Você escreve bem? Escreve, mesmo?

O título deste artigo parece provocativo. Sugere aquele tipo de pessoa “chata” que gosta de colocar sempre uma pitada de pessimismo na gente. O problema é que as pessoas “chatas” muitas vezes estão certas, mas, sendo incômodas em seu modo de falar, nos induzem a não levá-las a sério. Não é o caso deste artigo nem deste blogue: aqui se procura sempre apresentar um conselho útil e provocar reflexões nos candidatos, para que refinem cada vez mais seu desempenho. O título do artigo está simplesmente sugerindo que, muitas vezes, imaginamos ter um ótimo desempenho nesta ou naquela atividade, embora tal desempenho não seja tão bom quanto imaginamos. Quer um exemplo?

Em tese, esperamos que notícias publicadas em revistas e jornais na internet, bem como em outros tipos de sites e blogues apresentem sempre um português à toda prova, perfeitamente enquadrado na norma-padrão. Em tese. Na prática, muitas vezes ocorre o contrário. Outro dia o Blogueiro estava passeando por publicações online quando se deparou com alguns parágrafos assustadores de uma notícia sobre tema atual. Vamos citá-los, mas fazendo alterações de dados e nomes próprios, para evitar problemas de identificação da fonte, mas todos os deslizes expressivos e gramaticais serão mantidos. Observe:

 

O alfaiate Nicolau, entrou com uma ação na justiça contra a costureira Leonalda Lima, 23 anos, classificando como crime contra honra e calúnia. Isso aconteceu porque a cerca de 7 meses atrás, a costureira foi a imprensa e disse publicamente que visitou Curitiba a convite dele, mas não estava com ele, entretanto, afirmou que o viu traindo a na época esposa, Belmira Motas. Após este acontecimento, houveram muitos comentários e rumores, que resultou no fim do relacionamento dos dois. Nicolau negou conhecer Leonalda. O processo foi registrado na cidade onde a costureira mora, em Puritópolis.

Para quem quer conhecer apenas a informação geral, o parágrafo dá o seu recado. Mas para quem considera que notícias veiculadas por jornais e revistas online devem seguir a norma-padrão, o discurso é um desastre. Anote alguns problemas sérios:

1)      O alfaiate Nicolau, entrou com uma ação na justiça [...] – Erro crasso de virgulação: a vírgula aparece indevidamente separando o sujeito do predicado. O adequado seria eliminá-la: O alfaiate Nicolau entrou com uma ação na justiça.

2)      Isso aconteceu porque a cerca de 7 meses atrás [...] – Equívoco sério em escrever “a cerca” em lugar de “há cerca”. Redundância no emprego de “atrás”, já que “há cerca de sete meses” já se refere ao passado. O adequado, portanto, seria escrever: Isso aconteceu porque há cerca de sete meses [...].

3)      A costureira foi a imprensa [...] – Falta de sinalização da crase com o acento grave. Assim como está, a frase significa, absurdamente, que a costureira da história foi a  imprensa, e não uma mulher. Com a sinalização da crase, tudo se normaliza: A costureira foi à imprensa [...].

4)      A costureira foi a imprensa e disse publicamente [...] – Ora, se a costureira foi à imprensa e fez declarações, essas declarações se tornam públicas. Portanto, publicamente constitui mais uma redundância no parágrafo.

5)      Após este acontecimento, houveram muitos comentários e rumores [...] – Lapso terrível, porque nossos professores falam todo o santo dia sobre a impessoalidade do verbo haver, que, quando significa existir, deve ser empregado no singular. Devemos dizer e escrever há pessoas na sala, e não hão pessoas na sala; houve feridos no acidente, e não houveram feridos no acidente. Cochilo imperdoável do redator da notícia, que deveria ter escrito: Após este acontecimento, houve muitos comentários e rumores [...].

6)      Após este acontecimento, houveram muitos comentários e rumores, que resultou no fim do relacionamento dos dois [...]  – Curiosamente, na primeira oração, como comentado, o redator usou o plural em lugar do singular em “houveram”, e na segunda oração fez o oposto, empregando “que resultou”, quando deveria ter empregado “que resultaram”. Além disso, o leitor fica em dúvida, ante a expressão “dos dois”, se se trata do final do relacionamento de Nicolau com Leonalda, ou de Nicolau com Belmira.

 

Haveria mais alguns reparos a fazer sobre o parágrafo mencionado. Estes seis, todavia, são suficientes para entender que textos difundidos pela internet não são necessariamente modelos de discurso em norma-padrão. Deveriam ser, é claro.

E aqui surge a reflexão sugerida pelo título do artigo: Você escreve bem? Escreve, mesmo? Seu próprio julgamento talvez não seja muito adequado: pode dizer que sim e estar enganado; pode dizer que não e estar enganado. Não estaria na hora de encaminhar suas redações a professores ou colegas muito competentes, para que façam um diagnóstico preciso, impessoal, talvez rigoroso, mas verdadeiro?

 

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