Pôr, compor, propor, etc.: uma família “da pesada”

Depois dos alertas dados pelo Blogue sobre as armadilhas de “ver” e sua turma, bem como as sutilezas de “vir” e seu bando, verbos todos capazes de fazer você escrever incongruências, vamos examinar uma família “da pesada”, cujo patriarca, o verbo pôr, é o primeiro a iludir o usuário da língua, falante ou escritor.

No jogo de basquete do colégio, um garoto diz a outro:

 

Se eu pôr você no meu time, vai jogar tudo o que sabe?

 

Que história é essa, meu amigo? Não é “se eu pôr”, é “se eu puser”. Você pede que seu colega jogue tudo o que sabe, mas você não sabe nem pedir com a forma verbal adequada? Então fale direito, se quer ser respeitado e obedecido:

 

Se eu puser você no meu time, vai jogar tudo o que sabe?

 

Imagine você colocar o “se eu pôr” numa redação de vestibular? Vai achar que é um errinho de nada e que os corretores devem perdoá-lo? Não devem. Você passou por nove anos de ensino fundamental, três de ensino médio e talvez alguns mais de curso pré-vestibular, não passou? E seus professores sempre corrigindo o “se eu pôr” por “se eu puser”, não é verdade? E não fez questão de aprender, de assimilar e automatizar o emprego correto? A fase de perdão acabou, em nenhum vestibular ou concurso público os corretores vão deixar passar em branco, e você vai se queixar de que deixou de ser aprovado “por um quase nada”. Na verdade, não foi bem um quase nada, foi por um “pôr” indevidamente empregado.

O parágrafo anterior foi escrito para alertar, mesmo. Sabe por quê? Porque a família de pôr é “da pesada” em todos os sentidos, tanto em número de membros, quanto em capacidade de fazê-lo equivocar-se. Veja quantos: antepor, apor, compor, contrapor, decompor, depor, descompor, dispor, expor, impor, indispor, interpor, justapor, opor, pôr, pospor, predispor, prepor, pressupor, propor, recompor, repor, sobrepor, soto-pôr, superpor, supor, transpor. São quase todos verbos conhecidos e correntes. Você costuma usar frequentemente pelo menos os seguintes: pôr, antepor, compor, contrapor, decompor, depor, dispor, expor, impor, indispor, interpor, opor, predispor, pressupor, propor, repor, supor, transpor. E em cada um deles as armadilhas se renovam e você pode tropeçar num

 

Se eu impor minha vontade, ficarei feliz.

Errado, ficará infeliz, pois deveria ter dito: Se eu impuser minha vontade, ficarei feliz. Nesse caso, todos ficaremos felizes, e mais ainda se você aprender com esse exemplo e passar a usar os outros membros da família como devem ser usados:

 

Se eu compusesse canções, seria feliz.

Se eu decompuser este número em fatores…

Se o funcionário depusesse, o chefe estaria em maus lençóis.

Se o professor de Geografia expusesse tão bem a matéria quanto o de História, eu entenderia melhor.

Se eu me opuser à mudança, o gerente não poderá levá-la a efeito.

Quando eu propuser a alteração do regulamento, ninguém vai aceitar.

Se o funcionário repusesse o material, não teria sido demitido.

Quando eu transpuser o último obstáculo, meu sonho estará realizado.

Leia e releia estes exemplos, para fixar. Mas não fique apenas neles. Primeiro, dê uma olhada na conjugação completa do verbo pôr, que você encontra em qualquer dicionário eletrônico, em sua gramática, em apostilas e na internet. Verifique, sobretudo, como se realizam o pretérito imperfeito e o futuro do subjuntivo desse verbo. Depois, experimente conjugar os outros verbos da família. Além disso, se quiser aprender mesmo cem por cento, procure a farta exemplificação fornecida por numerosos sites especializados em língua portuguesa. Com isso, você não será nunca mais iludido por nenhum membro dessa família perigosa. E neutralizará o perigo de perder a classificação por um quase nada.

 

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