Não tenha medo do apagão

            Agora que a primeira fase do vestibular da Unesp passou, e você sabe que foi bem, podemos relaxar e brincar um pouquinho, falando de um assunto que até pode ser objeto de exames vestibulares, mas no momento está dando margem a muitas brincadeiras: o apagão.

            É um assunto sério para o governo. Mas é também um assunto que provoca risos quando veiculado na mídia. Aqueles que se metem a fazer comentários sem conhecer profundamente a matéria às vezes se transformam em grandes piadistas. Numa queda geral de energia, ocorrida dez anos atrás, disseram que o país gerava menos eletricidade do que precisava, e por isso o sistema caiu, causando esse desligamento inesperado, por efeito dominó, em muitos estados. Os jornais, nos primeiros momentos, falaram que ocorrera um blackout ou, aportuguesando, um blecaute; o povo brasileiro, grande criador de apelidos, não perdoou o estrangeirismo e criou em seu lugar o vocábulo apagão, muito mais nosso e muito mais expressivo, que já em 2001, quando novo evento de escuridão ocorreu, passou a ser usado por todas as pessoas. Atualmente, só os mais pernósticos continuam usando blecaute. O povo sabe o que fala.

           Aí é que começa a ficar engraçado. Na época, chegaram a dizer que o culpado dos apagões havia sido um raio um pouco forte demais que atingira uma linha um pouco forte de menos. Outros juraram que foi ato de grupos terroristas internacionais interessados em desestabilizar os países de língua portuguesa. E houve quem dissesse que todo o povo era responsável, pois não queria economizar energia nem na hora do pico. Não faltou quem buscasse explicações mais astronômicas, como explosões solares ou passagens de cometas. De qualquer modo, no final das contas, o grande culpado acabou sendo o de sempre: o governo, porque, juravam alguns analistas, havia investido menos do que devia.

            Em 2005 e 2007 houve apagões menos amplos (ficaria meio complicado falar “apagões pequenos”), que nunca ficaram muito bem explicados, além da corriqueira desculpa dos “problemas técnicos”, embora recentemente tenham encontrado uma explicação mais moderna para aqueles dois desligamentos: ataque de hackers ou crackers para desestabilizar o sistema elétrico, facilitar fugas das prisões e ridicularizar o governo. Pelo menos é uma explicação digna da Cibersociedade, mais moderninha, portanto. E o governo acabou neste caso também levando a culpa por não ter uma tropa de hackers do bem para impedir que a tropa dos hackers do mal atacasse.

            Nos últimos tempos, os responsáveis pela energia elétrica no Brasil juravam que os apagões estavam definitivamente banidos, graças a investimentos perfeitos e um sistema perfeito de gestão de energia. Só não comunicaram esse parecer ao próprio Apagão, que retornou no dia 10 mais assustador do que nunca. Agora, o festival de explicações também vai entrar para o folclore: para uns, foi excesso de aparelhos de ar condicionado ligados na noite mais quente do ano; para outros, raios e turbulências causados por tempestades inimigas da eletricidade produzida pelo homem; para outros, ainda, deve ter sido a passagem de uma esquadrilha de óvnis, no mais legítimo estilo de Contatos Imediatos, que passou deixando um rastro de escuridão e de carinhas vermelhas, não de vergonha, mas de ficar olhando para as espaçonaves alienígenas. Talvez até o Steven Spielberg e o Richard Dreyfuss sejam convidados a opinar a respeito. Informações oficiais asseveram que, desta vez, não se pode dizer que o apagão se deve a falta de energia, porque segundo as mesmas fontes há hoje energia sobrando; não se pode dizer também que se trata de falta de tecnologia, porque, segundo dizem, o país possui a melhor no ramo e Itaipu é recordista mundial em produção de energia. Embora a tendência continue a ser a de todos os tempos, em nosso país, de acusar o governo pela falha, não parece haver ainda uma explicação convincente. É possível que, no final, surja a melhor de todas, baseada num dos corolários da Lei de Murphy: quando um sistema é muito bom e tem tudo para não falhar, falhará; foi isso o que aconteceu. Só pode haver um culpado: o Acaso. Talvez, ao fim e ao cabo, o governo seja acusado apenas disso: desafiar o Acaso. Menos mal.

            Afinal, pensará você, o que é que um blogue sobre vestibulares tem a ver com o apagão de energia ocorrido no último dia dez? Ainda se tivesse ocorrido durante uma prova do Novo Enem, ou de um vestibular de grande universidade! Mas ocorreu à noite, numa hora em que as pessoas que tinham dormido nem perceberam!?

