a disposição dos elementos. Acabaria entendendo, por uma leitura lógica, o que teria querido expressar o Blogueiro. A frase, porém, estaria um pouco truncada com a deslocação de o suficiente para o final. Justamente por isso não foi escolhida.

Tome todo o cuidado, portanto, com a ordem das palavras e termos em suas frases. Releia o que escreveu, prevendo as dúvidas que seu leitor poderá ter. Deixe as inversões violentas de palavras para os poetas, que adoram hipérbatos e sínquises, como se pode observar até na letra do Hino Nacional, de Osório Duque-Estrada: Do que a terra, mais garrida / Teus risonhos, lindos campos têm mais flores. Ou nOs Lusíadas, de Camões: A grita se alevanta ao Céu, da gente.

Captou?

 

Essa disciplina não serve pra nada! Não, mesmo??

18 de julho de 2018

É muito comum ouvir dos estudantes manifestações como a que serve de título para este artigo: Esta disciplina não serve pra nada! Alguns dizem isso da matemática, outros, da língua portuguesa, outros, da história, outros, ainda, da filosofia, e assim por diante. Sempre existe um conteúdo que este ou aquele estudante abomina como inútil, sem serventia alguma. O Blogueiro não pensa assim. Por isso mesmo, fechou o título, ironicamente, com Não, mesmo??

Não é preciso condenar o aluno que assim se manifesta, sobretudo porque está sendo sincero em sua manifestação. É necessário, no entanto, advertir para o engano, nascido provavelmente mais de um gosto ou desgosto pessoal do que de uma análise dos conteúdos ensinados nas escolas e exigidos em vestibulares e concursos. Vamos então fazer uma análise fria dos fatos, usando como exemplos as quatro disciplinas mencionadas. Comecemos pela matemática. Matemática não serve mesmo para nada? Brincadeira. Claro que serve, e como serve! Imagine você o que deixaria de fazer sem a matemática, a começar pelas quatro operações básicas. A matemática está presente em todas as nossas atividades. Vai comprar um terreno e não sabe calcular a área. Vai fazer uma compra em prestações e nem faz ideia de como é o cálculo dos juros. Tem um carro e não sabe estabelecer o gasto de combustível. Compra e vende objetos e não consegue aferir o lucro. Isso só para falar em fatos triviais em que a matemática lhe servirá, quanto mais em outras tantas atividades bem mais complexas. Conclusão: não importa a profissão que venha a exercer no futuro; você não viverá bem sem um razoável conhecimento de matemática.

E a língua portuguesa. Ora, ora! Você já parou para pensar que a língua é o instrumento fundamental de sua comunicação com seus semelhantes, sejam seus familiares, sejam seus amigos, sejam seus colegas de trabalho. Sem um domínio regular da língua portuguesa você nem leria adequadamente, nem estudaria, pois todas as disciplinas dela se servem em seus livros, manuais, apostilas. E esse domínio implica seguir a norma padrão, que regula o modelo mais amplamente usado na escola, na mídia, nos livros. Dominar a língua portuguesa em sua norma padrão implica também colocá-lo num patamar significativo socialmente, razão por que os professores enfatizam que falar e escrever bem é um meio de ascensão social e profissional. Por isso mesmo, não menospreze o poder da língua portuguesa.

E a história? O Blogueiro já ouviu de muitos jovens que história não serve para nada, que não dá dinheiro a ninguém. Balela. Imagine-se completamente alheio à história universal e à história do Brasil. Você estaria alheio também à própria humanidade. Os conhecimentos de história fornecem ao indivíduo um gigantesco lastro de cultura. Esta disciplina faz com que nos identifiquemos com toda a humanidade em todas as épocas. Torna-nos, ao mesmo tempo, sábios e humildes na avaliação do papel que exercemos na sociedade e, assim também, nos ajuda a estabelecer objetivos na vida, em virtude da identificação com os vultos e os eventos históricos. Em um dos artigos anteriores deste Blogue, você percebeu quanto conteúdo, quanta experiência, quanto valor humano carrega uma expressão como Alea jacta est. É preciso dizer mais?

