Ler, para quê? Para o máximo

Os estudantes do ensino médio muitas vezes reclamam do número de leituras de textos literários que têm de fazer durante sua preparação para os exames. Alguns chegam a afirmar que consideram desnecessária “tanta literatura” para sua formação, julgando que se trate apenas de pura imposição da escola. Têm alguma razão ao dizer isso?

Na verdade, não. Não têm razão nenhuma. E o primeiro modo de demonstrar que estão enganados é lembrar que “leitura”  não é uma atividade exclusiva da disciplina de Língua Portuguesa. Ao contrário, uma parte substancial do percurso do estudante na escola, desde a mais tenra infância, é direcionada a prepará-lo para as atividades de leitura e de redação que ocuparão a maior parte de sua vida escolar até o último ano do curso universitário. Em certo sentido, podemos dizer que estudar é ler e escrever. A escola se faz com livros de todas as disciplinas. Os estudantes leem livros de Matemática, Geografia, História, Biologia, Artes, Língua Portuguesa, etc., etc.

Então, quando um estudante afirma que não gosta de leitura, não está querendo dizer que não gosta de ler os livros de todas as disciplinas, já que boa parte do ensino se baseia em livros. Está querendo afirmar, sim, que não gosta de ler livros de criação literária, tais como poesia, conto, romance. Alguns chegam a afirmar que poesia, conto, romance não acrescentam nada a suas vidas e, quando são obrigados a encarar as relações de livros que algumas universidades estabelecem para os vestibulares, preferem “ler” livros que resumem os livros de literatura. É uma curiosa contradição: o estudante declara que detesta “ler” e, para evitar a leitura, acaba também tendo de “ler” livros ou apostilas que explicam os livros que não quis “ler”. Uma antiga personagem cômica vivida por Jô Soares em programas de televisão, diria, ante esta contradição: Que tem? Loco?

Este é o momento de perguntar, navegando na contradição: o que tem a literatura que leva alguns estudantes a desprezarem sua leitura e encararem a leitura de um livro de resumo? A resposta é simples: os livros de literatura (poesia, conto, romance) têm sensibilidade, emoção, inteligência, imaginação, criatividade, estilo. Ler um livro de literatura é sempre um desafio à nossa sensibilidade, emoção, inteligência, imaginação, criatividade. É um desafio ao nosso modo de ver o mundo pelo confronto com outro modo de ver manifestado na obra. Entre outras virtudes dos textos literários ressalta o fato de que neles a língua portuguesa se revela em seu máximo requinte, em sua máxima possibilidade de organização e elaboração. Não seria exagerado dizer que literatura é a linguagem em maior estado de riqueza de forma e de conteúdo, é o discurso atingindo a excelência.

Por isso o texto literário é sempre um desafio à nossa capacidade de penetrá-lo, compreendê-lo e admirá-lo. O autor de um livro de interpretação e resumo tem como objetivo escrever um discurso clarinho, didatiquinho, mastigadinho. O autor de um texto literário não tem compromisso com a facilidade; seu compromisso é com a complexidade das emoções, dos sentimentos, das visões do mundo, de todas as possibilidades do ser e do existir. É atitude errada não aceitar esse desafio? Não, não é. É uma opção perfeitamente normal. Aceitar o desafio, porém, é algo enormemente enriquecedor. É passar por um aprendizado que não se obtém em escola nenhuma, em nenhuma universidade. O discurso literário é o discurso levado ao grau máximo da expressão linguística; ao lê-lo, nossa mente também é levada ao máximo de sua capacidade de compreensão e interpretação do discurso. Cada vez que terminamos de ler uma obra literária nos tornamos  mais sensíveis, mais criativos, mais imaginativos, mais capazes de compreender e expressar os sentimentos e emoções genuínos do ser humano. Isso é chato? Muito pelo contrário: a literatura é um elemento catalisador de tudo o que temos de bom em nosso intelecto e em nossa sensibilidade, é uma verdadeira dádiva que se nos oferece hoje nos livros, na internet e, logo mais, nos e-readers e tablets, que podem conter milhares de livros e revistas para leitura imediata, onde quer que esteja seu usuário.

Então, por que não ler? Leia. Desafie-se. Conduza sua inteligência, sua mente e sua linguagem ao máximo. Não é isso que você sempre sonhou para o seu futuro: o máximo?

 

 

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