Ah! Esses pronomes objetivos!

             É errado, quando conversamos em casa, ou no clube com nossos amigos, falar Eu avisei ele, mas não me ouviu?

            Claro que não é errado. No discurso coloquial brasileiro empregar ele, ela como pronomes objetivos é uma constante há muito tempo, e ninguém deve preocupar-se com isso. Todavia, quando a situação do discurso sai do coloquial para o formal, culto, tudo muda de figura. Se escrevermos Pedro desprezou ela numa redação dissertativa de exame vestibular, teremos realmente cometido um erro, porque não estaremos levando em conta que a redação dissertativa de exame vestibular deve seguir a norma culta da língua portuguesa, que solicita outra forma, a do pronome objetivo. A norma culta aponta os pronomes pessoais do caso reto, como ele, ela, para a função de sujeito oracional; para as funções de objeto existem os pronomes pessoais do caso oblíquo: o, a, os, as, lhe, lhes, se. Por esta razão, as duas orações exemplificadas acima deveriam, caso se tratasse de discurso culto, quer escrito, quer oral, apresentar-se do seguinte modo: Avisei-o, mas não me ouviu. Pedro a desprezou (ou desprezou-a).

            Esse emprego dos pronomes subjetivos ou objetivos já apresenta algumas dificuldades, pois o usuário tem de perceber as funções de sujeito ou de objeto que são preenchidas. As dificuldades aumentam, entretanto, em virtude de os mencionados pronomes objetivos apresentarem variantes, podendo surgir, conforme a posição e as desinências verbais, como o, a, os, as ou lo, la, los, las ou no, na, nos, nas. O surgimento dessas variantes tem toda uma história na evolução do latim vulgar para a língua portuguesa. Não é o momento, porém, de mencionar os fatos históricos, mas de fornecer ao vestibulando uma boa dica para saber fazer a transição do discurso coloquial ao discurso culto. Leia atentamente as quatro dicas seguintes e não errará mais:

 

            Primeira dica – Se o pronome objetivo aparecer anteposto ao verbo, apresentará, conforme o gênero e o número, as formas: o, a, os, as. Exemplos: Não encontrei minha colega em casa – Não a encontrei em casa. Não encontrei meu colega  em casa – Não o encontrei em casa. Não encontrei minhas colegas em casa – Não as encontrei em casa. Não encontrei meus colegas em casa. – Não os encontrei em casa.

            Segunda dica – Se o pronome objetivo aparecer posposto a formas verbais terminadas em -r, -s e –z,  eliminam-se -r, -s ou -z e empregam-se, conforme o caso, lo, la, los, las. Exemplos: Vou retirar o livro – Vou retirá-lo. Vou partir o prato – Vou parti-lo. Vou compor a canção – Vou compô-la. Vou vender o carro – Vou vendê-lo. Note nestes exemplos que, ao perder o -r a forma verbal passa a obedecer a outra regra de acentuação: retirar, partir, compor, vender são oxítonos terminados em -r, que não se acentuam, mas, ao perder o -r, mudam de configuração acentual, tornando-se vocábulos oxítonos terminados em -a, -e, -o, que devem ser acentuados (retirá, compô, vendê); já partir, ao perder o -r, passa a ser um oxítono terminado em -i, que também não deve ser acentuado (parti).

            Terceira dica – E se o pronome objetivo aparecer posposto a formas verbais marcadas por finais nasais: -ão, -õe, -m? As formas verbais não se alteram e a variante pronominal a ser empregada passa a ser -no, -na, -nos, -nas. Exemplos: Retiraram o livro – Retiraram-no. Os policiais dão o desaparecido por morto – Os policiais dão-no por morto. Põe as mãos sobre a mesa – Põe-nas sobre a mesa.

            Quarta dica – E se o pronome objetivo aparecer posposto a formas verbais marcadas por finais com vogais ou ditongos orais: -o, -a, -e, -ei, -ou, etc.? As formas verbais não se alteram e a variante pronominal a ser empregada passa a ser -o, -a, -os, -as.  Exemplos: Busca a glória – Busca-a. Quero meu livro agora – Quero-o agora. Encontrei as peças – Encontrei-as. Procurou os computadores – Procurou-os.

            Como você observa, não é tão complicado assim. Algumas curiosidades relacionadas a essas dicas serão apontadas em outro texto.

            Pode continuar, portanto, em situação de discurso coloquial, falando Avisei ele, Desprezou ela. Mas, no discurso formal, culto, como é o da dissertação de vestibular e também o das respostas às questões discursivas, observe a norma culta: Avisei-o, Desprezou-a.       

2 comentários para “Ah! Esses pronomes objetivos!”

  1. manuzinha disse:

    que bacana

  2. Entender seu weblog é sensacional, e o pessoal que se dedica na produção do Site Sucesso lhe parabeniza pelo seu esquema interessante!

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