Repúblicas: Um passo para a maturidade

O estudante Luiz, em email ao Blogue, lembra que não falamos ainda das repúblicas, tão importantes que são para os estudantes universitários. Não resta a menor dúvida. É uma boa lembrança esta.

Um passeio pelas enciclopédias online revela que o nascimento das repúblicas estudantis remonta à velha e boa Universidade de Coimbra, que formou os primeiros brasileiros no ensino superior. Não vem ao caso, porém, fazer história, mas apontar para a eficácia da realidade.

Diferentemente das moradias estudantis, disponibilizadas por muitas universidades a estudantes cujas famílias têm dificuldades financeiras para mantê-los nas cidades onde se situam os câmpus, as repúblicas são moradias particulares, em prédios muitas vezes construídos para ser alugados a estudantes ou, simplesmente, casas ou apartamentos comuns alugados por grupos de estudantes como moradia.

As repúblicas constituem, assim, em primeiro lugar, uma bela economia da parte de cada estudante, pois o aluguel de uma casa, por exemplo, pode ser dividido por seis ou oito ou mais moradores. Embora o aspecto econômico seja, de fato, relevante, o melhor das repúblicas está no que se aprende em termos de convivência, de relações entre jovens de diferentes famílias. Cada estudante não está mais sob o teto paterno, não tem a comida pronta e a roupa lavada que a mãe com tanto carinho providenciava. A vida agora passa a ser em comum com pessoas que, até ontem, eram estranhas, e vida em comum significa direitos e deveres em comum. Não dá mais para deixar roupas e objetos no chão, esperando que alguém recolha, nem usar a cozinha e abandonar panelas sujas, pratos e talheres, nem tampouco alimentar-se com o que outros colocaram para si mesmos na geladeira; sem falar no uso do banheiro, que agora é coletivo. E outras coisinhas mais.

Conviver, de repente, com estranhos, não é fácil. A diferença de personalidades muitas vezes se torna intransponível e chega o momento de alguém sair, para tentar um ambiente em que os temperamentos não colidam tanto com o seu. Sem falar nas dissensões grupais, em que três ou quatro, de um lado, e três ou quatro, de outro, não conseguem mais conviver em harmonia e ocorre uma cisão em duas repúblicas distintas. Tudo isso se torna, ao fim e ao cabo, altamente educativo e formador para os estudantes, que descobrem a arte, a ciência e a técnica de viver em grupo.

Quando, finalmente, tudo dá certo numa república, a vida em comum se torna muitíssimo agradável. Todos se tornam amigos, todos aprendem a se respeitar e a exigir com respeito o direito e as obrigações de todos. A república, de repente, se torna uma família e os estudantes se sentem irmãos, adotando o um por todos e todos por um como lema e princípio. É um fato normal e corriqueiro estudantes de repúblicas se tornarem muito amigos após formados, mesmos distanciados por morarem em cidades diferentes. De tempos em tempos, programam reuniões e jantares para “matar as saudades” e comemorar aqueles quatro ou cinco anos que nunca mais se repetirão.

Tudo isso, sem falar nas festas, nas brincadeiras, nas pegadinhas que os membros de umas repúblicas aplicam nas outras. Um profissional formado há certo tempo em universidade pública paulista costuma contar a brincadeira que os membros de sua república aprontaram. A coisa aconteceu mais ou menos assim: depois de uma passeata de protesto em que os estudantes fizeram o enterro simbólico de certo político, os membros de uma república ficaram encarregados de levar o caixão para o diretório, mas, alegres que estavam, levaram para a república. Lá, um teve a ideia de deixarem o caixão na varanda da casa, a tampa semiaberta; na parte correspondente aos pés botaram um par de tênis velhos do colega que tinha os pés maiores (44), deixando os bicos para fora, como se alguém estivesse mesmo deitado ou morto no caixão; na parte correspondente à cabeça, dentro do caixão, colocaram o crânio de um boi com chifres, que pertencia a um dos estudantes; e forraram o resto com roupas velhas. As pessoas passavam, na calçada, e se espantavam com a presença de um caixão, imaginando, pelos bicos dos tênis, que havia um defunto, ou pelo menos um boneco dentro. Alguns passantes riam, entendendo a brincadeira, e outros não gostavam muito, julgando que era de mau gosto. Um entregador de pizza, certa noite, chegou a abrir a tampa do caixão e fugir assustado ao ver o crãnio do boi. Final da história: um vizinho denunciou e a polícia veio e apreendeu o caixão, intimando os membros da república a darem explicações ao delegado. No final, tudo terminou entre risadas, na delegacia, e o caixão voltou ao diretório. E os integrantes da república tinham mais uma história para, futuramente, contar entre risos aos filhos e netos.

Pode-se, pois, dizer com propriedade que a convivência em repúblicas é uma universidade paralela, a universidade da vida, do respeito mútuo, do reconhecimento das identidades e da aceitação das diferenças entre os indivíduos. Quem aprendeu as relações humanas de uma república já está preparado para o convívio com muitas outras pessoas no seu futuro trabalho, já exercitou num microcosmo o que por certo encontrará no macrocosmo da profissão.

Por isso, este Blogue está focalizando hoje o assunto, lembrando ainda, como sugere o Luiz, que há muitos sites especializados em indicar repúblicas para estudantes nos diferentes câmpus das universidades públicas paulistas. Basta pesquisar com termos como moradia estudantil e república de estudantes em buscadores da internet para receber muitas informações úteis. Nos próprios diretórios das unidades universitárias, durante as matrículas e ao longo do ano, são feitas muitíssimas indicações sobre a moradia e as repúblicas locais.

Vale lembrar que na vida nunca estamos e nunca estaremos sozinhos. O Homem é o que é na face da Terra porque aprendeu a viver e conviver em grupos.

 

Um comentário para “Repúblicas: Um passo para a maturidade”

  1. Gabriel Pré-Vunespiano disse:

    No terceiro parágrafo do artigo, você diz que: “Diferentemente das moradias estudantis, disponibilizadas por muitas universidades a estudantes cujas famílias têm dificuldades financeiras para mantê-los nas cidades onde se situam os câmpus” O certo não seria “onde se situam os campi” ? Não que eu saiba algo de latim, mas enfim, o plural de campus é campi.

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