Ser eficiente é um problema?

Ser bom é um problema? É um problema ser eficiente? Às vezes parece que sim.

Indagações como essa surgem em nossas mentes quando, ao realizarmos um trabalho, fazemos tudo com a maior eficiência e ainda assim alguma coisa, independentemente de nossa vontade, não ocorre exatamente da forma programada. Em casos como este, duas atitudes são possíveis, uma pessimista, outra otimista. O pessimista se lamentará: O que foi que eu fiz? Fiz tudo certinho, caprichei, e ainda assim deu errado?!

Já o otimista tem outra postura: Ops! Fiz tudo certinho e tudo deu certo. Esse problema inesperado não é resultado da minha ineficiência, mas da minha eficiência. Vou resolvê-lo também. A vida é bem assim: enquanto o pessimista fica batendo a cabeça no muro das lamentações inúteis, o otimista busca uma forma de tornar o perfeito mais perfeito ainda.

Estas reflexões vêm a propósito de fatos que  envolveram o Vestibular Meio de Ano da Unesp, os mais concorridos da Universidade em termos de relação candidato x vaga. Publicada a lista de aprovados, 90% dos convocados em primeira chamada não se apresentaram, de modo que a Universidade passou a fazer novas chamadas. Os jornais e os informativos eletrônicos, em sua ânsia de transmitir as notícias puramente, sem desvios da verdade, por vezes sem querer deixam passar a impressão de que alguma coisa deu errado no vestibular da Unesp. Deu mesmo? Se a Unesp fosse uma universidade pessimista, como o indivíduo pessimista acima comentado no parágrafo anterior, estaria a se lamentar e se desculpar e ao mesmo tempo a indagar: Onde foi que eu errei? Onde foi que eu errei?

A Unesp, porém, é uma universidade nascida do idealismo, da vontade de construir um Brasil cada vez melhor. Sempre foi, por isso, uma instituição otimista, de sucesso permanente e, como tal, teve discernimento suficiente para perceber que o fato, em vez de comprovar uma falha, um erro, comprova toda a eficiência que vem sendo demonstrada em suas ações, no seu grande desenvolvimento, na sua abrangência geográfica cada vez maior no Estado de São Paulo (uma das razões para o Vestibular Meio de Ano). Deste modo, a Unesp sabe que a questão dos aprovados não inscritos não atesta uma falha, ao contrário, atesta a grande qualidade que atingiram seus exames vestibulares, a ponto de representarem um modelo, um denominador comum, um certificado de competência para aqueles que são aprovados.

Os exames vestibulares da Unesp, sobretudo após a reforma ocorrida nos últimos três anos, vêm sendo considerados modelares e recebendo elogios constantes dos professores e dos candidatos. A adesão da filosofia de seu vestibular aos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, bem como à Proposta Curricular do Estado de São Paulo é um dos fatores desse sucesso, para o qual também tem concorrido permanentemente a invejável dedicação de todos os integrantes da Vunesp. Assim, não é de estranhar nem de lamentar que muitos candidatos tenham prestado o exame de meio de ano com vistas a uma autoavaliação para o de final de ano. Como tais estudantes por certo desejam vagas em cursos não oferecidos no meio de ano, serviram-se do exame para verificar se estão “tinindo” para o final de ano. Isso é um problema para o candidato? Não, é um recurso bastante válido, que mostra sua obstinação em passar. O estudante tem todo o direito de fazê-lo, já que sua vida futura depende de um bom resultado e qualquer atitude que venha a tomar para melhorar seu desempenho merece elogio e apoio.

Ora, o bom professor sabe que, muitas vezes, é ele que aprende com a lição dos alunos. A Unesp faz um vestibular de altíssima qualidade. Os estudantes o reconhecem e ensinam uma maneira diferente de utilizá-lo. Sob este ponto de vista, a presença dos carinhosamente chamados “treineiros” é um problema para a Unesp? Não, é uma solução. É uma comprovação de eficiência de seus exames. Sendo, porém, um fato novo, a Universidade tratará de instituir no regulamento de seu vestibular diferentes categorias, para que os estudantes que não pretendem assumir as vagas, mas apenas avaliar suas possibilidades, não sejam arrolados na convocação para a matrícula. Há muitas ideias a discutir neste momento: poderá, por exemplo, haver uma lista à parte, ou, de outro modo, os candidatos “treineiros” poderão receber por meio eletrônico ou pelo correio a comunicação da classificação que obtiveram em termos de um resultado geral. Isso os deixará satisfeitos, e mais ainda os convocados em primeira chamada que desejarem assumir as vagas.

Qualquer que seja a solução encontrada para este belo problema, que é belo porque não é problema, a Unesp sai, como sempre, fortalecida: é uma das mais importantes instituições de ensino superior do país e do mundo; seus exames vestibulares representam, para os candidatos, um parâmetro de qualidade.

Voltando ao parágrafo inicial, podemos novamente perguntar: Ser bom é um problema? É um problema ser eficiente? Às vezes parece que sim. Apenas parece. Ser bom, ser eficiente não cria problemas, cria atestados de competência.

 

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