Palavras que consolam (ou incomodam)

Acompanhar a saída de candidatos de exames vestibulares é algo que nos faz sentir muita emoção, por ver todos aqueles jovens com sorrisos e olhares iluminados pelos seus sonhos. Nessa leitura da realidade, muitas vezes ouvimos desabafos, manifestações de preocupação, queixas sobre a dificuldade das provas, em frases como

 

A prova foi muito difícil.

Havia muitas “pegadinhas” nas questões.

Detesto ser posto à prova como um autômato.

Estou tranquilo, fiz tudo o que era possível.

Acho que podia ter estudado um pouco mais.

 

Declarações como estas são perfeitamente naturais, representando a fase de descontração e relaxamento após a realização da prova. Todavia, é possível extrair algumas lições de todas elas, tentando interpretar sua motivação interna. A questão da dificuldade da prova, por exemplo, é bastante relativa: muitos candidatos saem afirmando que as questões foram fáceis e não tiveram dificuldade em compreender e resolver; outros reclamam da dificuldade de algumas ou da maioria das questões. Quem estaria com a razão? Ninguém: a maior ou menor dificuldade da prova pode não ser da prova, mas do maior ou menor preparo dos candidatos para entender as perguntas.

A questão das chamadas pegadinhas também é bastante relativa e subjetiva. De modo geral, pode-se dizer que os exames vestibulares das grandes universidades brasileiras têm como uma das metas principais evitar qualquer tipo de questão que envolva pegadinhas, isso porque não apresentam tais questões nenhum poder objetivo de avaliação. As questões podem ser mais fáceis ou mais difíceis, mas o que está sempre envolvido é o raciocínio, a lógica, a verificação da capacidade de interpretação e resolução do candidato.

É óbvio, também, que, como se traduz da terceira frase, não nos sentimos muito confortáveis com todas as provas de exames vestibulares, pois sabemos que estamos passando por um processo de seleção que parece mecânico, automático, como se fôssemos robôs a passar por uma avaliação de desempenhos. Vale lembrar que essa impressão não se limita aos exames vestibulares: desde pequenos passamos por avaliações e avaliações nos ensinos fundamental e médio, e ao longo de nossa vida estaremos sofrendo processos semelhantes, quer em termos de estudo e formação, quer em termos de trabalho profissional. Ninguém consegue um emprego de graça, tem de apresentar currículo, tem de mostrar desempenho e, muitas vezes, ser colocado em situações em que possa comprovar o que informa seu currículo. Nossa vida, de certo modo, é um constante processo de avaliação, do nascimento à morte.

As duas últimas frases-desabafo são interessantes, pelo seu caráter opositivo: na penúltima, um candidato afirma que fez tudo o que era possível para um bom desempenho nos exames; na última, outro candidato confessa que, talvez, poderia ter feito um pouco mais. Será mesmo que o primeiro fez tudo e o segundo deixou algo por fazer? ou, na verdade, trata-se de atitudes distintas de autocrítica, ditadas pelo temperamento de cada um. Também essas atitudes não são exclusivas de vestibulares: representam modos distintos de encarar a realidade e as tarefas que a vida nos vai oferecendo. Por isso, pode-se dizer que ambos os estudantes estão certos no ponto de vista que assumem, mas podem estar errados em sua própria autoavaliação: o que afirma ter feito tudo talvez pudesse ter feito um pouco mais; e o que confessa que poderia ter feito um pouco mais talvez tenha feito tudo o que, para ele, era possível.

No seu conjunto, o artigo ora postado quer dizer que vale a pena observar e interpretar o que outras pessoas dizem em situações semelhantes, porque podemos extrair disso ensinamentos preciosos. Assim, palavras que consolam podem eventualmente se tornar palavras que incomodam, mas também revelar-se palavras que nos alertam, ensinam e preparam para a vida. Valeu!

 

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