Campus, campus ou câmpus? Como escrever?

Nosso leitor Gabriel, ao verificar que o Blogue adotou, no artigo sobre as repúblicas, a forma câmpus, comentou ao Blogueiro:

 

No terceiro parágrafo do artigo, você diz que: ‘Diferentemente das moradias estudantis, disponibilizadas por muitas universidades a estudantes cujas famílias têm dificuldades financeiras para mantê-los nas cidades onde se situam os câmpus’. O certo não seria ‘onde se situam os campi’? Não que eu saiba algo de latim, mas enfim, o plural de campus é campi.

 

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, Gabriel! No uso do idioma, nem sempre dois mais dois são quatro. A questão que você focalizou será comentada neste artigo, para que os próprios vestibulandos saibam de antemão como empregar o substantivo mencionado.

Algumas pessoas escrevem, como você, “o campus, os campí” sem usar itálico; outras utilizam o itálico:  “o campus, os campi”; outras escrevem, como neste Blogue, sem itálico e com acento, “o câmpus, os câmpus”. Afinal, com quem está a razão?

Antes de apontar quem tem razão, é preciso fazer algumas ressalvas. Primeira: na verdade, tal palavra não veio para o português diretamente do latim, mas indiretamente, por empréstimo da língua inglesa, que a tomou do latim. Segunda: o sentido em que a empregamos é o mesmo da língua inglesa — a área em que se situam as instalações de uma universidade.

Convém fazer uma terceira ressalva: com o passar do tempo, é normal que os empréstimos se aclimatem e, aos poucos, se tornem palavras do próprio idioma, quando então passam a ser grafados de acordo com nossas regras ortográficas. Diz-se, nesses casos, que o empréstimo se aportuguesou. “Dândi”, por exemplo, é uma palavra emprestada do inglês “dandy”, que se fixou no português, passando a ser escrita de acordo com nossas regras ortográficas: com ­–i no final e com acento circunflexo sobre a sílaba tônica. “Ônus” é uma palavra emprestada do latim que sofreu o mesmo processo;  portanto, sendo paroxítona terminada em ­–us, é marcada com acento gráfico.

Ora, em função dessas ressalvas, a questão fica bem equacionada: a palavra “campus”, cujo plural na língua latina era “campi”, foi introduzida no português com base no inglês para designar a área que compreende o terreno e os edifícios de uma universidade. Nessa primeira fase de uso, era grafada com tipo especial, geralmente o itálico, para caracterizar que se tratava de empréstimo, e não de vocábulo original do português: o campus, os campi. O caráter de empréstimo justificava ainda o fato de as duas formas, do síngular e do plural, não serem acentuadas.

Chegamos ao ponto: assim como “dandy” e “onus” passaram a ser “dândi” e “ônus”, também o vocábulo “campus” entrou em processo de incorporação ao léxico do português, em função do grande uso escrito e oral. É exatamente esse intenso uso que pode explicar as variações de grafia. Muitas pessoas sentem hoje a palavra “campus” como integrada à língua portuguesa e não marcam com itálico nos textos: campus. Outras pessoas, além de escrever sem itálico, colocam o acento circunflexo, para deixar claro que consideram a palavra já aportuguesada: “câmpus”.

Na forma do plural sempre residiu a complicação maior. No latim, ao singular “campus” correspondia o plural “campi”. No português não é assim: vocábulos como “ônus” e “bônus” não apresentam modificação no plural, sendo este verificado no contexto, com base no artigo ou adjetivos: o ônus, os ônus; o bônus, os bônus. Deste modo, quando um leitor encontra num texto “os campi” como plural de “o campus”, sente que alguma coisa não está bem encaixada, pois o padrão seria dizer:  o câmpus, os câmpus. Por isso, não é raro ouvir, mesmo  em discursos de universitários, a expressão “os campis”: os oradores que deixam escapar tal forma em seus discursos são traídos pela consciência de usuários da língua, que sentem a necessidade de um “s” para marcar o plural. Alguns ainda se retratam com um “digo, os campi”, mas outros nem se dão conta do cochilo.

Como resolver este emaranhado de usos e fornecer uma informação objetiva aos estudantes e escritores? A consulta aos dicionários não resolve a questão, pois ainda colocam a palavra como estrangeirismo. A grande esperança era a última edição do VOLP, Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras. Infelizmente, o VOLP nem sequer menciona a palavra “campus”. É o caso de dizer, como Drummond: “E agora, José?”

Quando futuras edições dos dicionários e do VOLP apresentarem a palavra como incorporada ao léxico do português, em virtude do intenso uso, teremos uma só solução: escrever “câmpus”, no singular, e “câmpus”, no plural. Enquanto isso não acontece, há duas escolhas possíveis:

 

Primeira: se o usuário quer mesmo caracterizar a palavra como empréstimo, tem de sinalizar com itálico ou outro tipo de destaque, para demonstrar consciência do que está fazendo: o campus, os campi.

Segunda: se o usuário, como faz o Blogueiro, quer caraterizar a palavra como já aportuguesada, deve escrever sem itálico e com acento circunflexo: o câmpus, os câmpus.

 

Os demais usos não se justificam. Devem ser evitados, como, por exemplo, escrever “o campus, os campus” sem acento gráfico, ou também “o campus, os campi” sem itálico, ou ainda o plural verdadeiramente hilário “os campis” e, pior ainda, “os câmpis”. Quem adota um desses usos incoerentes se candidata a procedentes críticas.

Afinal, você acaba de perceber que o monstro não é tão assustador assim. Se deseja ler mais a respeito, a Assessoria de Comunicacão e Imprensa da Unesp (ACI) apresenta um artigo da especialista Maria Helena de Moura Neves que você encontrará aqui. É um texto exemplar de informação e erudição sobre o assunto. Vale a pena ler.

 

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