Honrar Camões e Rui: a ultima lição da Copa

Com a derrota acachapante da seleção brasileira de futebol, até mesmo os vestibulandos esqueceram por algumas horas dos exames que irão prestar no final do ano. Jornais, revistas, televisão, redes sociais, em todas essas fontes não se tem falado noutra coisa nas últimas horas, com as mais variadas reclamações, acusações e piadinhas sobre o grande fracasso esportivo.

É claro que todos sentimos. Mas isso tem um nome: chama-se esporte. E esporte implica sempre vencer ou perder. Perdemos, desta vez, venceremos numa próxima. Aliás, no futebol e no vôlei somos o país que tem maior número de títulos.

Lamentações e consolações à parte, sempre se pode tirar uma lição de algo que a maioria das pessoas provavelmente não observaram nas transmissões dos jogos e nas entrevistas dos nossos atletas. Sempre se disse que nossos atletas jogavam muito bem e falavam muito mal: o domínio da bola não encontrava correspondência no do idioma. Correm até hoje piadinhas a respeito, como aquela do jogador que perdeu um pênalti que significaria a vitória do seu time. Por que você errou, se treinou tanto? perguntou o treinador, decepcionado. E o atleta: É que o goleiro fez que foi mas não foi e acabou não “fondo”. Nunca saberemos se algum atleta chegou a falar assim ou se trata apenas de invenção do piadista que criou a versão original.

Essas e outras anedotas, que representavam inofensivos deboches dos torcedores em geral à pouca instrução de alguns atletas, não condizem mais com a realidade. Quem acompanhou as entrevistas de atletas brasileiros pôde perceber que se expressam muito bem, revelando boa formação. Alguns, inclusive, se expressam muitíssimo bem, como o goleiro Júlio César. Dá gosto ouvir suas respostas às perguntas de jornalistas, porque revelam sempre um português muito claro, sem erros de flexão verbal nem de concordância e uma fluidez elogiável. Para falar a verdade, nosso goleiro fala melhor que a maior parte daqueles que o entrevistaram, assim como dos comentaristas de rádio e de televisão, e por isso mesmo não faria feio em uma conferência acadêmica.

Menos mal. Perdemos no esporte, não no idioma. E será pelo idioma que obteremos nossa vaga nos vestibulares e conquistaremos nossa formação ao longo do curso superior. Na universidade não faz mal ser ruim de bola, faz mal ser ruim de fala. Na verdade, há muito maior valor em honrar a herança de Camões, Fernando Pessoa, Machado de Assis e Rui Barbosa do que vencer um adversário porque o nosso goleiro fez que foi mas não foi e acabou não “fondo”.

 

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