Os chavões: bonitinhos, mas…

Quando a exigência da prova de redação voltou aos exames vestibulares, em finais da década de 70, no século passado, ocorreu um verdadeiro pavor entre os candidatos, pois nos anos anteriores exigiam-se apenas provas objetivas, com testes de múltipla escolha. Na mesma medida dos receios dos estudantes, surgiram por todos os lados métodos milagrosos para ensinar a escrever em poucas lições. Obviamente, esses métodos não ensinavam muita coisa. Produziram, porém, grande número de sugestões para fazer com que uma redação adquirisse qualidade e recebesse boa nota. Algumas dessas sugestões eram verdadeiramente ridículas: escreva com períodos curtos, que assim você corre menos risco de errar na sintaxe; questione o tema apresentado, que os corretores vão adorar sua rebeldia; use muitas citações de autores famosos, para demonstrar que é um estudante que lê muito; não manifeste diretamente sua opinião, mas procure “enrolar” o máximo que puder. Entre estas, talvez a mais hilária e, curiosamente, a que teve no princípio mais adeptos, foi a que sugeria empregar chavões. Nesta linha de aconselhamento, dizia-se aos estudantes que pegava muito bem iniciar suas redações com expressões como desde o início dos tempos, desde a mais remota antiguidade, desde os tempos mais remotos, nos primórdios da história, na infância da humanidade, etc. Afirmava-se que, com tais expressões, a redação começaria parecendo mais culta, mais erudita. Nem sempre, porém,  o que o candidato afirmava sobre o início dos tempos ou sobre os primórdios da história tinha realmente ocorrido, o que gerava inconsistências e incoerências na redação.

Atualmente, os métodos de ensino estão bastante desenvolvidos e, se o estudante os seguir com determinação, conseguirá aperfeiçoar seu discurso escrito. Ainda há, porém, quem afirme que o emprego de expressões bastante usadas pode atribuir maior qualidade às redações. Não acredite nisso. O uso de fórmulas como as exemplificadas acima apenas serve para prejudicar sua redação, fazendo o leitor imaginar que você a escreveu à base de colagens retiradas de um velho e ultrapassado texto.

Você pode ter uma ideia do perigo do uso de chavões até mesmo pelos diferentes nomes com que os estudiosos os apresentam: chavões, clichês, chapas, lugares-comuns, estereótipos, expressões estereotipadas. Todos estes nomes apontam a um mesmo fenômeno: o emprego de expressões muito desgastadas pelo uso, que tornam seu discurso mais opaco e lhe retiram a espontaneidade.

Você pode julgar que os chavões não são tão perigosos assim, já que aparecem nos jornais, nas revistas, na mídia em geral, na internet: Se tanta gente usa, por que não usar? Tudo depende dos objetivos que tenha ao escrever. Se tem de escrever um texto em que a perda de autenticidade com o uso de chavões não é tão importante assim, vai usar, é claro. Mas se tem em mente que quer fazer tudo o que for necessário para obter a melhor nota possível numa redação de vestibular, então é bom ir detectando os chavões que já usa e tratar de eliminá-los, colocando em seu lugar expressões mais simples, mais diretas, menos desgastadas. Esse tipo de exercício pode até desenvolver sua criatividade.

A esse respeito, é interessante notar que o que hoje é considerado chavão foi, quando um escritor o empregou pela primeira vez, uma expressão espontânea, criativa, digna de louvor. Por ter estas virtudes, porém, foi sendo retomada por outros escritores, até que se tornou comum demais (lugar-comum, clichê). Por causa daquelas virtudes originais, porém, um estudante, quando lê um chavão pela primeira vez, acha fantástico e resolve empregá-lo. E fica aborrecido quando o professor adverte: Rapaz, esse “chorando lágrimas amargas” e esse “herança maldita” que você usou em sua redação são expressões estereotipadas, chapas,  chavões. Não vale a pena empregá-las. Troque por expressões mais simples, mais espontâneas, mais autênticas!

Está certíssimo o professor, e mais certo ainda quando aproveita a oportunidade para apresentar uma relação de chavões: isso é meio caminho andado, trata-se de uma mentira deslavada, aquela menina está na primavera da vida; os estudantes de hoje são os homens de amanhã; aquele político é uma verdadeira raposa; meu time fez um a zero e depois ficou administrando o resultado; o rapaz tratava a namorada com requintes de crueldade; pode tirar o cavalo da chuva, que eu não vou fazer o que quer; o lutador italiano levou uma saraivada de golpes do inglês; eu vou fazer das tripas coração, para passar nos vestibulares; meu amigo entregou de mão beijada a empresa aos sócios; agora que fiz uma prova ruim, vou ter de correr atrás do prejuízo; o prefeito da cidade está pensando em construir obras faraônicas; de hoje em diante serei um homem frio e calculista, etc., etc.

Não parecem expressões bonitinhas? Parecem. E podemos até fazer um trocadilho com outro chavão, dizendo: bonitinhas, sim, mas ordinárias. Não enfeitam o discurso; ao contrário, retiram-lhe a originalidade, levam o leitor a pensar que o texto foi copiado.

Pense nisso. Faça o que aquele professor sugeriu: Troque os chavões por expressões  simples, espontâneas, autênticas! A autenticidade é um valor constante em todas as atividades humanas.

 

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