Vestibular da Unesp: A importância do novo modelo

            Com a aplicação da primeira fase do Vestibular Unesp Meio de Ano, fica ainda mais patente o acerto da Universidade em configurar seus exames com base nos Parâmetros Curriculares Nacionais e na Proposta Curricular do Estado de São Paulo. Tais documentos, que são o resultado de profundas reflexões e longa experiência de educadores sobre os objetivos e a qualidade do ensino, constituem o ponto de partida para uma verdadeira revolução na educação nacional.

            O caráter inovador dos documentos oficiais mencionados começa pelo fato de não conceberem mais, como ocorria no passado, um ensino compartimentado em disciplinas fechadas, estanques, mas, ao contrário, colocarem toda a educação sob a ótica da multidisciplinaridade e da interdisciplinaridade. Na concepção antiga, ninguém estranhava afirmações como “Matemática nada tem a ver com Português. Eu só gosto de Matemática.” Na concepção moderna, inaugurada pelos Parâmetros, tudo tem a ver com tudo. O conhecimento não é algo que se resuma a uma visão, a um ponto de vista, a uma disciplina, mas é totalizante e totalizado. O estudante, na escola, não deve receber mais um ensino fechado em disciplinas isoladas, mas em conteúdos mutuamente interrelacionados. Matemática nada tem a ver com Português? Errado. Matemática tem tudo a ver com Português: conceitos matemáticos se aplicam ao estudo e ao aprendizado de Língua Portuguesa, assim como o desenvolvimento de competências em Língua Portuguesa é vital para o desenvolvimento de competências em Matemática, e vice-versa. Quem não consegue atingir um desempenho satisfatório em leitura e interpretação de textos, certamente terá a mesma dificuldade em ler e compreender problemas, teoremas e demonstrações. Por outro lado, o desenvolvimento da capacidade de argumentar tem relação bastante estreita com o raciocínio matemático. Essa interdisciplinaridade ocorre entre todas as áreas e conteúdos ensinados nas escolas, de modo que a organização dos currículos deve tomá-la como referência fundamental.

            Neste sentido, frequentemente se afirma que os exames vestibulares têm um papel importante na educação brasileira, na medida em que, como pontos de chegada dos ensinos fundamental e médio, representam o modelo que estes deveriam adotar. Uma prova de tal fato pode ser dada com os vestibulares das décadas de sessenta e setenta do século passado, quando a redação foi abolida e os exames eram exclusivamente em testes de múltipla escolha. As escolas de ensino médio, por isso, passaram a não dar tanta importância à redação, “já que não caía nos vestibulares”. O resultado foi a formação de estudantes que, ao ingressar em universidades, apresentavam grande dificuldade em produzir textos, o que complicava bastante seu desempenho nos cursos. As primeiras provas de vestibulares que passaram a exigir a redação, já em fins da década de setenta, mostravam o verdadeiro estado de calamidade a que tinha chegado o ensino da produção de textos. Com o retorno, porém,  da prova de redação e das questões discursivas, a qualidade de redigir de nossos estudantes passou a melhorar ano após ano e hoje se encontra em um bom nível.

            Em conclusão: realmente, o que se pede ou se deixa de pedir nos exames vestibulares é sempre uma referência para os ensinos fundamental e médio. A atitude de universidades, que, como a Unesp, passam a tomar como base as novas diretrizes curriculares deve funcionar hoje, positivamente, como um modo de intensificar as grandes alterações de que a educação brasileira necessita para formar estudantes com uma visão sólida e ampla da ciência, da arte e da sociedade em geral, dotados de capacidade para avaliar criticamente a realidade e tomar decisões de interesse quer individual, quer coletivo. O Brasil precisa desses novos cidadãos para enfrentar os enormes desafios do presente século.

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