            Você não vai acreditar: há uma relação muito interessante entre apagão e vestibular. Depois do acontecimento, de que é que os gestores de energia elétrica do país têm mais medo? Do apagão. E um vestibulando, fazendo prova, de que é que tem mais medo? Do apagão. Não do apagão de energia elétrica, é claro, mas do apagão da memória. De fato, um dos maiores medos confessos dos vestibulandos é que, no momento X, a memória não traga a resposta ou as respostas, que, ele, vestibulando, sabe que sabe, mas que não afloram como deviam aflorar, porque, de repente, deu apagão, ops!, deu branco: as idéias, como as subestações de energia, vão caindo uma a uma, em efeito dominó, e não fica nada de pé, todo o conhecimento do vestibulando some na escuridão.

            Aí está: muitos vestibulandos têm medo de um apagão, e mais ainda de um apagão nacion… digo, total da memória durante uma prova. Qual o fundamento desse medo? Na verdade, nenhum. Trata-se mais, como no caso dos comentários sobre o apagão nacional, de uma espécie de folclore. Mas é claro que o medo de um apagão ou de um branco pode atrapalhar um pouco enquanto medo. Como os vestibulares exigem menos a memória e mais o raciocínio e a interpretação de dados concretamente colocados, a possibilidade de “dar um branco” ou de “apagar tudo” praticamente não existe, já que as questões frequentemente encaminham o candidato para a resposta, em vez de solicitar-lhe respostas de memória. Assim, não há jeito de “dar branco” na memória, porque a própria enunciação das questões faz as vezes de memória.

            Falar é fácil, você dirá, e acrescentará: mas na hora do “vamos ver”, aí é que a coisa pode complicar. Você não deixa de ter certa razão nisso, mas a explicação é outra. O vestibulando é, por natureza, muito responsável. Sabe que tem de se preparar não apenas para ir bem, mas para ir melhor que a concorrência, de modo que um pequeno equívoco, um “apagãozinho”, pode fazer perder uma vaga. Pode. Nesse caso, é preciso que cada um se prepare, mas sem pavor ou pânico, para situações como essa. Uma das melhores estratégias é olhar para trás e tentar lembrar de situações, em provas escolares, em que você cometeu erros que poderia ter evitado, pois conhecia a matéria. E tentar estabelecer um sistema pessoal para evitar que tal situação ocorra em provas de vestibulares. Conhecendo-se melhor, aprimora-se o desempenho. Mas, ao efetuar essa estratégia, é preciso ser bastante realista e não fazer concessões ao egocentrismo: é preciso distinguir muito bem o que é um “apagão de memória” e um “apagão de conhecimento”. “Deu um branco” pode ter esses dois sentidos: não me lembrei do que sabia, ou, ao contrário, não me lembrei porque simplesmente não podia lembrar, não sabia. Nesse caso, é preciso ser equilibrado e admitir: preciso estudar mais, para iluminar mais minhas respostas.

            É mais ou menos esse o raciocínio que devem os governos sempre fazer, em caso de apagões presentes ou futuros: apagou, apesar de se ter feito tudo; ou apagou, porque não se fez tudo. No primeiro caso, pode-se dizer que nunca se consegue fazer tudo, sempre sobra um fiapinho que pode fazer qualquer sistema desandar; no segundo caso, vale alertar que é preciso humildade para admitir falhas e seriedade para corrigi-las.

            De qualquer modo, quer se trate do apagão de energia elétrica ou do apagão do vestibulando, o melhor mesmo é nunca desafiar o Acaso, porque se, por acaso…

4 comentários para “Não tenha medo do apagão”

  1. Tia Madrinha disse:

    Querida Ana Laura
    Espero que voce tenha entendido o caminho que escolhi para participar desse seu importante momento e demonstrar o reconhecimento que tenho pela sua responsabilidade, determinação, dedicação e garra para atingir seus objetivos. Saiba, ainda, que o curso de graduação lhe proporcionará uma boa formação inicial, mas a sua determinação é que lhe assegurará a realização profissional em qualquer boa escola que voce poderá escolher. Continue firme nos seus propósitos, não tema apagões, voce se preparou. Olhe para trás, respire fundo, reconheça o seu esforço e a partir daqui erga a cabeça e
    pise firme, é a sua vez, o seu momento. Tenho certeza que voce leu com atenção todos os post desse blog e saberá aproveitá-los. Felicidades!

  2. sirley disse:

    Legal essa relação “apagão” da/na memória para o vestibulando, na hora “h”.

  3. Cristiano disse:

    Ótimo texto, parabéns!

    E, como vestibulando, agradeço pela preocupação com nossos apagões!

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