Lendas urbanas, lendas universitárias

Em todos os tempos, as cidades do mundo inteiro acumularam lendas, muitas das quais de base real, outras tantas nascidas da fértil imaginação de pessoas que nasceram com o dom de inventar histórias. O progresso que o mundo foi experimentando, especialmente ao longo dos últimos 500 anos, parecia destinado, entre outras coisas, a eliminar de vez no futuro superstições, crendices e lendas. Não foi bem isso o que aconteceu; o homem continuou com suas visões e suas lendas, e nem mesmo a internet, nascida da fantástica tecnologia da informação e da comunicação atual, foi capaz de banir os relatos imaginários e fazer o mundo ingressar num plano definitivamente medido, ponderado, lógico, regido pelo princípio da causalidade que governa as ciências.

Na verdade, aconteceu justamente o oposto ao esperado: a internet incrementou intensamente certos hábitos que antes estavam limitados pela comunicação meramente oral, folclórica. É o caso das anedotas e piadas, que nunca tiveram tanto campo e tanto destaque como na rede, e também das lendas urbanas, cujo grande desenvolvimento na rede fez surgirem inclusive subgêneros. A internet tem funcionado, assim, para resgatar as numerosas lendas urbanas antigas, como também para criar novas, cujos temas radicam no próprio universo científico, tecnológico, cibernético, informático, digital.

Quem nunca ouviu falar na Loira Fantasma, na Loira da Banheira, no Capa Preta, só para falar em lendas antigas resgatadas pela rede? E quem nunca leu em anexos a emails enviados por colegas lendas típicas de nossa época, como as dos venenos em certos tipos de produtos, as dos transgênicos que nos tornam monstros, as previsões dos Maias, a captura de etês no Brasil e seu envio aos Estados Unidos, etc., etc. Os homens, realmente, não parecem haver perdido sua capacidade de imaginar e fantasiar, apesar de toda a tecnologia.

Até com relação ao ensino nas universidades se espalham lendas que correm pela rede como verídicas, acontecidas neste ou naquele câmpus desta ou daquela universidade brasileira ou estrangeira. E muitas são interessantíssimas, embora nem todas possam ser publicadas num Blogue como este, devido ao conteúdo, digamos, desaconselhável a maiores de trinta anos. É típica a história, que talvez tenha origem na realidade, dos quatro alunos que, faltando a uma prova no curso universitário para não perderem uma festa, justificaram-se ao professor dizendo que estavam vindo para a universidade naquele dia, quando um pneu estourou e não puderam consertá-lo em tempo. O mestre fingiu aceitar e, no mesmo momento, levou os quatro para uma sala vazia para fazer a prova. Colocou cada aluno em um canto oposto da sala e disse que faria duas perguntas, uma com o valor de 0,5, outra de 9,5. A primeira foi sobre o valor aproximado do pi; a segunda, sobre qual dos pneus havia furado. A discrepância das respostas dadas pelos quatro à segunda pergunta revelou a mentira e os alunos receberam 0,5. Esta lenda circula com diferentes variantes.

E, já que estamos focalizando as lendas universitárias, não custa observar que muitas delas geram, nos candidatos a vestibulares e calouros, expectativas que não condizem muito bem com a realidade que viverão nos câmpus. Uma delas é a de que tudo no curso será uma maravilha, viver-se-á num mundo de festas e diversões e o aprendizado ocorrerá misteriosamente no meio de toda essa folgança. É bom dizer, para evitar essa frustração, que os anos do curso universitário serão maravilhosos, sim, mas não evitarão o grande esforço de estudar, fazer trabalhos, prestar provas dificílimas que sempre se destinam a exigir o máximo desempenho.

Outra falsa expectativa é a de que, uma vez formados, o emprego estará garantido, e emprego bom, com altos salários. Nada disso. Não importa que curso seja feito, a vida fora da universidade, com o diploma embaixo do braço, começa realmente do zero e é a competência adquirida pelo esforço nos bancos acadêmicos que funcionará como elemento de ascensão profissional.

Uma terceira expectativa, mais falsa ainda, é a de que alunos menos aplicados terão mais chances de vencer na vida profissional do que os mais aplicados, porque são mais espertos. Nada disso. Alunos que não foram muito esforçados nos cursos dificilmente se tornarão, da noite para o dia, profissionais de grande sucesso: a esperteza sem competência nem sempre dá certo no mundo profissional. Além disso, alunos dedicados na universidade sempre foram dedicados desde os primeiros anos do ensino e sempre deram certo em virtude dessa aplicação. Não há como não darem certo também na vida profissional, embora venham a enfrentar as dificuldades que todos têm de enfrentar.

A lista de expectativas é enorme. Vale colocar ainda uma das mais interessantes: para muitos alunos,  o curso que farão na universidade terá também o melhor, o mais perfeito currículo. Expectativa falsa. Os currículos dos cursos são, por sua própria natureza, instáveis, servem para o presente imediato, mas podem ser alterados no momento em que a universidade julgar necessário. Isso é mais que natural: o mundo progride em todos os campos, vertiginosamente, forçando mudanças no ensino de muitas profissões. Os próprios estudantes, muitas vezes, durante o curso, detectam essas lacunas e conseguem supri-las frequentando disciplinas de outros cursos, como foi o caso, no início dos anos noventa, em que os estudantes detectaram com mais rapidez a necessidade, quando formados, de saber lidar com computadores e determinados softwares. Seus professores levaram um pouco mais de tempo para perceber.

É isso aí. Curta as lendas urbanas e as lendas universitárias; não as leve, porém, muito a sério. Lendas são lendas, realidade é realidade. Sonhar e fantasiar fazem parte da vida, mas nossos pés têm de estar sempre no chão.

 

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