Repetições: virtudes ou defeitos?

Você já conhece o valor das repetições na poesia, não conhece? Então veja esta bela sequência do Canto VI de Os Lusíadas, de Luís de Camões:

 

No mais interno fundo das profundas

Cavernas altas, onde o mar se esconde,

Lá donde as ondas saem  furibundas,

Quando às iras do vento o mar responde,

Netuno mora (…)

Lindo exemplo, não é? Dá vontade de ficar repetindo a leitura por muito tempo, para sentir a força expressiva destes versos. Aproveite para observar este exemplo, mais recente, de nosso poeta Manuel Bandeira:

 

A onda

 

a onda anda

aonde anda

a onda?

a onda ainda

ainda onda

ainda anda

aonde?

aonde?

a onda a onda

Também muito bonita a sugestão das ondas por meio dos ecos das repetições. Os poetas, de fato, adoram repetições, porque podem criar com elas uma espécie de orquestração como base do significado que  os versos transportam.

Pois é. E já lhe falaram sobre as repetições, sobretudo de palavras, em suas redações ou respostas a questões discursivas? Provavelmente. E lhe disseram, com certeza, que em textos dissertativos não cabem esses recursos tão caros aos poetas. É bom então tomar bastante cuidado, pois o que é virtude na poesia pode ser um grande atrapalho para a avaliação de seus textos. E você não quer que uma banca de correção se atrapalhe com seus textos, não é?

Isso não quer dizer que não possa haver nenhuma repetição em suas redações, mas, se surgirem, deverão ter um peso na sua exposição e na sua argumentação. Compreendeu? Então acostume-se, na revisão de seus rascunhos, a eliminar as repetições desagradáveis, como, por exemplo, e e mas. Redações cheias de e e mas causam atrapalhos e aborrecimentos à leitura. E você tem formação suficiente para evitá-las¸ quer trocando esses conectivos por outros, quer mudando a construção das frases. Um texto cheio de mas é realmente irritante de se ler. E sempre é possível trocar, por porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto.

Os perigos não param por aí. Sem nos darmos conta, costumamos repetir em demasia palavras como quando, talvez, vez, sempre, mais, ainda, demais, mesmo, apenas, apesar, embora, só, somente, entre outras. Trate então, de praticar bastante, nas revisões de seus textos, a substituição dessas palavras por outras, ou também a modificação da estrutura das frases em que surgem. Observe como é fácil, por exemplo, com quando:

 

Quando ele me agredir, vou revidar na mesma altura.

Se ele me agredir, vou revidar na mesma altura.

 

Quando ele chegar, receberá o pagamento devido.

Logo que ele chegue, receberá o pagamento devido.

Quando ele correu, comprovou que era o traidor.

Ao correr, comprovou que era o traidor.

 

Notou bem? Claro que notou. Por isso mesmo, verifique suas redações já corrigidas para observar se nelas há muitas repetições. Se houver, comece sua prática de limpeza. Seus textos ficarão muito melhores. Mãos às obras!

 

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