As perigosas concordâncias

June 8th, 2017

Outro dia o Blogueiro, verdadeiro maníaco por encontrar exemplos de equívocos, flagrou em noticiário na internet um cochilozinho de revisão. Observe:

 

Explosões em um  funeral mata pelo menos 12 pessoas no Afeganistão.

 

Notou também? Já que o sujeito é “explosões”, no plural, o verbo deveria estar também no plural:

 

Explosões em um funeral matam pelo menos 12 pessoas no Afeganistão.

 

Um lapso de concordância, como você deve ter notado. E por que será que aconteceu? Porque o redator, por um segundo, iludiu-se, tomando o plural pelo singular, vale dizer, considerando as explosões como um fato só. Nesse segundo de distração, que pode ocorrer a qualquer de nós, a flexão do plural foi enfraquecida pela ideia de uma só explosão e, quando o verbo foi escrito, recebeu essa influência de singularidade, flexionando-se no singular e causando uma ruptura da concordância com o sujeito. Como diz o povo, o revisor pisou na bola, deixando como estava. Além da mencionada, uma boa saída teria sido

 

Explosão em funeral mata pelo menos 12 pessoas no Afeganistão.

Percebeu você o problema com clareza? Sim, mas avaliou também que, pelo fato de estar na rede, não deve ter sido considerado um grande problema. Os textos nela publicados não têm revisões muito exigentes, razão por serem uma verdadeira plantação de cochilos para ser colhidos pelos professores de português. Os revisores, nesses casos, recebem apenas um figurado puxão de orelha.

O maior problema estará se o texto for de uma redação sua, ou de uma resposta a questões discursivas de história, geografia, filosofia, biologia, etc., etc. Esse é um território perigoso, em que não se pode errar sem receber penalização, ou seja, desconto na nota. E ainda mais se a concordância equivocada influir no conteúdo do período como um todo, alterando o teor de sua resposta.

Para confirmar o perigo, observe este outro exemplo, agora forjado, mas bem possível:

 

Ações de hackers europeus causa prejuízos a empresas brasileiras.

 

Notou? Muito provavelmente aqui, outro fator somou-se aos acima comentados: a distância entre o núcleo do sujeito (ações) e o do predicado (causa). Esse distanciamento enfraqueceu a noção de plural e levou o escritor a flexionar o verbo no singular, erradamente, é claro. O correto seria escrever

 

Ações de hackers europeus causam prejuízos a empresas brasileiras.

 

Os exemplos contidos neste artigo, portanto, devem servir para você tomar o máximo cuidado com essas perigosas concordâncias, provocadas  por distrações ao longo das orações que escrevemos. Como evitar esse perigo? Simples. Leia sempre duas vezes, atentamente, o período que acabou de escrever. Estes e outros equívocos vão se revelar e você terá tempo de fazer os necessários reparos.

 

Não deixe isar dar azar!

June 1st, 2017

Alguns estudantes costumam reclamar por não entenderem completamente a diferença entre os finais de palavras isar e izar e por isso acham que essa é a origem de seus erros no emprego dessas terminações. Será? Isso tem sua parcela de verdade. Quem conhece bem as razões gramaticais e ortográficas para o emprego de isar e izar com certeza não errará. Mas, convenhamos, não é muito fácil conhecer todas essas razões. Até bons estudiosos por vezes vacilam.

Que fazer, então? Para quem não consegue dominar todos os aspectos gramaticais e ortográficos, há outro lado para essa moeda. Pode-se não errar, servindo-se de um artifício. Vamos ver se você percebe.

Em primeiro lugar, você já deve ter observado que as palavras com essas duas terminações são verbos. Em segundo, já sabe que os verbos em izar correspondem a uma quantidade muitíssimo mais numerosa que os terminados em isar. Por quê? Porque se trata de verbos derivados de substantivos ou de adjetivos que ganham o sufixo izar. E você sabe que substantivos e adjetivos são as palavras mais numerosas do idioma. Assim, do adjetivo americano se forma americanizar; de eterno, eternizar; de símbolo, simbolizar; de temor, atemorizar; de urbano, urbanizar; de vândalo, vandalizar; de visual, visualizar, e assim uma enorme quantidade de outros.

Aqui surge uma informação fundamental. Nos verbos terminados em isar as palavras primitivas já possuem o s final, de sorte que o verbo se forma com o sufixo ar. Ou então, em uns poucos casos, os verbos em isar já vieram formados de outros idiomas com essa terminação ou equivalente.

