Palavras perigosas: emigrante, imigrante

Você já leu outros artigos postados neste Blogue sobre palavras que podem ser consideradas perigosas no uso diário de jornalistas e escritores em geral, entre os quais você está necessariamente enquadrado, já que a tarefa de escrever redação em vestibular é de verdadeiro escritor. Pois atente agora para outro par bastante insidioso, que pode criar contextos realmente problemáticos em sua redação ou na redação de suas respostas a questões discursivas, quando mal empregado: emigrante e imigrante. Esse mau emprego ocorre com certa frequência.

O perigo, como em outros numerosos casos, surge do fato de emigrante e imigrante serem palavras parônimas, vale dizer, quase idênticas pela pronúncia e pela escrita, de modo que trocar uma pela outra, quando não dominamos os respectivos significados, é muito comum. Você por certo já ouviu algum desastrado falar (ou até mesmo escrever) frases como esta: Os emigrantes japoneses trouxeram grande contribuição ao Brasil. Vale comentar que a troca de i por e no início, meio ou fim de vocábulos não é rara no português coloquial, e em certos casos não provoca qualquer problema no plano da significação, como, por exemplo, pronunciar menino ou minino, quase ou quasi, estava ou istava. São variações aceitáveis no discurso oral. Já no caso dos pares de palavras emigrar/imigrar, emigração/imigração e emigrante/imigrante tomar e- por i- ou i- por e- é fatal para o conteúdo, quer na fala, quer na escrita.

Para bem entender a questão e não correr nenhum risco de equívoco futuro, observe que migrar significa mudar de uma região para outra, de um país para outro. Migrante, portanto, é quem migra, ou seja, quem faz migração. Você estudou em História que já no paleolítico sucessivos distúrbios climáticos causaram migrações de populações do Oriente para o Ocidente, e que a própria formação dos povos da Europa resultou de grandes migrações. Hoje em dia, fala-se até, figuradamente, em migrações de cérebros, isto é, cientistas de países ainda não desenvolvidos que vão trabalhar e morar em países desenvolvidos, como os Estados Unidos. Os países menos desenvolvidos consideram essa migração de cérebros uma grande perda.

Até este ponto, tudo bem, nenhum problema de sentido. A origem da encrenca está no latim, em que se formaram os verbos emigrar e imigrar (respectivamente, no latim, emigrare e immigrare). E o português trouxe emprestados os dois verbos com os sentidos: emigrar é deixar um país ou região para viver em outro ou outra, e imigrar é entrar num país e nele fixar-se. Neste sentido, populações de japoneses, alemães, poloneses, italianos, etc., etc., desde finais do século XIX e durante o século XX emigraram de seus países. Do ponto de vista da origem, eram emigrantes. Do ponto de vista do país a que vieram, no caso, o Brasil, aquelas populações imigraram. Por isso, meu professor de português sempre dizia que era neto de imigrantes poloneses, isto é, seus avós eram poloneses que deixaram seu país de origem para viver definitivamente no Brasil.

Para eliminar de vez suas dúvidas, preste atenção neste fato: atualmente, o Brasil deixou de ser um país de imigração para se tornar também um  país de emigração. Como assim? Muitíssimos brasileiros deixam o país e passam a trabalhar e viver nos Estados Unidos e em muitos países da Europa e até mesmo da Ásia. São, portanto, para nós, emigrantes e, para os países em que ingressam, imigrantes.

Ficou bem claro agora? Então, muito cuidado para não resvalar na pronúncia do e- e do i-, quando falar, e não se equivocar na grafia, quando escrever. Afinal, talvez você também seja descendente de imigrantes. Ou não é?

 

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