Ler livros é estar no mundo

Num blogue sobre exames vestibulares, a abordagem de muitos temas nem sempre aponta diretamente para a prática das provas. Vai muito mais longe. A questão da necessidade de leitura é um desses temas. Por quê? Porque, especialmente nos dias atuais, de tanta tecnologia de comunicação oferecida com facilidade a todas as pessoas, frequentemente se percebe que o comunicar-se por via eletrônica pode acabar provocando efeito contrário ao que se espera.

Muitos estudiosos começam a manifestar preocupação com esse fenômeno. Não são poucas as matérias veiculadas na mídia e na rede sobre o fato de boa parte das pessoas viverem um período do dia plugadas, olhinhos acesos e dedinhos ágeis manipulando seus celulares e tablets para enviar e receber mensagens. Até esse ponto, tudo seria maravilhoso, se esses contatos implicassem uma troca de informações mais densas e carregadas de conteúdo. O que ocorre, porém, especialmente nas redes sociais, é a vulgarização dos recadinhos, das fofocas, dos fatos inusitados, dos exibicionismos individuais, das piadinhas, das bobagens e besteiras de que logo se arrependem os seus autores. E tudo isso prende as pessoas a seus aparelhinhos por horas, afasta-as do convívio concreto com aqueles que estão em volta, familiares, amigos, pais, mães, filhos, irmãos, colegas. De certo modo, afasta as pessoas do mundo real e as coloca num planetinha virtual multicolorido e inteiramente banalizado.

Os pessimistas de plantão anunciam que a população do planeta, por isso, começa a se tornar uma enorme manada, que em breve será dirigida pelo Grande Irmão por meio dos aparelhinhos eletrônicos, quase uma versão modernizada, porém real e assustadora, do 1984, de George Orwell. É claro que talvez alguns leitores (talvez muitos) deste artigo poderão não entender este parágrafo, porque não conhecem George Orwell e não leram nem mesmo resumos sobre seu famoso romance 1984, além de não terem a menor noção sobre o que acontecia nas relações humanas, na tecnologia e na política internacional da época em que o livro foi concebido e publicado. Quer dizer: não leram os livros que lhes garantiriam uma visão privilegiada do que foi a primeira metade do século XX.

Este é exatamente o problema, caro vestibulando. Não devemos ser pessimistas com as conquistas tecnológicas no domínio das comunicações grupais e individuais. Estas são importantes e realmente trazem benefícios para a humanidade, se utilizadas com tal objetivo. O perigo que elas implicam é de outra natureza e, de certa forma, já existia antes de elas haverem sido criadas: a falta de hábito de leitura! a falta da fantástica formação que a leitura pode nos dar! a lamentável falta de visão do mundo!

Sim, mas eu vivo lendo no meu celular os emails e historinhas que chegam a toda hora. Algumas piadas e notícias são até longas! Isso não é ler? dirão alguns. Claro que é ler, mas numa medida limitadíssima e com uma qualidade bastante inferior em termos de informação e de formação. Seus neurônios não dão a mínima bola! Este é o ponto: a leitura de livros, quer literários, quer de divulgação científica, quer de estudos em geral apresenta uma contraparte de formação do indivíduo que os recadinhos dos celulares e tablets nem de longe conseguem atingir. Os celulares, de certo modo, apenas transformam em eletrônica a comunicação diária, que tanto pode ter utilidade quanto futilidade. Um livro, porém, como o Casa Grande e Senzala, que todo brasileiro deveria ler aos dezoito anos, é um verdadeiro curso universitário sobre a formação de nossa nacionalidade. E pode ser lido nos e-readers com muita facilidade e até mesmo nos tablets. Você já leu? E você já leu algum livro de História da Idade Média? Não? Então não sabe o que está perdendo em termos de compreensão do próprio mundo atual, pois a Idade Média é o verdadeiro caldo em que se formou toda a civilização posterior. E muitos hábitos, tanto individuais, quanto políticos persistem até hoje, disfarçados pelo chamado progresso e pelas conquistas tecnológicas.

Conclusão: você precisa ler, meu amigo! Se quer realmente conhecer o mundo como é, se quiser formar-se como um verdadeiro intelectual que honre seu ingresso num curso universitário e, mais ainda, honre seu trabalho profissional futuro e seu estar no mundo; se não quiser ser iludido pelas informações fáceis e vazias ou, pior, se não quiser viver alienado, num mundinho muito lindo de porcelana, completamente alheio ao que a vida humana e a civilização realmente significam, leia! leia muito, meu amigo! Toda a ciência e toda a experiência humanas estão registradas nos livros, e quem os ignora não passa de uma espécie de mamute sonhando ser campeão olímpico de salto em altura!

 

 

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