Outra grande vantagem que você pode tirar desse conhecimento, que evita a gramatiquice, está no fato de os verbos em isar constituírem um conjunto pouco numeroso e limitado, apenas vez por outra aumentado por palavra de terminologia científica. Assim, basta conhecer a lista para resolvermos facilmente nossas dúvidas. Eis os principais verbos, por mais usados, com terminação em isar, com as origens indicadas entre parênteses:  alisar (liso), analisar (análise), anisar (anis), avisar (aviso), bisar (bis), catalisar (catálise), precisar ( preciso)cutisar (cútis), descamisar (camisa), dialisar (diálise), divisar (divisa), eletrolisar (eletrólise), encamisar (camisa), escamisar (camisa), frisar (frisa), frisar (friso), improvisar (improviso), grisar (gris), guisar (guisa), irisar (íris), hidrolisar (hidrólise), lambrisar (lambris), lapisar (lápis), paralisar (paralisia), pesquisar (pesquisa), pisar (lat. pinsare), propolisar (própolis), psicanalisar (psicanálise), repisar (pisar), reprisar (do francês repriser), revisar (do espanhol revisar), tamisar (do francês tamiser), televisar (tele + visar), visar (do francês viser).

Percebeu? São poucas palavras, e essa lista poderia ainda ser diminuída com a eliminação de algumas cujo uso é raro ou técnico ou científico, que provavelmente nunca aparecerão em textos que você ler. Não é nada difícil, portanto, a memorização.

O que se depreende deste fato? Algo bastante elementar, como diria Sherlock Holmes: o pequeno número de verbos terminados em isar funciona como parâmetro para ter certeza dos que devem ser escritos com izar. Compreendeu agora? Isso sem nenhuma gramatiquice, vale dizer, sem necessidade de dominar normas de formação das palavras. Seu objetivo, ao estudar, não é compreender a regra ortográfica originada pela formação dessas palavras, mas, simplesmente, saber escrevê-las. Evidentemente, sempre poderá haver uma duvidazinha aqui, outra ali, mas a grande maioria dos casos estará resolvida com as recomendações colocadas neste artigo pelo Blogueiro.

Conclusão que é, de fato, uma introdução: a ortografia não é algo aleatório, criado pelo capricho dos gramáticos e filólogos, mas, na verdade, é uma organização muito lógica, cujos segredos se pode dominar sem excessivo esforço e sem ser preciso decorar regras. Pense nisso quando tentar resolver outras dúvidas, pense que a ortografia é, de fato, o que está escrito nos textos, pense que por trás disso há uma lógica que, uma vez devassada, torna o grafar muito mais fácil.

 

Ah! Esses eis, is e us incomodam muita gente!

May 26th, 2017

No artigo anterior, você recebeu aviso para tomar cuidado com o u de poupar, poupança, poupo, roubar, roubo, roubalheira. Não foi útil? Foi, sim. Você não vai cair nessa de escrever “popar, popança, popo, robar, robo, robalheira”. O povo em geral usa essas pronúncias, mas você, formado pelo ensino médio e pretendente a uma vaga num curso superior, sabe que nessa questão a universidade se pauta pela norma-padrão, e não pelo uso popular.

O Blogueiro deixou para  hoje outros alertas a fazer com respeito a possíveis confusões, desta vez envolvendo a presença de ei, de u e de i em certas formas nominais ou verbais.

Você com certeza já ouviu alguém falar O avião posou. E sabe que esse alguém errou redondamente. O correto é O avião pousou. As pessoas confundem o verbo posar com o verbo pousar. Ora, posar é “fazer pose”. Já pousar, entre outros muitos sentidos, tem o de descer, aterrissar (um avião). Por isso é também muito errado dizer que O artista pousou para uma sessão de fotos, mas, sim, O artista posou para uma sessão de fotos.

Perigoso esse u, não? Sim, muito perigoso. É como uma armadilha que a língua apronta para verificar quem sabe ou finge que sabe. Se alguma vez você errou, depois desta explicação não errará mais, certo?

