Cuidado com o quê? Com os quês!

No artigo postado anteriormente, foi abordada a questão do uso exagerado do conectivo mas, que pode perturbar em muito respostas a questões discursivas, como também a redação. A língua possui mecanismos de repetição, úteis para tornar mais clara a mensagem; todavia, o exagero das repetições funciona no sentido contrário: em vez de esclarecer, obscurece a expressão.

Um dos casos típicos, na língua portuguesa, é da palavra que. Algumas vezes, quando relemos o rascunho de um texto, ficamos preocupados por tê-la empregado com certa insistência. Se o discurso fica um tanto esquisito para o escritor, imagine-se para o leitor:

 

O presidente declarou que não pretende dar respostas aos questionamentos de que está sendo alvo, já que a oposição não esclarece que pretende também contribuir para o aprimoramento do projeto que foi apresentado pelo líder do governo, que tem como objetivo que se evite a carência de verbas para a saúde, o que vem ocorrendo nos últimos anos e que exige  muitos sacrifícios da população.

 

É “que” demais, não é? Os gramáticos tradicionais consideram esse emprego exagerado um vício de discurso, denominado queísmo. Na verdade, não somos culpados disso, nem se trata propriamente de vício, mas de um fator da própria estrutura gramatical da língua: não há uma só palavra “que”, mas diversas, pertencentes a classes diferentes, como, por exemplo, pronome relativo (Ela comprou o livro que eu pedi); conjunção subordinativa integrante (O presidente declarou que não vai dar respostas…); pronome interrogativo (Que é isso?); substantivo (Retire esse quê da frase); conjunção subordinativa consecutiva (Gritou tanto, que todos foram embora.), etc. etc.

Por isso, não é de espantar que volta e meia os rascunhos de nossas frases fiquem como a exemplificada acima. Como resolver o problema? Pedindo socorro às gramáticas e às listas intermináveis de “funções do que”? Não necessariamente. Uma leitura atenta e algumas alterações de estrutura sintática podem resolver o problema. Observe que o exemplo apresentado se realiza num período gramatical só, sendo essa uma das causas da proliferação da palavrinha. Podemos eliminar boa parte dos quês, fazendo um desmembramento em períodos menores:

 

O presidente declarou não pretender dar respostas aos questionamentos de que está sendo alvo. Para ele, a oposição não esclarece se pretende também contribuir para o aprimoramento do projeto apresentado pelo líder do governo, cujo objetivo é evitar a carência de verbas para a saúde, como vem ocorrendo nos últimos anos, com  muitos sacrifícios da população.

 

Ficou bem melhor com a eliminação de oito das nove ocorrências, não ficou? E o desmembramento em dois períodos aumentou a clareza e a eficiência da mensagem. Você nem precisou saber a que classes gramaticais pertencem os quês eliminados.

Não se deixe, portanto, assustar por termos como queísmo e outros, apresentados como “vícios” de discursos. Escrever um texto, na verdade, é como fazer qualquer objeto de artesanato. O primeiro resultado apresenta muitas rebarbas, que devem ser eliminadas com técnicas de acabamento. Um artesão exigente faz diversos polimentos no objeto, até ficar satisfeito com o resultado. Um escritor exigente vai reescrevendo o texto até considerar que atingiu o ponto esperado.

Certo teórico escreveu em um livro recente que escrever é escrever e escrever e escrever e escrever… Certíssimo está ele, não está?

 

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