A genialidade verdadeira

O vestibulando aprovado nos exames das melhores universidades é um gênio? Um gênio como Leonardo da Vinci ou Eistein? Muita gente costuma dizer que sim, que somente gênios podem superar as homéricas dificuldades de tais vestibulares. Haveria algo de verdadeiro nesse julgamento popular?

As pessoas comumente consideram “genial” o indivíduo capaz de fazer determinadas ações com muitíssimo mais facilidade e eficácia que outras. Um corredor que ganha por três vezes a São Silvestre é um gênio. Um nadador que quebra um recorde mundial é um gênio. Um grande compositor de MPB é um gênio. Um jogador de futebol com desempenho diferenciado é um gênio. Um político que chega a ser presidente é um gênio. Um escritor que vende muitos livros é um gênio. Com tantos gênios assim, a própria genialidade parece tornar-se comum entre nós e acabamos concluindo que somos um país de gênios. E nós mesmos começamos a acreditar que também somos geniais em alguma coisa. Talvez sejamos mesmo!

Numa análise rigorosamente lógica, não podemos excluir, de fato, que um vestibulando possa ser da mesma estirpe de um Leonardo ou um Einstein, porque bem pode acontecer que seja. Nunca se sabe quando uma dessas mentes brilhantes vai aparecer, nem onde, justamente porque, nessa questão de altas vocações, a Natureza parece operar aleatoriamente. O problema é que a Natureza opera também com extrema economia, e por isso não cria Leonardos e Einsteins aos milhares, como gostaríamos.

Chegamos ao ponto: o vestibulando aprovado nos exames das melhores universidades pode ser considerado mesmo um gênio? Muitas pessoas responderão afirmativamente, outras negativamente a esta questão. Preferimos ficar com as primeiras, justificando nossa resposta: mesmo excluída a primeira hipótese, da genialidade tipo Leonardo e Eistein para a maioria das pessoas e dos vestibulandos, não fica excluída outra possíbilidade nem sempre observada com a devida atenção: uma pessoa não precisa ser brilhante em tudo, mas, se tiver certo potencial e o desenvolver ao máximo, pode assim atingir desempenhos excelentes. Um atleta que vence cinco vezes seguidas uma difícil e concorrida prova esportiva pode não ter diploma, pode não ser um bom enxadrista, pode não ser capaz de desenvolver uma equação, mas foi altamente capaz de, detectando sua potencialidade para determinado esporte, atingir o topo do desempenho por diversas vezes. Merece, assim, o julgamento popular de “gênio” daquele esporte.

Ora, um vestibulando, ao analisar suas metas, se encontra na mesma situação inicial do atleta: ao descobrir que tem potencialidade, pode desistir de desenvolvê-la, por julgar-se incapaz do grande esforço que terá pela frente, ou pode decidir enfrentar toda e qualquer dificuldade para atingir o ponto máximo. Se conseguir, com muita determinação, deve ser considerado “genial”? A resposta só pode ser afirmativa: sim, deve mesmo.

Ao ouvir essa resposta, alguém poderá dizer que muitos estudantes são excelentes em Matemática e péssimos em Língua Portuguesa, ou vice-versa; outros parecem ter nascido sabendo tudo de Biologia e sofrem horrores para aprender quase nada de Álgebra. E outra pessoa poderia até dizer, meio irritada: Não adianta a um vestibulando ser genial em Exatas e nada genial nas outras áreas: até mesmo um gênio da Álgebra tem de saber escrever uma boa redação e saber responder questões de Biologia e História!

Exatamente. Aí está. Quem faz uma pergunta como essa logo saca a solução do problema: o vestibulando tem de ser genial, sim, não numa área, numa disciplina ou numa especialidade, nem tampouco genial em todas, o que o tornaria um Leonardo da Vinci; tem de ser genial na dosagem de seu esforço no estudo, no sentido de não abrir mão de nenhum conhecimento em qualquer das áreas envolvidas nos exames que tem de prestar. Os conteúdos que se estudam no Ensino Médio se prendem a três grandes áreas, que os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio assim estabelecem: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Ciências Humanas e suas Tecnologias, Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. O Ensino Médio tem o objetivo de dar ao estudante essa formação ampla, justamente para que possa, após diplomado, ter um horizonte também amplo de escolhas. No caso da opção por curso superior, por isso, não é a natureza do curso, Medicina, Mecatrônica ou Sociologia, que define como o estudante se deve preparar, mas, ao contrário, a percepção, verdadeiramente genial, de que deve privilegiar, na sua preparação, o aperfeiçoamento dessa formação ampla, porque será ela a ser avaliada nos exames. Vale dizer: tudo deve ser valorizado, nada deve ser desprezado em termos de áreas e conteúdos. Quando um candidato chega a essa conclusão e, determinado, faz todo e qualquer sacrifício para levá-la a cabo em seus estudos preparatórios, pode-se dizer que está agindo de forma verdadeiramente genial, diferenciada.

O gérmen dessa genialidade habita em todos nós. A questão é sabermos alimentá-lo e fazê-lo crescer, para atingirmos nossos maiores e melhores objetivos na vida.

 

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