Note também outra armadilha: toucar e tocar. Toucar, que aparece em muitas narrativas literárias e poemas, pode significar colocar a touca, ou também enfeitar ou enfeitar-se, quando pronominal: Ela toucou-se de lindos laços coloridos. Note, aliás, que, pela própria família de vocábulos, pode-se descobrir como deve ser escrito: touca, toucador, toucado, toucar. Nem é preciso explicar muito sobre tocar, que é palavra bem diferente, não é?

A sequência ei também pode causar confusão em muitas palavras. Você já ouviu pessoas falarem, por exemplo, Depois do acidente, o homem ficou alejado. Na verdade, está faltando um i nessa pronúncia popular. A forma correta será aleijado, correspondente ao verbo aleijar: Depois do acidente, o homem ficou aleijado. O mesmo deve ocorrer com a palavra cabeleireiro: O cabeleireiro tingiu demais os cabelos da moça. Nada, portanto, de escrever “cabelereiro”, pois o i faz parte das palavras cabeleira, cabeleireiro.

E preste muita atenção também em famílias de palavras como negociar,renegociar,  negócio, negociação, negociável, negocioso, negociata, negocista. Observe que o i está presente em todas, inclusive na conjugação verbal: negocio, negocias, negocia, negociamos, negociais, negociam. O mesmo vale para fiar, fiança, fiador: fio, fias, fia, fiamos, fiais, fiam. Portanto, nada de falar negoceio.

Percebeu bem como escapar dessas armadilhas. Fácil. Em primeiro lugar, verificando outras palavras da mesma família, que lhe revelarão um padrão. Em segundo, sempre verificar, no caso de verbos, a conjugação correta. Não se deixe levar pela pronúncia comum, familiar, popular, porque a norma-padrão tem suas próprias exigências.

É claro que, em provas, são errinhos banais, é bem verdade, mas são erros. Têm de ser corrigidos por você mesmo, antes que alguém da banca o faça. Para que arriscar, não é?

 

 

Não “pope”: poupe

May 16th, 2017

Certos errinhos nos pegam muitas vezes desprevenidos. De tão comuns que são, até parecem acertos. Um deles diz respeito ao verbo poupar. As pessoas estão tão acostumadas a falar no discurso informal eu popo, eu tenho uma popança, eu sou um popador, que o u acaba sendo desprezado também no discurso formal, o que representa um péssimo cartão de visitas para quem fala ou escreve. Na verdade, a norma-padrão exige as formas eu poupo, eu tenho uma poupança, eu sou um poupador. Observe, a este respeito, como se conjuga o verbo poupar:

 

Eu poupo

Tu poupas

Ele poupa

Nós poupamos

Vós poupais

Eles poupam

 

E assim todas as formas dos modos e tempos desse verbo exigem o u: poupava, poupara, pouparei, pouparia, poupe, poupasse, poupar, poupando, poupado.

Tome cuidado, portanto. Não importa que lá entre amigos, em conversas informais, você esqueça do u. Mas em sala de aula, em redações, em respostas discursivas, o u é inteiramente necessário. E de repente essa diferença entre o uso formal e o uso informal pode ser até objeto de uma questão. Esteja preparado, pois.

Muito mais cuidado ainda é necessário em outra série de palavrinhas cognatas: roubar, roubo, roubalheira, roubado, roubada. Nada de dizer eu robo. Este equívoco é tão comum, que você ouve até em telejornais, entrevistas, artigos na internet. Essa pronúncia sem u povoa a fala diária e acaba se infiltrando no discurso de políticos, jornalistas e profissionais de diferentes áreas quando dão entrevistas ou se manifestam oralmente em vídeos. Preste atenção, portanto, nas formas aceitas pela norma:

 

Roubar pode ser um vício perigoso.

Ele roubou aquela camisa da loja.

Esse imposto é um verdadeiro roubo.

A Justiça está acabando com toda a roubalheira.

Achado não é roubado, mas pode ser, se não devolvido.

Fazer sociedade com aqueles tipos foi uma roubada.

 

Percebeu? Você encontrará com facilidade exemplos de pronúncia erronha dessas palavras na televisão e na rede. Note que, como no caso de poupar, toda a conjugação do verbo roubar exige o u: roubo, roubava, roubara,  roubarei, roubaria, roube, roubasse, roubar, roubando, roubado. E note também como ficaria horrível em sua redação ou resposta discursiva: “roba, robou, robo, robalheira, robado, robada”. Alguém pode até dizer a você, que se trata de um errinho insignificante, que não vai prejudicar sua nota. Será que não vai? Afinal, nenhum erro pode ser considerado insignificante. É melhor não arriscar. Não caia nessa roubada, certo?

