Cuidado com as redações-camicase!

A palavra camicase é originária da língua japonesa, em que se referia a um pequeno avião utilizado para ataques pela força aérea nipônica durante a Segunda Guerra Mundial. Em certo período da guerra, esses ataques, feitos diretamente ao alvo, implicavam o sacrifício do próprio piloto. De tanto se fazer referência a esse fato com o uso da palavra camicase, esta acabou se incorporando ao vocabulário português, com mais de uma acepção: pessoa que se arrisca muito, ação que envolve risco quase certo de fracasso ou de autodestruição física, como também profissional e moral. Um exemplo: O discurso do deputado X foi um ato camicase, comentou certo jornalista, querendo dizer com isso que o político, com seu discurso radical, poderia perder o mandato.

Certo professor denominou redações-camicase os textos escritos por seus alunos que contrariavam o que havia estipulado como exercício. Pedia o gênero dissertativo, e um aluno escrevia em gênero narrativo: Redação-camicase, com direito a zero! Minhas congratulações! dizia o professor. Pedia texto em prosa, e outro apresentava um poema: Redação-camicase, com direito a zero! ralhava o mestre. Pedia texto em norma-padrão, e alguns alunos escreviam em discurso coloquial: Redação-camicase, com direito a zero! insistia. Proibia desenhos como parte ou todo da redação, mas alguns alunos apresentavam apenas sequências de figuras, que até desenvolviam visualmente o tema: Desobediência-camicase, com direito a zero! sentenciava o professor e completava: Eu não pedi história em quadrinhos, pedi texto em língua portuguesa!

Este é o problema que focalizamos hoje: as redações-camicase. Por que alguns candidatos, contrariando tudo o que está expresso no manual e na própria prova, escrevem redações que desobedecem aos critérios estipulados? Para algumas pessoas, esses candidatos sabem que não conseguirão ser aprovados e, na redação, resolvem partir para a brincadeira. Esta explicação pode corresponder à verdade, em alguns casos, mas é lógico supor que em muitos outros não se trata de atitude de derrota antecipada. Pode haver motivos diferentes.

Ao longo dos ensinos fundamental e médio, a prática de redação sempre ocupa papel importante. Somos conduzidos, desde os primeiros anos, a escrever bilhetes, cartas, descrições, narrações, dissertações, embora nem sempre nos pareça claro o objetivo de dominar os diferentes gêneros textuais que nos são ensinados. Somente com o passar do tempo descobrimos que o falar e o escrever são essenciais, qualquer que seja o destino que tomemos ou o tipo de trabalho que venhamos a exercer. Em muitas profissões, quem sabe falar com desenvoltura e redigir com clareza, com pleno domínio da norma-padrão, começa dez passos à frente.

É exatamente neste sentido, pela importância na vida prática, que a redação é ensinada nas escolas e cobrada nos vestibulares, já que ler e redigir serão habilidades exigidas ao máximo nos bancos acadêmicos, qualquer que seja o curso escolhido.

Assim refletindo, encontramos uma das explicações para o surgimento de redações-camicase: alguns estudantes interpretam mal o que dizem os professores ao longo dos ensinos fundamental e médio, entendem a prática de redação como produção de textos engraçadinhos, cheios de trocadilhos e efeitos hilários: acreditam esses alunos que a correção gramatical e a observância da norma-padrão podem ser deixadas de lado, desde que o estudante exerça ao máximo sua criatividade. E se enganam redondamente.

Por quê? Porque se baseiam em dois falsos conceitos, de redação e de criatividade. Quando se escreve um texto de natureza cômica, fazer trocadilhos e gracinhas com as palavras se justifica em função da própria natureza do texto, e quanto mais surpreendentes os jogos de palavras, maior a criatividade; a norma-padrão pode ser trocada pelo coloquial, os termos por vezes podem ser chulos, já que o objetivo principal é causar o riso. Perfeito. Quando se escreve, porém, um texto dissertativo, em que é solicitada manifestação de opinião, o panorama é totalmente outro: temos de usar a norma-padrão, temos de encontrar argumentos para defender nossas ideias, temos de encarar com seriedade o tema proposto. Podemos, neste caso, ser também criativos? Podemos, mas no modo de articular os argumentos e nos vieses originais que escolhemos para defesa de nosso ponto de vista.

É preciso ter em mente sempre que o conceito de criatividade se revela de forma diferente nos diferentes gêneros de texto: um texto jornalístico pode ser criativo, sem deixar de ser jornalístico; um texto dissertativo pode ser criativo, sem deixar de ser dissertativo; um texto narrativo pode ser criativo, sem deixar de ser narrativo. Em cada caso, o que impera é a justa medida dos recursos expressivos utilizados, de acordo com o gênero do texto.

É muito provável seja esta a principal causa das redações-camicase: o equivocado entendimento dos gêneros de textos e do papel da criatividade. Medite bem sobre a questão e, no caso dos vestibulares da Unesp, nunca esqueça de que é sempre solicitada uma redação de gênero dissertativo, obediente à norma-padrão, em que você deve defender seu ponto de vista sobre o tema proposto.

Pense nisso e mergulhe fundo, mas para ser aprovado!

 

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