E o internetês? Vale?

Um estudante de curso preparatório perguntou outro dia ao professor de língua portuguesa se podia escrever sua redação com o mesmo tipo de discurso que usava na internet: Afinal, professor, eu consigo ser muito mais rápido e mais claro nos e-mails que escrevo, nos torpedos que envio e nos diálogos dos fóruns. E o importante não é ser claro e rápido no vestibular?Além do mais, os membros da comissão de correção também se comunicam pela internet e pelo celular, não?

A questão colocada pelo estudante não deixa de ter certo fundamento. Ao longo de toda a sua vida escolar só ouviu e reouviu que tinha de escrever com clareza, de modo a ser imediatamente entendido. E como na internet é sempre compreendido, não entende por que não poderia escrever da mesma forma seus textos, tanto em respostas a questões discursivas, quanto em redações.

Diante de perguntas como essas, muitas vezes o professor tem dificuldade para fazer os alunos entenderem que, embora o sistema da língua portuguesa seja um só, o trajeto do sistema aos usos concretos apresenta numerosos e variados caminhos, caminhos que podem também aumentar de acordo com o progresso das tenologias da informação e da comunicação. A internet é um exemplo disso. Possibilitada pela evolução tecnológica, colocou nas mãos de todas as pessoas do planeta aparelhos que permitem a comunicação rápida, instantânea, tanto por meio de mensagens orais como de mensagens escritas. A instantaneidade das comunicações via rede, assim, levou à geração de uma forma de discurso rápido, cheio de abreviações e repleto de gírias, muitas vezes desobediente à sintaxe e ao sistema de pontuação, quando não ao próprio sistema ortográfico. Menos mal se assim a mensagem transita sem dificuldade. É o que ocorre, aliás, em todas as outras formas de uso da língua em redutos profissionais e sociais, além da própria utilização coloquial do sistema. Desses redutos, muitas vezes, se originam usos legitimados pela aceitação da própria norma-padrão. Até mesmo o discurso de cada ciência apresenta um grande vocabulário específico que constitui a sua nomenclatura.

A norma-padrão, todavia, constitui um uso geral, disseminado por todo o território nacional, modelo sacramentado pelos documentos oficiais, meios de comunicação e pela escola, apontado nas leis que regem a educação para ser empregado pelos professores e ensinado aos alunos. É em norma-padrão que se escrevem os artigos jornalísticos, os artigos científicos, os livros, as dissertações, as teses e os trabalhos escolares. E assim também, é claro, as respostas a questões discursivas nas provas e as redações de exames vestibulares, porque estes constituem a porta que dá acesso ao universo do conhecimento e das ciências.

Um dos princípios da racionalização do trabalho nos alerta para o fato de que deve haver um lugar para cada coisa e cada coisa deve estar em seu lugar. Podemos estender esse princípio para as diferentes formas de uso da língua. Se você se tornar jogador de futebol, assimilará fatalmente o vocabulário e os dizeres desse campo de atividade; se você se tornar um físico, aprenderá a empregar o discurso e toda a vasta nomenclatura da física. Agora, quando um jogador de futebol, um físico e você trocam mensagens pela internet, igualam-se pela forma de discurso ágil e breve característica desse meio.

Podemos terminar este artigo, colocando a questão apresentada como título: E o internetês? Vale?

Vale, sim. Na internet! rsrsrsrsrs

 

Deixe um comentário