 

Meu bem, meu mal; meu bom, seu mau

May 11th, 2017

Você achou o título deste artigo muito curioso, não achou? Claro que sim. E lhe pareceu que a segunda frase está incorreta, não? Na verdade, ambas as frases estão corretas, ou, melhor: em determinados contextos, ambas as frases podem estar corretas; em outros, incorretas.

Mas o que é um contexto, afinal? No sentido em que o Blogueiro empregou acima, contextos são as frases ou expressões ou passagens de um texto em que uma palavra pode estar inserida. Vale dizer: os antônimos bem e mal, bom e mau dependem, para estarem corretos, de estar inseridos nos contextos adequados.

Meu bem, meu mal é uma frase muito usada, aparece em títulos de obras, em letras de músicas, mais ou menos com o sentido de que algo que nos causa bem pode também, mudadas as circunstâncias, nos causar mal. Neste sentido, a frase meu bom, seu mau estaria errada? Em determinados contextos, não. Observe o diálogo:

 

— Seu amigo o salvou, mas o meu me traiu.

— Pois é: meu bom, seu mau…

 

Percebeu como o contexto legitima a frase? O segundo interlocutor, na verdade, serviu-se duas vezes da elipse da palavra “amigo” — meu bom amigo, seu mau amigo —, para definir, com algum deboche, os respectivos “amigos”. A frase ficou, assim, mais instigante. Generalizando, há bons e maus amigos: tive a sorte de ter um bom e você o azar de ter um mau.

É isso aí. Tome bastante cuidado, quer ao criar textos, quer ao interpretar textos alheios, com essas quatro palavrinhas. Suas apostilas lhe ensinam que bem é antônimo de mal e bom é antônimo de mau. Isso, apesar de verdadeiro e útil, não resolve todos os casos, pode provocar confusões na hora de escrever ou de ler. É preciso respeitar o contexto em que as palavras se inserem. Claro que, ao dizer ele não passa bem, a frase antônima que nos vem à memória é ele não passa mal. Ou também quando dizemos ele é um homem mau, o oposto será ele é um homem bom. Mas é preciso tomar cuidado com os contextos, por exemplo, em frases como ele julgou bem o réu, porque pode haver uma frase como ele julgou bom o réu. A primeira frase tem como oposta ele julgou mal o réu; e a segunda, ele julgou mau o réu. No primeiro caso, trata-se do modo de julgar (bem ou mal); no segundo, do caráter do réu (bom ou mau).

Até mesmo uma frase como eu espero que você faça bom a prova pode estar correta em um contexto apropriado. Observe o diálogo:

 

— Eu estive muito doente ontem, mas não desistirei do vestibular.

— Ótimo! Eu espero que você faça bom a prova.

 

Interessante, não é? “Bom”, nesse caso, significa bem disposto, sem doença, curado, em boas condições.

Conclusão: nestes como em muitos outros casos de dúvida, verifique o contexto, porque ele pode revelar agradáveis surpresas, que farão muito bem à sua nota!

 

Palavra-chave, uma boa dica

May 4th, 2017

Quando fazemos a análise de um texto literário, seja em verso, seja em prosa, nossos professores sugerem que localizemos as palavras-chave. É considerada chave a palavra que representa, por si mesma, o significado global de um texto, ou, pelo menos, um significado que possa representar uma espécie de síntese do que está sendo comunicado no texto. Por essa mesma razão, além de sua utilização na análise de textos literários, as palavras-chave são empregadas em classificações bibliográficas, bem como na própria linguagem da informática, para indicar certos conteúdos predeterminados.

Note, a este respeito, que nos buscadores da internet chegamos aos sites desejados digitando a busca por meio de palavras-chave. Estabelecemos, assim, todo um sistema de buscas por meio da combinação de palavras que encerram os conteúdos procurados por nós para chegar aos sites. Por vezes, nesse trabalho, chegamos a digitar verdadeiras frases-chave, como modo de atingir mais depressa e com mais eficiência tais sites.

Esse emprego instrumental das palavras é de grande utilidade, também, em nossas provas, seja de concursos de acesso em geral, seja em vestibulares, em questões, em textos de apoio, em propostas de redação.

