Você sabe ler? Nem tanto

É claro que você sabe ler. Ninguém presta vestibular sem saber ler. A pergunta, porém, procura algo mais do que essa resposta superficial: você sabe ler mesmo? sabe entender e interpretar qualquer texto que lhe apareça de repente numa prova ou num teste qualquer? Esse é o problema. Talvez você saiba até um ponto, mas, a partir desse ponto…

A capacidade de ler é, por assim dizer, poliédrica, não apresenta uma só face, tem muitas. Cada uma corresponde ao grau de escolaridade, de experiências, de conhecimentos, de aplicação, de exercício constante, etc. Em nenhuma dessas faces se pode dizer que a capacidade está consolidada. Basta certo período sem prática para tudo começar a regredir.

Muitos estudantes afirmam que detestam literatura e livros em geral, quaisquer que sejam. Julgam suficientes para eles as cansativas leituras de apostilas e dos textos nestas apresentados. Obviamente, a aplicada leitura de apostilas alimenta uma boa capacidade de entendimento e interpretação de textos, mas não é suficiente para garantir uma capacidade acima do comum. E é preciso uma capacidade acima do comum para interpretar certas minúcias de alguns enunciados de questões e de suas alternativas, bem como de perguntas cujas respostas são discursivas. Em alguns casos, a leitura requer alguma malícia interpretativa que o hábito de ler desenvolve. Note que não estamos falando só de vestibulares, mas de provas ao longo dos cursos universitários e de concursos para obter empregos em diferentes instituições. Sem falar naqueles exames, como os da O.A.B., necessários para que os profissionais possam exercer suas profissões.

Na verdade, quem se encaminha para uma vida universitária e, mais que isso, para uma profissão universitária, hoje, não pode prescindir da companhia constante não apenas de textos literários, mas de todos os gêneros de texto que, ainda mais com o formato dos ebooks atuais, comunicam as informações sobre o que de importante ocorre no mundo. A grande quantidade de livros em circulação não é ornamento, mas resposta à necessidade humana de conhecer melhor o mundo em que se vive. É, mas eu prefiro o cinema. Há tudo isso no cinema! responderão alguns. E estarão enganados. O cinema é outra arte, é outro modo de nos fazer conhecedores das mais diversas realidades que povoam o mundo. Apresenta imagem, som, música, linguagem. Cria uma ilusão muito forte de realidade. O cinema pode apresentar-se como narrativa, como biografia, como relato de viagem, como reportagem, como forma de divulgação científica. O cinema e a televisão, aliás! Nem esta nem aquele, porém, substituem e anulam outras formas de comunicação. O cinema tem as suas limitações, sendo a principal delas a da quantidade de informações, que está associada aos limites de tempo de cada filme. Por isso mesmo, quando se trata de filmes baseados em biografias, relatos de viagem, diários, narrativas, muita gente tem o hábito de ler, antes ou depois, os próprios livros. Bobagem? De jeito nenhum. Inteligência e esperteza de quem assim o faz, pois absorve nos dois meios de comunicação todas as informações que estes são capazes de dar. E, seguramente, as informações nunca são exatamente as mesmas, nem em qualidade, nem em quantidade nos livros e no cinema.

Tudo isso está sendo aqui comentado para lhe servir de alerta: aquela questão que você errou na prova anterior, por ter entendido mal o enunciado, não se deveu a falta de conhecimento, mas a interpretação inadequada. Você não precisa, nesse caso, melhorar seu conhecimento, mas sua capacidade de compreender e interpretar. E como se faz isso? Aumentando sua prática de leitura de livros, seja de papel, seja em formato digital, que está progressivamente substituindo o papel, mas não o livro.

E não esqueça: ao longo do curso universitário e de toda a sua vida profissional e pessoal, as leituras não devem parar. Em nenhum momento deixará de ser necessário, em seu trabalho, ler e também escrever textos característicos de sua atividade profissional. Muitos profissionais universitários, por vezes formados nas melhores instituições, se queixam de não saber escrever direito e atribuem a culpa tanto ao ensino básico quanto ao ensino superior. É falso. Aprenderam, sim a ler e escrever relativamente bem. Não se desenvolveram mais nessas habilidades por passarem, após receber o último diploma, a não ler muita coisa e escrever absolutamente nada. Com isso, é claro, até regrediram em relação a seus desempenhos nos vestibulares. A prática da leitura e da redação pode ser comparada à de musculação. Exercícios diários de musculação moldam seu corpo e o tornam mais forte e flexível. Exercícios diários de leitura e de redação moldam sua mente e a tornam mais vigorosa e flexível na argumentação e na interpretação. E até mesmo na criatividade: muitos grandes escritores brasileiros eram advogados, médicos, engenheiros que não se limitavam a seu trabalho, mas ampliavam seus horizontes por meio da leitura de livros e mais livros.

Percebeu? Ler não é apenas passatempo. É alimentar a mente, é refinar o sentimento do mundo. É exercício de inteligência, de raciocínio e criatividade.

É preciso dizer mais?

 

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