Internet: Asas para quem sabe voar

Se pudéssemos recuar vinte anos no tempo, por certo encontraríamos um mundo bastante diferente. Vinte anos parecem um período curto demais para tantas transformações. Pense nos mil e um aparelhos eletrônicos, pense no computador, pense no telefone celular, pense no cedê, no devedê, no blueray, no pendrive, pense nos tablets e, sobretudo, pense na internet. Pense no que não poderia fazer em 1990 e que hoje pertence a sua rotina. Não dá nem pra pensar! diria você, com toda a razão.

Imagine agora um vestibulando de 1990. O computador, no país, em virtude de anos e anos de uma irracional proibição de importações, era raridade. Viam-se, aqui e ali, em empresas ou nas mãos de pessoas de posses aqueles velhos computadores “nacionais”, lentos, lentíssimos, paquidérmicos, com possibilidades limitadíssimas de memória e monitores em preto e branco. Hoje nos lembramos daqueles aparelhos como verdadeiros dinossauros, que acabavam mais servindo para despertar curiosidade do que para trabalho efetivo. No início da década de 90, porém, o governo extinguiu a reserva de mercado, que impedia a importação de aparelhos mais modernos, e, de lá para cá, o país passou a desfrutar de todas as conquistas que as indústrias mundiais de eletrônicos e de computadores vão fazendo. Hoje compramos nos supermecados a preços razoáveis computadores poderosos, que facilitam tremendamente nossas vidas. As empresas e as instituições públicas são administradas com base em redes de computadores, de sorte que as tarefas de armazenamento e análise de dados, antes praticamente “manuais”, são hoje inteiramente informatizadas. Para professores e estudantes, os chamados pecês representaram ganho de tempo e de eficiência com os programas de digitação de textos, de planilhas, de processamento de imagens, de apresentações, de levantamento  e classificação de dados, etc., etc.

A maior tecnologia com que podia contar um vestibulando de 1990 era a máquina de escrever e umas primitivas calculadoras a pilha. Seus estudos e suas fontes de informação eram livros. Alguma coisa mais podia ser encontrada em jornais e revistas, mas não muito. Os estudantes mais ativos conseguiam obter livros e apostilas de escolas diferentes das suas e, assim, comparar as matérias e as lições para aprender mais. Outros se uniam em grupos de estudos, para desfrutar dos benefícios da troca de informações. Mil cursinhos preparatórios surgiam, prometendo a aprovação sonhada. Tudo o mais era o esforço pessoal, a determinação de cada um em aprender o máximo e ter um desempenho suficiente nos vestibulares para “agarrar” sua vaga. Não custa dizer, igualmente, que o número de vagas nas universidades públicas era bem menor, embora os candidatos já chegassem a milhares. Muitos dos candidatos que não conseguiam passar, apesar de terem frequentado boas escolas, atribuíam a reprovação à impossibilidade de encontrar mais livros, mais apostilas, mais fontes de estudo. E muitos dos que passavam eram considerados “gênios”.

Foi nesse tempo que surgiu a rede, a internet. Meio complicada no começo, fluindo lentamente por cabos telefônicos, com os computadores dispondo de placas de rede ainda precárias (hoje as consideramos primitivas), aos poucos foi evoluindo, trocando o fluxo de cabos pelo de rádio e as placas de rede a cabo pelos captadores de wireless. Deste modo, hoje, as próprias escolas já dispõem de internet mais rápida, sem falar que os preços dos pecês e dos portáteis está caindo rapidamente e sem esquecer o fato de que a internet é também acessada por telefones celulares e outros aparelhinhos de última geração.

A internet, de fato, chegou para ficar. As mudanças que sofre são sempre no sentido de tornar cada vez mais rápido o tráfego de dados. Algum tempo atrás, levava um dia inteiro para baixar certo programa; hoje se baixa em poucos minutos. E a velocidade, prometem as indústrias, aumentará cada vez mais.

O que significou isso para os vestibulandos? Estes mudaram por causa da internet, tornando-se mais eficientes, melhores que os da década de 90? Na realidade, não. Não mudaram. Os estudantes continuam os mesmos. Os homens continuam os mesmos, com suas virtudes e seus defeitos. A internet, na mesma medida que possibilita às pessoas muita liberdade na busca de informações, de conhecimentos, de ciências e de prazer, também traz implícita a responsabilidade de cada um no seu uso. Se muitos jovens estudantes aproveitam bastante os recursos da rede para seus estudos, para aprender mais e mais nas dezenas de milhares de sites de informação e de estudo para vestibulandos, outros gastam horas e horas em salas virtuais de bate-papo ou em jogos online, dedicando muito menos tempo, quando dedicam, a se servir da internet para estudo. Quer dizer: valorizam mais o prazer dos relacionamentos online e dos games do que a necessidade de aprender. Isto é errado? Para os pais e educadores é errado, sim, os estudantes deveriam alcançar maior equilíbrio na navegação em rede entre o prazer e a busca de informações e conhecimentos, para estarem mais bem preparados para os exames futuros, que decidirão suas vidas. Sem contrariar este parecer, pode-se acrescentar, todavia, que também se trata da questão da responsabilidade pessoal que cada um deve ter: se eu sei que preciso aproveitar toda a riqueza da rede para aprender mais e ter desempenho melhor nos exames, mas, simplesmente, dedico maior tempo aos lazeres da rede, estou assumindo conscientemente uma causa cujos efeitos também conscientemente conheço quais sejam. Então, o equilíbrio ou o desequilíbrio entre prazer ou desprazer, digo, estudo, é comigo mesmo. E, se eu der com os burros na água no vestibular, não poderei dizer, sem cair no ridículo, que errei por ser criança, porque não sou.

Nesta linha de raciocínio, você pode concluir que a internet não é apenas um instrumento útil para fornecer informações, conhecimentos, experiências, prazeres, mas também uma espécie de sensor para aferir responsabilidades. Nossos avós tinham um ditado que espelha magistralmente essa realidade: Deus dá asas a quem não sabe voar. Queriam eles significar, carinhosamente, que certas pessoas têm talento, mas não o usam. A internet, obviamente, não é Deus, embora dê o mesmo do ditado aos estudantes: asas. Aprender a voar direito e por onde é decisão de cada um.

 

3 comentários para “Internet: Asas para quem sabe voar”

  1. Carmem Alves disse:

    Gostei muito. Li para meus filhos.

  2. Carmem Alves disse:

    Gostei muito. Li para meus filhos. Sou do tempo da Bitnet!

  3. lauriane disse:

    adorei seu texto e concordo que a internet proporciona aos vestibulandos oportunidades do qual ,muitas vezes, nao sao valorizadas.

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