Ao ler uma questão, quer objetiva, quer discursiva, devemos ter em mente que uma ou mais palavras nela carregam o significado mais abrangente e principal. Isso é importantíssimo, porque sua resposta tomará por base tal ou tais palavras-chave. No caso das questões objetivas, essa estratégia é importantíssima, porque nos ajudará a eliminar alternativas improcedentes, bem como discernir entre duas alternativas aparentemente procedentes qual está mais entrosada com o conteúdo do enunciado da pergunta.

No caso das questões discursivas, a identificação da ou das chaves evitará que nos desviemos perigosamente do que é explicitamente solicitado na pergunta. A inobservância desse pormenor já fez muitos candidatos responderem de modo errado perguntas cujas respostas conheciam.

O mesmo se pode dizer de textos de apoio a questões, quer objetivas, quer discursivas. É preciso identificar as palavras-chave e verificar em que medida estão relacionadas com as dos enunciados das questões. Certa feita, numa série de questões objetivas, o Blogueiro percebeu que suas palavras-chave apontavam para uma interpretação particular do elaborador dessas questões e não de sua própria interpretação, que lhe parecia mais lógica. Por isso, seguiu a trilha da interpretação do elaborador, que se revelava na série de enunciados. Foi uma forma de esperteza que rendeu ao Blogueiro o acerto de toda a série de questões, muito embora não concordasse com a interpretação do elaborador. Isso acontece também.

Finalmente, considere muito importante a identificação de palavra-chave na proposta de redação. Se menosprezar esse detalhe, poderá até fazer uma bela redação, mas afastada do que pretende realmente a proposta.

Um bom treinamento, na atualidade, para a identificação de palavras-chave está nas entrevistas publicadas em jornais e revistas, seja em papel, seja na rede. Localize a palavra-chave de cada pergunta do entrevistador e a da resposta do entrevistado. Você terá, assim, muitas surpresas, ao verificar como os repórteres se revelam espertos e maliciosos, e como os entrevistados são capazes de escapar de armadilhas das perguntas, ou até mesmo de mentir para evitar a confissão de atos, digamos, um tanto deprimentes.

Valeu? Então incorpore mais esse método aos seus estudos.

 

 

 

Os problemas da decoreba

April 26th, 2017

Um dos termos mais empregados na gíria dos estudantes é decoreba, que significa hábito ou mania de decorar, de estudar memorizando fórmulas, datas, aspectos, características, sem ir ao fundo dos conteúdos para aprender de fato. Vale dizer: estudar sem aprender o principal, o núcleo, mas apenas os aspectos periféricos. Isso realmente é válido?

Na verdade verdadeira, como dizemos brincando, não é. Realmente não é. Quem vive da decoreba ignora que não só os estudantes evoluem em seus modos de estudar, mas também as bancas elaboradoras em seus modos de perguntar. Se você examinar com atenção as provas de diferentes exames vestibulares atuais, verificará com certeza que as questões exploram o que é principal nos conteúdos, deixando de lado o que é apenas marginal, complementar.

Em qualquer ciência, ao assimilar e dominar fundamentos e conteúdos teóricos, os elementos periféricos são assimilados automaticamente, em virtude das estreitas relações que mantêm com tais conteúdos. Bom exemplo é a Medicina. Se você encontrar uma terminologia, uma relação de termos usados na Medicina, poderá memorizar o significado desses termos, não necessariamente a ciência que os utiliza para denominar os conceitos com que trabalha.

Há, evidentemente, em qualquer ciência, muitos dados que se memorizam, não pelo simples memorizar, mas pelo fato de estarem indissoluvelmente inseridos na atividade científica, razão por que, com a ajuda desta, são registrados na memória com menor esforço.

Percebeu? A memorização só é válida, em qualquer estudo de qualquer disciplina, na medida em que os elementos decorados não se fechem em si mesmos, mas impliquem e evoquem suas relações com os fatos, fenômenos e conceitos dessa disciplina. Fazendo um trocadilho, podemos dizer que o decorar não pode ser decorativo. A própria palavra decoreba, que quase sempre pronunciamos em tom jocoso, debochado, constitui prova disso.

Com base nestes lembretes, você deve mudar um pouco a ótica de seu método de estudo, passando a considerar a memorização apenas uma ferramenta auxiliar, e não o fundamento de seu aprendizado. Aprender é muito mais profundo.