Sim, dirá alguém, mas a filosofia mesmo não tem serventia alguma. Nem sei por que devemos estudá-la. Novo equívoco. É por meio da filosofia que o ser humano busca compreender a si mesmo e a realidade que o cerca. A filosofia busca entender, por meio da reflexão e do raciocínio, expostos de forma argumentativa, as razões e os fundamentos da existência do homem e do mundo, do homem no mundo. Imagine você completamente neutro a essas dúvidas, a essas indagações, a essa busca de razões e explicações sobre a existência e a existência humana. Você seria praticamente um autômato, até capaz de realizar múltiplas tarefas, mas completamente alheio a si mesmo e ao universo. De certo modo, os filósofos nos ensinam a pensar, a duvidar, a questionar, a indagar sobre as razões de tudo o que nos cerca. É impensável, neste sentido, um estudante de curso superior ou mesmo um profissional já formado que não tenham lido pelo menos algumas páginas de Platão, de Aristóteles e de tantos filósofos do passado e contemporâneos. E ainda há quem diga que a filosofia não serve para nada!

O Blogueiro já se dá por satisfeito com as palavras acima, que são uma espécie de provocação para que você examine com cuidado todas as demais disciplinas que estuda, para verificar a grande e variada utilidade que exercem em sua formação e continuarão exercendo ao longo de sua vida pessoal e profissional. Pense bem.

 

 

Curso universitário é muito necessário?

4 de julho de 2018

Você por certo já se fez a pergunta que serve de título a este artigo. O Blogueiro, só para ilustrar, dividiu tal título em dois versos rimados de seis sílabas, chamados hexassílabos ou também heroicos quebrados, pelo fato de os poetas por vezes os usarem combinados com os decassílabos heroicos, variantes mais empregadas dos versos de dez sílabas. Pois é. Você algumas vezes deve ter pensado ou até perguntado a um colega ou professor: Afinal, é tão necessário assim fazer curso universitário? E se eu não fizer? Muita gente não faz e tem sucesso na vida do mesmo jeito.

A dúvida é perfeitamente cabível, em primeiro lugar pelo simples fato de as universidades públicas e privadas em nosso país ainda não terem vagas suficientes para acolher todos os estudantes. Em segundo, porque muitos estudantes decidem não fazer curso universitário e partem para o trabalho direto, por escolha ou por necessidade. E daí? Quer dizer que estão fracassando na vida, por não poder ou não querer ser aprovados em vestibulares e seguir um curso superior? Nada disso. O problema tem de ser analisado sob outra ótica. Evidentemente, as universidades formam profissionais de alto nível para competir no mercado de trabalho de alto nível. Não há dúvida.  As pessoas mais velhas costumam dizer aos jovens que é importantíssimo fazer curso universitário. E é. Aqueles que não fazem, seja por que motivo seja, têm de conduzir suas vidas a um mercado de trabalho diverso.

É preciso dizer, contudo, que é muito importante chegarem os estudantes pelo menos ao final do ensino médio, para que tenham uma formação razoável, que facilitará suas atividades no trabalho, qualquer que seja este. Convém, neste sentido, enfatizar que não há nenhum demérito em arranjar emprego que não requer ensino superior. Nem demérito, nem tampouco derrota. Pode ocorrer, – e muitas vezes ocorre, – que o indivíduo se dê muito bem em determinada atividade e alcance um grande sucesso, até mesmo enriquecendo. O Blogueiro pode dar um exemplo real a respeito: certo garoto, que ele conheceu, não era lá de estudar muito, quebrava o galho na escola, como se diz popularmente. Os pais, de classe média, faziam de tudo para que estudasse mais e ingressasse num curso universitário. O garoto, porém, não dava grandes sinais de convencimento. Até chegou a fazer vestibular, conseguiu vaga em um curso de administração de uma universidade pública, mas acabou desistindo no meio do primeiro ano, por achar que era muito difícil. Os amigos e parentes criticaram. Os pais ficaram muito preocupados, ainda mais porque o garoto ficou no ostracismo, no fazer nada. Depois de um ano, de repente, disse aos pais que queria ir a um país estrangeiro para trabalhar como pedreiro, porque o salário era razoável e tinha amigos que já faziam aquilo. Meio sem jeito, os pais financiaram a passagem e lá se foi o garotão. Todos os familiares diziam que iria fracassar. Trabalhou duro por quase um ano como pedreiro, depois arranjou um emprego como garçom de uma rede de restaurantes. Deu-se tão bem nesse trabalho, que acabou sendo promovido a cargos mais altos, inclusive para ministrar cursos a novatos. E do jeito que vai, parece que encontrou o que procurava e vai ter bom sucesso em suas atividades.

