2014

Quando dizemos que um ano novo está chegando, nem sempre percebemos que há algo de inconsistente nessa afirmação, que se repete ao final de cada 31 de dezembro. Em verdade, o tempo é um perpétuo fluir: chamamos passado ao que aconteceu e futuro aos prognósticos e previsões que, por lógica ou sentimento, fazemos pelo que ainda vai ou pode acontecer. As mensurações do tempo com base em calendário foram surgindo em diferentes culturas como sistematizações criadas para melhor equacionar as ações dos povos que as adotavam. Diferentes culturas, por exemplo, têm diferentes contagens do tempo. O calendário chinês está no ano 4711 e o judaico, no ano 5774.  Já o calendário que adotamos nos diz que a partir de primeiro de janeiro estamos no ano 2014. Trata-se do chamado calendário gregoriano, por ter sido implantado em 1582 pelo Papa Gregório XIII. Como uma criação europeia, este calendário acabou sendo adotado no mundo inteiro, facilitando enormemente o relacionamento entre as diversas nações.

Nenhum calendário, porém, consegue esconder o fato de que o tempo é um perpétuo fluir, quer o relacionemos ao universo como um todo, quer o relacionemos a um só indivíduo, como a nós mesmos. Tudo flui, tudo muda, tudo se transforma, nos vêm dizendo os filósofos há mais de dois mil e quinhentos anos. E os poetas não deixam por menos: Todo o mundo é composto de mudança, / tomando sempre novas qualidades, nos diz Camões em um de seus mais belos sonetos.

E nós, como ficamos? Não ficamos, estamos sempre indo, fluindo, mudando. Logo no início de 2014, quando chegarem os resultados dos vestibulares, as mudanças tomarão em nós novas qualidades, sentir-nos-emos os mesmos, mas fatalmente seremos outros. E assim, ano após ano, ou, melhor, instante após instante, iremos nos transformando. E torcendo para que essas transformações sejam sempre para melhor.

Felizmente, a Natureza, na mesma medida em que fez do existir um perpétuo fluir, nos muniu de capacidade para estabelecermos mensurações e parâmetros para nos situarmos ante o aparente caos da realidade que nos circunda. Sem isso, não seríamos diferentes de uma árvore, um urso, um inseto. Nem teríamos o insubstituível prazer de gritar e pular e dançar como doidos ao ver nossos nomes na lista dos classificados.

É, o calendário pode até ser um instrumento artificial, mas os nossos sentimentos, nossas emoções, nossos sonhos, nossos ideais são genuínos, nos irmanam como vibrações harmônicas à fantástica orquestra sinfônica do universo, que está sempre a executar alguma peça de Mozart.

 

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