 

 

 

 

 

Afinal, que é um parágrafo?

April 19th, 2017

Alguns estudiosos costumam comparar o parágrafo, entendido como unidade de um texto em prosa, com a estrofe, unidade de um texto em verso. É fácil entender a estrofe como unidade do texto em verso. Num soneto, por exemplo, verificamos com facilidade que a separação dos versos em quatro conjuntos, dois de quatro versos (quadras ou quartetos) e dois de três versos (tercetos) não é arbtrária, mas corresponde a quatro planos de significado, unidos numa sequência semântica da qual o último terceto encerra a chamada chave de ouro, magnífica conclusão do poema. Leia qualquer soneto de Camões, de Bocage ou de Gregório de Matos para verificar esse fato.

O problema, porém, é o parágrafo. Sua comparação com a estrofe não é lá muito fundamentada: são fenômenos bastante diferentes. Muitos estudiosos já tentaram estabelecer uma teoria do parágrafo, mas fracassaram, não tendo conseguido ir além do fato de que há certa unidade de sentido em cada um deles na sequência que os faz constituir um texto.

Isso é muito pouco e pouco preciso, os escritores que o digam! Se houvesse indicadores exatos de quando sair de um parágrafo para outro, o problema nem existiria, mas, na verdade, não há. As lições que lemos a respeito em livros sobre redação nos dizem que devemos sentir, de certo modo intuir o ponto em que um parágrafo se encerra e se inicia outro. Acrescentam que cada parágrafo é uma unidade de sentido. Não há, entretanto, normas e regras invariáveis para paragrafar. E é justamente por isso que, quando saímos dos livros e apostilas para o ato de criação de um texto, temos dúvidas e mais dúvidas. Que fazer?

O primeiro ponto a extrair dos comentários acima é que não há critérios cem por cento objetivos para elaborarmos a divisão de um texto em parágrafos. O segundo, que cada um deve perceber por si mesmo, conforme a sequência de períodos que vai gerando o texto, o momento de fazer a transição, iniciando um novo parágrafo. A verdadeira unidade de um texto, neste sentido, é o período. É a sequência de períodos que vai conduzindo o sentido de um texto para o seu encerramento. Os parágrafos são conjuntos de períodos estabelecidos de acordo com o que vai percebendo o escritor à medida em que escreve. É por esse motivo que encontramos textos em que predominam extensos parágrafos e outros em que os parágrafos apresentam formas mais variadas.

Para falar francamente, os parágrafos de um texto poderiam ser até suprimidos, escrevendo-se tudo numa só sequência, sem qualquer prejuízo para o significado global e unitário de um texto. É o que, aliás, alguns escritores experimentaram fazer, na modernidade, excluindo a divisão de narrativas em parágrafos e até mesmo suprimindo sinais como o travessão de diálogo e as aspas. É claro que você não vai fazer isso em sua redação de concurso ou de vestibular, pois não está de fato criando uma narrativa literária. O melhor caminho, portanto, é seguir mesmo sua própria percepção do texto que vai sendo criado e dividi-lo em parágrafos que se ajustem melhor à sequência, até mesmo para facilitar o trabalho do seu leitor.

Quer saber de uma coisa? Não se preocupe muito com a exatidão da divisão em parágrafos, mesmo porque esta não existe, mas siga sempre seu próprio julgamento, ou, como dizem os ingleses, seu feeling. É isso aí!

 

 

Muito cuidado com os senões

April 12th, 2017

Usos bastante comuns na fala corriqueira podem, na escrita, causar confusões bastante perigosas. Isto se explica pelo fato de que a escrita acrescenta aspectos de que a fala não tem nenhuma necessidade.

A todo instante você emprega, por exemplo, a palavra senão, que pode funcionar na frase como substantivo, preposição, conjunção. É claro que você não se dá conta disso quando fala, nem tampouco quando escreve: simplesmente fala e simplesmente escreve. Na fala, por isso, nada a comentar. Mas na escrita… bom, aí teremos outra estória. Por isso, você acaba sendo obrigado a perceber que há diferença relevante entre senão e se não.

O Dicionário Aurélio exemplifica muito bem os usos de senão:

Nenhum senão no todo dela existe. (Vale dizer: nenhum defeito, nenhuma mancha, nenhuma mácula. Senão, neste exemplo, é um substantivo, cujo plural é senões).

