Cuidado com os sinônimos: são perigosos!

Este artigo também poderia ser denominado Sinônimos podem enganá-lo! O aviso não serve apenas para provas de língua portuguesa, mas de todas as disciplinas que requerem resposta discursiva ou mesmo em provas objetivas. E serve tanto em termos de produção de textos como de leitura e interpretação. Por quê? Porque, rigorosamente falando, sinônimos não existem. Sim, sinônimos não existem. O que existe são palavras que em determinados contextos podem ser substituídas por outras, de sentido quase equivalente. Preste atenção no quase.

Os chamados sinônimos, por isso mesmo, podem nos colocar em belas armadilhas de expressão oral e escrita, se não cuidarmos desse quase.

Na escola, que usualmente toma por base a gramática tradicional, aprendemos que sinônimos são palavras que possuem o mesmo sentido. Certo? Errado. Falta o quase: quase o mesmo sentido, nunca exatamente o mesmo. Observe os exemplos abaixo:

 

Paula é uma bela moça.

Paula é uma bonita moça.

Paula é uma formosa moça.

Paula é uma linda moça.

Paula é uma encantadora moça.

Paula é uma maravilhosa moça.

Observando os adjetivos bela, bonita, formosa, linda, encantadora e maravilhosa nesse contexto, verificamos, sem precisar ler tratados de semântica, que há uma espécie de escala ascendente, em termos de força expressiva, de bela a maravilhosa:  bela, bonita, formosa, linda, encantadora, maravilhosa. Dependendo do texto que estejamos criando, podemos escolher, dessa escala, o adjetivo que expressar adequadamente o que desejamos dizer no contexto, tanto em termos afetivos, quanto em termos de intensidade de sentido. E, em se tratando de leitura e interpretação, temos de tomar todo o cuidado, pois cada um desses adjetivos carrega diferenças que podem provocar alterações no significado global da frase ou do parágrafo. Usando agora um exemplo mais específico, você poderá melhor notar as diferenças. Observe a frase abaixo e verifique qual dos “sinônimos” de belo poderia substituí-lo sem prejudicar o significado da frase:

 

Maurício tem uma bela inteligência.

 

Complicado, não é? Melhor deixar como está.

Observe agora estes substantivos: casa, lar, residência, domicílio. Qualquer manual escolar apontará que são sinônimos. Você, porém, está em condições de notar as diferenças. Quando alguém diz “minha casa” não está necessariamente se referindo a sua “residência”. Pode ser uma casa que esse alguém possui, sem nela morar. Por outro lado, se alguém diz “minha residência”, tudo muda de figura, pois está realmente significando o lugar (a casa) em que mora, em que reside. Este sentido de residência está muito próximo da acepção de domicílio, embora esta palavra se empregue usualmente no discurso jurídico e comercial. Em alguns casos, talvez até se possa usar os vocábulos casa e residência em lugar de domicílio, mas não lar, cujo viés semântico puxa mais para o lado sentimental, afetivo. O mesmo cuidado se deve ter com outros vocábulos dessa mesma série sinonímica, não apontados acima: morada, moradia, habitação.

Compreendeu agora? As palavras que consideramos sinônimos não têm o mesmo sentido, mas, pela proximidade semântica, podem substituir-se em determinados contextos sem grande alteração do significado global da frase. Há circunstâncias, todavia, em que essa troca pode causar grande alteração, o que representa problemas tanto em termos de produção, quanto de interpretação de textos.

Em conclusão: lidar com palavras cujo significado é quase igual torna-se sempre muito perigoso. Por isso, use sempre um bom dicionário de sinônimos tanto ao ler como ao escrever, e jamais deixe passar em branco uma dúvida. Com o tempo, você refinará sua capacidade de escolha e, de certo modo, sua malícia para optar pela palavra mais adequada.

E não vale pensar que você só tem de tomar esses cuidados para o vestibular. Vivemos numa civilização em que a produção e a leitura de textos faz parte de todas as profissões e nem mesmo a internet alterou esse fato fundamental. Neste horizonte, um texto mal escrito, com palavras que “brigam” com os contextos em que são inseridas, pode representar não apenas a perda de uma vaga em um concurso, mas até a perda de um negócio ou de um cargo na vida profissional. Vale a pena preocupar-se com a expressão clara e objetiva. E hoje em dia, quando você encontra qualquer tipo de dicionário on line, não vale mais aquela desculpa de que um “maldito” sinônimo destruiu a sua redação. As palavras não erram; nós erramos, quando não as conhecemos muito bem.

 

Deixe um comentário