O Blogueiro está, com esse exemplo, querendo fazer propaganda contra o curso superior? Nada disso. Muito pelo contrário. Voltando ao título: Curso universitário é muito necessário? É, sim, é o mais indicado para os jovens. O País precisa muito de profissionais formados por universidades, para o seu desenvolvimento cada vez maior. Mas é necessário ter bom senso para compreender adequadamente que nem todas as atividades num país são de profissionais formados por universidades. E muito mais bom senso ainda para entender que o importante é o trabalho em si mesmo, seja de que nível for. Uma nação em progresso permanente é uma nação de trabalhadores, de pessoas que lutam pelos seus ideais, pelas suas famílias e, fazendo isso, lutam também pela própria coletividade. Pense nisso.

 

 

Você sabe mesmo ler?

22 de junho de 2018

Você pode até pensar que esta é uma pergunta um tanto irônica que lhe faz o Blogueiro. Não é. É séria. Considere-a um alerta para pequenos problemas que você pode ter ao fazer suas provas. É claro que você aprendeu a ler e escrever há muito tempo, como todos os que prestam exames vestibulares. Mas também é claro que pode ter adquirido certos vícios de leitura que costumam ser muito prejudiciais. Um deles é a projeção, vale dizer, a impressão de que uma palavra ou expressão está escrita no texto, quando se trata apenas de um engano de leitura. Muitas vezes, ao lermos, contentamo-nos com a primeira ou as primeiras sílabas de uma palavra deixando que nossa imaginação complete o resto. Erradamente. Somos até capazes de jurar que a palavra estava escrita, quando, de fato, não estava. Por exemplo, no texto aparece a palavra eloquência e nós lemos enlouquecia. Terrível engano, não é? Pode inutilizar uma resposta inteira, em prova discursiva, ou levar a entender erradamente o enunciado de uma prova objetiva. O Blogueiro lembra de uma prova de redação anulada, porque o candidato cometeu esse tipo de erro, que alterou completamente o tema proposto. Outro exemplo: no texto está escrito dispersadas e nós lemos dispensadas. E assim outros tantos enganos que podem nos levar a erros graves de interpretação de questões.

Além de lapsos de leitura como os acima comentados, podemos cometer outros, principalmente quando as questões são baseadas em textos. Nestes casos, é imprescindível a leitura atenta dos textos e a comparação dos enunciados das questões com as passagens correspondentes desses textos. Essa comparação atenta é fundamental para atingir a resposta adequada. Qualquer distração, tanto na leitura dos textos, quanto na dos enunciados pode nos conduzir a uma interpretação completamente equivocada. Os enunciados, de fato, contêm pistas sobre a resposta adequada, e é em busca dessas pistas que podemos fazer o caminho correto. Não esqueça, portanto, de que há uma estreita associação entre textos e enunciados.

Nas provas objetivas, as bancas costumam explorar essa associação, criando alternativas muito parecidas, das quais apenas uma é a correta. Por isso, é preciso comparar com todo o cuidado essas alternativas com o que dizem os textos. Por vezes uma só palavra não correspondente basta para nos conduzir a escolher a alternativa incorreta.

Compreendeu? Não devemos ter pressa na leitura dos textos e dos enunciados. Com atenção e cuidado, acabamos descobrindo o real objetivo da pergunta. Você pode até desenvolver uma técnica pessoal para fazer essa leitura. Pense nisso.