Temperança, dignidade, solidariedade: por um mundo melhor

O papai orgulhoso de uma garota de sete anos disse noutro dia ao blogueiro que sua filha participou de uma exposição escolar em que deveria fazer um desenho sobre o seu futuro e escrever como título um lema para o desenho.

Ao comparecer à festa e procurar os trabalhos das crianças, o papai foi verificando que em sua maioria procuraram desenhar seus próprios sonhos e escrever como título o que desejavam ser. Nada mais normal. Ao deparar-se com o de sua filha entre as dezenas de outros, teve a surpresa, mais que agradável, de ver que ela não se referira a si mesma, mas desenhara pessoas sorridentes em meio a flores coloridas e, em baixo, como lema: Eu desejo fazer o mundo melhor. Belo sonho, não?

Ora, o blogueiro hoje quer trazer para o mundo dos vestibulandos esta ideia que a menina de sete anos tão lindamente adotou. É claro que tal lema circula na mídia e que ela, portanto, não o inventou. Escolheu-o, porém, entre milhares de outros, muitos dos quais expressam vícios, violência, ambições e egoísmo. Teve a garota o mérito de entender e ilustrar com seus desenhos a noção de que é preciso tornar o mundo melhor, de sorte que nele todos possam sorrir. A ilustração com sorrisos e flores, deste modo, simboliza a alegria, o bem-estar, a paz, a solidariedade, a felicidade tanto individual como coletiva. A criança, quando bem tratada e educada pelos pais e pela escola, já vive nesse mundo melhor. Nós, adultos, embora queiramos a mesma coisa, muitas vezes nos sentimos tocados pelo pessimismo de não poder vê-lo em vida e até de acreditar que não ocorra nunca no planeta. O pessimismo, todavia, tem de dar lugar e vez ao ideal de, estimulando os jovens, fazer com que tornem sua essa meta. É um caminho. O primeiro passo, portanto, para a busca desse mundo melhor não é ainda olhar para o coletivo, mas para si mesmo. Para mudar o mundo precisamos primeiro mudar a nós mesmos.

A chamada “civilização” atual, porém, oferece inúmeros caminhos para afastar os jovens desse objetivo e para mergulharem numa conduta turbulenta, muitas vezes autodestrutiva. E assim, quem podia mudar o mundo, para evitar que seja destruído, acaba fracassando em mudar a si mesmo e a conquistar o que hoje é fundamental para o equilíbrio das pessoas: temperança, amor,  dignidade, solidariedade.

É triste observar os falsos rumos que o mundo oferece hoje às pessoas, particularmente aos jovens, sob ilusórios rótulos de modernidade: bebida, drogas, prazeres desenfreados, violência, questionamento dos valores éticos da sociedade, e muito disso estimulado pelo cinema, pela mídia, pelo mau uso da tecnologia da comunicação. Os jovens estão enfrentando todos os dias essa armadilha e em boa parte acabam sendo apanhados. Assim, numa inversão de valores, o lar e a escola mudam de endereço, passando a residir nos games, nos celulares, nos tablets, em suspeitas relações online, na quebra dos princípios da própria vida em sociedade. Como esperar que, sob estes desvalores, todos possam atingir uma maioridade equilibrada e digna, como cidadãos úteis a si mesmos e à coletividade?

O que o blogueiro acaba de dizer não é discurso “quadrado” de pessoa mais velha ou idosa, mas a nua e crua descrição do que está ocorrendo na realidade e todos os dias é noticiado pela mídia. E a pergunta que fica é como criar mecanismos, procedimentos, práticas para que  jovens como você consigam atravessar esse terreno pantanoso sem grandes danos físicos, intelectuais e morais?

Pense nisso, caro vestibulando, e você também, caro estudante que acaba de ser aprovado e de matricular-se na universidade. E pense a partir de um lema que vem dos antigos gregos e em língua latina é definido In medio virtus (In medio stat virtus): A virtude está no meio. Significa meio, neste caso, a moderação, a capacidade de controlar-se, de não exagerar, de não fazer nada em excesso. O homem verdadeiramente virtuoso é aquele que se revela capaz de moderar seus apetites e paixões, de não se deixar levrar pelos extremos. É também aquele que ama seus semelhantes, que ignora todas as diferenças entre os povos e considera seu irmão cada pessoa que vive no planeta. Não é, portanto, o imoderado, o intemperante, aquele que se abandona aos prazeres, à violência e ao desprezo de seus iguais.

A todo instante, hoje, lemos notícias de pessoas que faleceram precocemente por causa de abuso de álcool, uso de drogas e prática de violência; aumentam os casos de mortes desse tipo em trotes, que as universidades do país inteiro proibiram em seus câmpus mas são realizados em algumas repúblicas e em festas que imitam imbecilmente filmes estrangeiros de quinta categoria. Crendo-se muito livres e senhores de si, os pobres jovens acabam sendo vítimas ingênuas de maus modelos e incapazes de autocrítica.

Ante fatos como os apontados, o blogueiro pensa no que desenhou e disse aquela menina e conclui que não será em meio a tanta intemperança, a tanta falta de moderação, de bons princípios e costumes que será construído o sonhado mundo melhor.

É preciso mudar, é preciso fazer com que o mundo se transforme no caminho das novas gerações em um palco de alegrias, de satisfações, um mundo de temperança, de amor, de dignidade, de solidariedade.

Pense nisso. E pense que essa transformação começa pelo indivíduo e se consumará somente no dia em que todos julgarem e agirem do mesmo modo, visando ao bem de cada um e à felicidade de todos. Precisamos tornar realidade aquele mundo melhor sonhado pelas meninas e meninos de sete anos.

 

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