Há palavras “difíceis”?

Reza um dito popular que “o que não entra não pode sair”. Parece brincadeira, mas não é. Se você procurar descobrir a filosofia que está por trás desse dito, perceberá que ele carrega um belíssimo conselho.

Pense, por exemplo, na questão do vocabulário. Você reclama que há muitas palavras difíceis em certos livros, seja de literatura, seja de ciências em geral, e por essa razão não consegue entender esses livros. Ora, pense bem: não há palavras fáceis ou difíceis; palavras são palavras, servem ao propósito a que foram criadas: transportar conceitos. Nada mais, nada menos. Quando conhecer esses conceitos, elas deixarão de ser difíceis.

Você sabe onde procurar os sentidos das palavras. Desde as primeiras séries do ensino fundamental, as professoras exigiam que levasse sempre à escola um minidicionário, justamente para ajudá-lo a aumentar seu vocabulário, sempre que nos textos surgisse uma palavra desconhecida. Nas aulas das diferentes disciplinas, muitas vezes os próprios professores apresentaram os significados ou os próprios textos continham essa explicação. Certo? Depois, à medida que o tempo ia passando, você aprendeu a consultar dicionários com maior número de vocábulos. Hoje, o progresso da Informática faz com que você possa contar com dicionários eletrônicos, quer instalados como programas em seu computador, quer por meio da internet.

Talvez você diga, ao encerrar a leitura do parágrafo acima, que sabe muito bem de tudo isso. É bom que saiba. Mas será ótimo se souber usar com regularidade e método: cada vez que surgir uma palavra desconhecida ou não muito conhecida, você deve buscar ajuda imediata do dicionário. Nunca deixe para depois. Se deixar, esquece e não volta até que a palavra apareça de novo. O problema é que esse de novo bem pode ser uma pergunta de prova. E aí a coisa fica feia, não fica?

Pois é. Vamos dar um exemplo: você está lendo um jornal ou revista (seja em papel ou online) ou assistindo a um telejornal e se depara com a palavra inflação. Não dá a mínima bola, porque esse negócio de economia não é assunto seu. Claro que é. Tudo o que ocorre à sua volta é assunto seu. E, quer queira quer não queira, você vive mergulhado na economia e o tempo todo sofre os seus efeitos. A atitude certa, portanto, não seria ignorar a palavra, mas imediatamente verificar o sentido. Muita gente, nesse momento, diria que economia é difícil de entender, é coisa de especialistas. Errado. Sendo o sistema econômico a base de quase tudo o que acontece atualmente no planeta, é bom procurarmos entendê-lo o máximo possível, para não nos tornarmos verdadeiros extraterrestres.

Muito bem. Você se convence de que precisa ir ao dicionário e lá descobre que a inflação se caracteriza pela intensa alta do nível geral de preços e pela desvalorização da moeda. Vale dizer: o aumento persistente dos preços dos produtos provoca uma contínua desvalorização da moeda. São várias as causas desse problema, mas, em todas elas, os órgãos econômicos do governo estão, como diz o povo, mais perdidos que cachorro que caiu de mudança. O salário do papai sobe, para compensar a inflação, mas a inflação continua e aquele dinheiro a mais não vale muita coisa. O Brasíl já viveu um fenômeno intenso de inflação, chamado de hiperinflação (você sabe que o elemento hiper intensifica o sentido), lá por fins dos anos 80 e inícios dos 90. Seus avós o viveram. Era terrível: recebia-se o salário e corria-se para os supermercados e lojas para comprar de uma vez todo os produtos necessários aos próximos trinta dias. Guardar o dinheiro no bolso? Nem pensar! A inflação “comeria” boa parte do seu valor durante o resto do mês.

Percebeu? Até mesmo seus avós podem ajudá-lo a entender o que seja inflação. Claro que não podem provavelmente auxiliá-lo a entender o que seja deflação ou estagflação. Você mesmo poderia procurar saber, não para se tornar um economista, mas para ter uma ideia, como pessoa comum, do que está acontecendo e do que pode acontecer na economia. E vai que de repente uma pergunta ou uma redação de vestibular focalizam esse tema!?

Na verdade, para encerrar, não há palavras difíceis: há certa má vontade nossa de procurar-lhes os sentidos.

 

 

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