Navegar é preciso? Sim, mas…

A era da comunicação global em que vivemos pode muitas vezes iludir aqueles que observam fatos e fenômenos sem o necessário senso crítico. Um exemplo é a internet:  facilita e acelera as comunicações, disponibiliza instantaneamente boa parte do conhecimento humano, pode ensinar muito… mas também muito desensinar. Alguma novidade nessa conclusão? Nenhuma. Qualquer coisa nova, desde os tempos mais remotos da História, é planejada para determinado uso e, na prática, acaba revelando possibilidade de uso bem diferente do idealizado, por vezes mau uso. Assim, os homens que procuravam inventar o avião imaginavam estar criando algo muito útil para a humanidade; os aviões, no entanto, apesar dessa grande utilidade, de que somos testemunhas ainda hoje, acabou sendo usado para a guerra e o assassinato em massa de populações. E ainda é!

A internet não é diferente. Criada para o bem, para o progresso das comunicações, também acaba sendo usada para o mal, para a prática de crimes, para a imoral espionagem de uns países a outros. Isso não quer dizer, porém, que devamos bani-la em virtude do mau uso. Ao contrário, devemos aproveitar todas as suas boas potencialidades, torná-la um instrumento do bem, das boas relações entre pessoas e entre países.

Este Blogue já ressaltou muitos dos benefícios que a navegação na rede pode trazer aos candidatos a exames vestibulares, desde, é claro, que saibam como navegar e onde aportar. Os numerosos sites dedicados ao conhecimento científico, à informação e ao ensino são portos seguros. Os jornais e revistas, que aos poucos estão abandonando o papel e assumindo o formato difital, igualmente representam bons pontos de chegada para a busca de informação, para a atualização das pessoas com relação ao mundo em que vivem. Cursos online ministrados por universidades e instituições dedicadas a preparar pessoas para os mais diferentes concursos são excelentes ancoradouros a quem busca o melhor para sua vida.

Tudo isso é verdade. Todavia, não devemos nos iludir. É preciso sempre estar com um pé à frente e outro atrás, porque a web é como o mundo cá fora: numa esquina se pode encontrar um benfeitor; noutra, um assaltante. Não é, porém, para falar de assaltos a seu bolso ou sua bolsa que este artigo está sendo postado; é para falar de assaltos à sua distração, caro vestibulando e caro candidato a concursos, ao seu descuido em não julgar o que está lendo e, por isso, sem querer, assimilar como certo o que está errado.

Para exemplificar esse perigo, o Blogueiro usou dez minutos de leitura na internet e flagrou textos com erros que, na gíria, se denominam cabeludos. Os exemplos foram ligeiramente alterados, para evitar reclamações dos redatores. Eis o primeiro:

 

O candidato propôs um governo multisetorial e aberto aos mais capazes.

 

Parece que tudo está certo na frase. Não está. Observe como foi escrito multisetorial. Está errado: falta um s; deve-se escrever multissetorial.

É bom tomar cuidado, portanto, com tais cochilos (ou erros mesmo) dos redatores de textos da mídia. Eis outro, cabeludíssimo:

 

A negociação entre o clube estrangeiro e o nacional evoluíram bastante nos últimos três dias.

 

Na verdade, o redator quis dizer que a negociação evoluiu. Fez confusão, no entanto, com a menção a dois clubes. O plural, nesse caso, é um verdadeiro assalto digital à Língua Portuguesa.

Às vezes, um cochilo acaba gerando outro:

 

A prefeitura promove, no próximo dia 5 de setembro um encontro de músicos da região.

 

Embora não seja raro na linguagem coloquial e em jornais o emprego do presente do indicativo em lugar do futuro do presente, no exemplo acima ficaria muito mais claro e eficiente promoverá em lugar de promove, em virtude da referência à data. A mesma referência à data, aliás, gerou outro problema: o emprego da vírgula após a forma verbal promove, separando o sujeito do predicado. Trata-se de erro de pontuação, que poderia ser evitado com o emprego de vírgula também após setembro (A prefeitura promoverá, no próximo dia 5 de setembro, um encontro de músicos da região.) ou com a simples supressão da vírgula após promove (A prefeitura promoverá no próximo dia 5 de setembro um encontro de músicos da região.)  Já no exemplo abaixo. a vontade de acertar conduz ao erro:

 

O empresário do craque tem o oferecido a numerosos clubes estrangeiros.

 

Você, evidentemente, notou que o redator buscou evitar “tem oferecido ele”, uso coloquial de “ele” que não é permitido pela norma-padrão. Não soube, porém, empregar a variante pronominal átona adequada. Nesse caso, não há desculpa, houve erro mesmo por desconhecimento. A frase deveria ser: O empresário do craque tem-no oferecido a numerosos clubes estrangeiros. Se julgasse que “tem-no” ficaria demasiadamente formal, o redator podia ter escrito: O empresário está negociando com numerosos clubes estrangeiros a transferência do craque. Ou: O empresário do craque ofereceu-o a numerosos clubes estrangeiros.

Vale fazer, para encerrar, uma reflexão bem curiosa: em tempos passados eram comuns as citações em jornais de erros cometidos por vestibulandos em suas provas discursivas, particularmente em redações. Pejorativamente, tais erros eram chamados “pérolas”. Tratava-se, na verdade, não de intenção de corrigir, mas de debochar dos candidatos responsáveis por tais erros. Por antiética, tal atitude foi banida.  Curiosamente, hoje as “pérolas”, como você acaba de notar, se espalham por toda a rede, em jornais, revistas, sites, blogues. Em vez fazer deboche a seus autores, porém, devemos aprender com os erros flagrados  e, com isso, aperfeiçoar nosso domínio da Língua Portuguesa.

Para o vestibulando, portanto, navegar na rede é preciso. Mas sempre tomando cuidado com a profundidade das águas e o perigo dos recifes, para que o barco de sua redação siga seguro até o porto.

 

Leave a Reply