A Lei de Murphy e a leitura de questões

A Lei de Murphy já foi abordada neste Blogue, a propósito dos dias dos exames, em que uma distração ou um atraso podem levar o candidato a perder o horário de entrada.

Embora esta lei, que o blogueiro faz questão de escrever com inicial maiúscula, seja muitas vezes tomada como pura anedota, brincadeira, piadinha, na verdade é uma das observações mais inteligentes a respeito dos eventos que envolvem toda a vida dos seres humanos e provavelmente até dos não humanos que vivem em planetas distantes. Se alguma coisa pode dar errado, dará, reza o enunciado fundamental de Murphy, que acaba conduzindo naturalmente a outro: Se alguma coisa pode dar certo, dará errado. Brincadeira? De jeito nenhum! É o resultado de uma refinada observação da realidade.  Você até poderá dizer que esse enunciado não alcança todos os acontecimentos, já que às vezes o que pode dar errado acaba dando certo. Corretíssima a sua observação, mas é também o caso de perguntar: Você está disposto, num momento importantíssimo de sua vida, a desafiar a possibilidade de erro?

Qualquer que seja a sua resposta à questão acima, você terá percebido a filosofia da Lei de Murphy, que, trocando em miúdos, é a filosofia do alerta: em qualquer evento, por mais promissor que pareça, é preciso estar sempre alerta para a possibilidade de fracasso. Estou preparadíssimo! Não vou fracassar! são frases otimistas, positivas; vale a pena pensar e agir de acordo com elas? Sim, mas a Lei de Murphy dá uma chegadinha e acrescenta: pelo menos como método, meu caro,1 aceite que, apesar de todo esse preparo, alguma coisa pode dar errado! Recue um passo para ver melhor, antes de agir. Por quê? Porque na sua própria experiência de vida já ocorreu esse fato algumas vezes: algo podia dar errado e deu mesmo! Ou, pior ainda: algo só podia dar certo, e deu errado! E se deu errado foi porque esse “só podia dar certo” tinha chances de falhar e você não notou, talvez por excessivo otimismo. Moral da história: esse negócio de que um evento tem todas as condições de dar certo não passa de mera ilusão; em todos os empreendimentos humanos, por mais cuidadosos que sejam, a possibilidade de erro é uma constante. Segunda moral da história: otimismo é bom, mas ponha uns cinco por cento de pessimismo nele, para compensar.

Todo este comentário bem-humorado é apenas introdução ao tema de hoje deste Blogue: a leitura do enunciado da questão objetiva, que tecnicamente é denominado raiz, e a leitura das alternativas, que disputam o cargo de resposta correta. Na questão objetiva, a resposta está sempre ali, objetivamente mesmo, é uma das cinco alternativas, é a alternativa que completa logicamente o que estabelece a raiz. Mas qual? Se você estudou muito e conhece todo o conteúdo da área, por certo imagina que não terá grandes dificuldades em encontrar a resposta correta. Não imagine. Pense em Murphy e recite, mentalmente, a lei da não-reciprocidade, que Millôr Fernandes enuncia com graça em seu livro sobre a Lei de Murphy: Tudo o que é certo acaba dando errado; o contrário só de raro em raro. Então releia a a raiz da questão minuciosamente e confira se a alternativa escolhida combina exatamente com o enunciado. Combina? Combina cem por cento? Ótimo! Você driblou a possibilidade de fracasso.

A mesma atitude vale para o caso da questão de cuja resposta você não tem grande certeza. Recue, releia a raiz, questione a alternativa que considera mais provável e suponha que ela tem um defeito não detectado na primeira leitura. É muito possível que, com essa releitura desconfiada, você se depare com um detalhe não observado antes e descubra a resposta correta.

Nesse caso, que é que você fez, de fato? Fez o que as questões objetivas solicitavam: foi objetivo, como elas. Com Murphy dando uma mãozinha, é claro! E se continuar objetivo em todas as questões, por certo terá um resultado excelente. E não terá o desprazer de, ao lembrar da prova em casa, resmugar, aborrecido: Ora bolas! Cometi um erro bobo na leitura daquela questão! Onde é que eu estava com a cabeça?

A Lei de Murphy, para dizer a verdade, ensina exatamente isso: onde deve estar a nossa cabeça.

 

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