A ordem dos elementos na frase

Você se preocupa bastante com sua redação e suas respostas discursivas nos vestibulares, não é verdade? Por vezes, quando percebe ou quando lhe apontam algum erro, fica aborrecido e se considera um mau escritor, alguém que é incapaz de fazer um texto que mereça nota alta. Nunca pense assim. Você passou por um exaustivo treinamento, desde o ensino fundamental, para escrever bons textos, e com certeza deve ser mesmo capaz. Por isso, em primeiro lugar, acredite em você.

Um dos modos de comprovar essa sua capacidade é verificar que todos aqueles que escrevem, inclusive este Blogueiro, podem cometer erros em seus textos. E cometemos mesmo. Somos sujeitos a erros dos mais diversos tipos, gramaticais, ortográficos, de coesão e de coerência. Escrever, dizem os bons escritores, é sempre uma luta, uma luta constante para evitar tais lapsos, o que às vezes não é possível, porque estamos sujeitos a mil e uma influências sobre nosso comportamento que nos podem levar a cometê-los, inclusive por distração. Observe o exemplo seguinte, retirado de um jornal, e tente verificar qual desacerto ocorreu:

A moça frequentava o hotel onde foi encontrada morta regularmente.

Não é preciso muito esforço de leitura para perceber que, rigorosamente falando, não há nenhum erro gramatical nessa passagem. Todavia, há um engano de colocação de um adjunto adverbial, que gera uma forte e perigosa ambiguidade, prejudicando o entendimento por parte do leitor. Trata-se da posição ocupada por esse termo. O leitor poderá imaginar dois sentidos possíveis: primeiro, “a moça foi encontrada morta regularmente”; segundo, “a moça frequentava regularmente o hotel”. Esta segunda possibilidade de sentido é a que o jornalista quis transmitir, mas, por infelicidade ou pressa, houve o deslocamento do adjunto adverbial para uma posição que gerou a ambiguidade. O escritor quis dizer, na verdade, o seguinte:

A moça frequentava regularmente o hotel onde foi encontrada morta.

Outra possibilidade, ainda aceitável, poderia ser:

A moça regularmente frequentava o hotel onde foi encontrada morta.

É claro que a possibilidade primeira seria mais clara. O jornalista talvez tenha esquecido de colocar o adjunto adverbial nessa posição e, sentindo falta ao terminar, deixou-o no final da frase.

Percebeu? Qualquer um de nós poderia cometer esse deslize, e o perceberia se tivesse tempo de fazer a revisão, mas o jornalismo impõe tarefas rápidas, razão por que esses cochilos escapam de vez em vez.

Por que isso acontece? Porque a língua portuguesa herdou de sua língua-mãe, o latim, uma boa liberdade de colocação de palavras e termos. Essa liberdade ajuda bastante nosso escrever, mas pode também a levar a alguns problemas como o descrito. Nesse caso, todo cuidado é pouco.

Observe, só para exemplo final, a liberdade de colocação que o português herdou do latim, verificando a ordem dos elementos num provérbio como

A pressa é inimiga da perfeição.

Temos nesse provérbio quatro elementos intercambiáveis: primeiro, a pressa; segundo, é; terceiro, inimiga; quarto, da perfeição. Fazendo um exercício de permutação, descobrimos que há 24 possibilidades de colocação desses elementos: 4x3x2x1 = 24. Apresentemos cinco delas:

A pressa é inimiga da perfeição.

A pressa inimiga é da perfeição.

A pressa é da perfeição inimiga.

É a pressa inimiga da perfeição.

É a pressa da perfeição inimiga.

Essas cinco possibilidades são perfeitamente aceitáveis e não gerariam problemas de sentido. Entre as dezenove restantes, porém, algumas produziriam dificuldades de compreensão. Isto significa, singelamente, que não devemos abusar da liberdade de ordenação dos elementos nas frases que criamos. Devemos sempre reler com olhos críticos o que escrevemos, para sanar desencontros de sentido.

Ficou claro? Então coloque essa questão entre os aspectos que você precisa vigiar, e muito, nos textos que escreve. Ainda assim, vez por outra você não escapará de uma escorregadela, como a do jornalista citado. Mas só vez por outra. Valeu?

 

 

 

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