Ninguém senão os irmãos Correias compareceu à cerimônia. (Vale dizer: ninguém exceto os irmãos Correias, ninguém salvo os irmãos Correias, ninguém a não ser os irmãos Correias. Senão, neste exemplo, funciona como preposição).

Lute, senão está perdido. (Vale dizer: de outro modo está perdido, caso contrário está perdido. Senão, neste exemplo, funciona como conjunção).

 

Se fosse apenas isso, não haveria grandes problemas, não é? Você já estudou bastante estes usos e sabe como resolver as eventuais dúvidas. Na fala, você não se dá conta de haver qualquer problema, pois a pronúncia é a mesma, embora o sentido seja diferente. A dúvida ocorre na escrita, em que surge uma nova personagem, que tem o dom de atrapalhar tudo no enredo: se não. Observe os exemplos:

 

Se não entregar a obra na data combinada, o contrato será rescindido. (Vale dizer: caso não entregue a obra na data combinada. O se, neste emprego, é uma conjunção condicional).

Quero saber se não irão entregar a obra na data combinada. (Vale dizer: quero saber se acaso, se por acaso, se porventura. Se, neste exemplo, é uma conjunção integrante).

 

E agora? Como escapar dessa enrascada? Conselho amigo do Blogueiro: se não quer se aprofundar nesses conhecimentos, mas tão somente não errar, deixe senão de lado; preocupe-se apenas em ter certeza do emprego de se não. O raciocínio até parece simplório, mas é verdadeiro: se souber distinguir com certeza o emprego de se não, tudo o mais será senão.

Captou? Então, mãos à obra, digo, ao se não, para não mais se equivocar em distingui-lo de senão. Valeu?

 

Os ecos: chatinhos e perigosos

April 12th, 2017

Um dos aspectos que o Blogueiro nunca colocou em seus artigos, a não ser de passagem, é o das repetições desnecessárias. Os escritores profissionais são muito hábeis em evitá-las, porque enfeiam e atrapalham seu estilo. Os estudantes, porém, apesar das observações dos professores de Língua Portuguesa, muitas vezes parecem não dar a mínima para elas. Mas que são feias e perigosas, são mesmo!

Observe esta passagem:

 

De repente, o presidente disse que somente delinquentes são capazes de cometer atos tão injustamente deprimentes contra a população inocente que lhes é indiferente.

 

Não pense que se trata de exemplo inteiramente forjado pelo Blogueiro. Textos de jornais e revistas, sobretudo quando transcritos para a internet, estão cheios de repetições como essas. Os gramáticos denominam ecos tais repetições de finais de palavras e condenam esse emprego, considerando-o um vício de linguagem. São oito entes que povoam um só parágrafo, representando um incômodo para o leitor e caracterizando o desleixo do escritor em seu texto. E é muito fácil evitar esse defeito. Observe agora:

 

Naquele momento o presidente disse que apenas bandidos são capazes de cometer atos injustos e deprimentes contra a população.

 

Melhorou bastante, não? E não deu grande trabalho. Imagine você colocar um parágrafo como aquele em sua redação ou em uma resposta discursiva! Não espere nenhuma condescendência da banca, pois esta sabe muito bem que seria fácil evitar as repetições fastidiosas de finais de palavras.

Cuidado, portanto, com palavras terminadas em ente e ão, abundantes em nosso idioma e capazes de iludir quem escreve. Anote mais um exemplo:

 

O cão é um animal de estimação cuja alimentação pode ser natural ou por ração.

 

Muito feio, não é? Esses ecos em ão representam um fator negativo em qualquer texto, caracterizando, na opinião do leitor, incapacidade expressiva de quem escreve. E é quase uma brincadeira  evitá-los:

 

Os cachorros são animais de estimação cujo alimento pode ser natural ou produzido industrialmente.

 

Compreendeu? Sempre que fizer a revisão de um texto, seja redação ou resposta discursiva, trate de evitar os ecos, que, além de tornarem a leitura desagradável, podem até mesmo prejudicar o significado de frases inteiras.

O Blogueiro ainda se lembra de um professor de português, que deu em certa aula um exemplo chocante, verdadeiramente assustador para o perigo dos ecos:

 

Cruz! Faltou a luz quando eu propus a solução que não reduz a produção!

Você não vai querer prejudicar seu texto com essas desajeitadas repetições, vai?