Seu pensamento x Seu discurso

Os professores procuraram ensinar-lhe como escrever bem, ao longo de todo o ensino fundamental e médio. Você deve, portanto, ter aprendido o suficiente para escrever redações razoáveis e respostas adequadas a questões discursivas. Eventualmente, você pode ser daqueles estudantes que se orgulham de suas redações e por isso não manifestam nenhuma preocupação a esse respeito em vestibulares. Ótimo. Todavia, sempre há algo a aprender, para tornar ainda melhor seu desempenho.

Quando falamos ou escrevemos, elaboramos mentalmente nossas frases e as expressamos. Alguns pensam até que as frases pensadas são exatamente iguais às faladas ou escritas. Não é bem isso. Na transformação de pensamento em discurso, muitas vezes, deixamos de nos guiar por um fator importantíssimo: o ouvinte, no caso da fala, ou o leitor, no caso da escrita. Esse fato conduz frequentemente a problemas de interpretação de nosso discurso. Quantas vezes alguém que conversa com você lhe pede para “explicar” o que falou? Ou lhe aponta alguma dúvida sobre o que acaba de proferir? Na comunicação oral, tudo fica mais fácil, é só explicar o que não foi entendido ou corrigir o que não conseguiu expressar direito. Na comunicação escrita, por meio de redações ou de respostas a questões discursivas, isso não é possível. A banca de correção de um vestibular ou outro tipo de concurso estará só com seu texto e o interpretará objetivamente em função do que estiver escrito.

Não está percebendo muito bem aonde o Blogueiro pretende chegar? Então examine a seguinte frase, colhida em um texto de notícia na internet:

 

A vítima frequentava o hotel onde foi encontrada morta regularmente.

 

Observou bem o problema? Uma leitura atenta nos faz entender perfeitamente a frase, mas também nos leva a perceber o deslize cometido pelo escritor: um deslocamento inoportuno de palavra, que prejudica as primeiras tentativas de interpretação do que foi dito. Um leitor bem-humorado debochará, perguntando: Quantas vezes a vítima foi morta “regularmente”? A estas alturas, você já percebeu a natureza do problema: a palavra “regularmente”, no local em que está, não infringe nenhuma regra gramatical; a frase é gramaticalmente correta e pode ser compreendida com auxílio da lógica; no entanto, em tal posição, a palavra dá margem a interpretações que não correspondem ao que realmente o escritor quis dizer. Em resumo, há um local melhor, mais adequado, para colocar o advérbio regularmente e, assim, eliminar qualquer possibilidade de interpretação equivocada:

 

A vítima frequentava regularmente o hotel onde foi encontrada morta.

 

Compreendeu o que o Blogueiro tentou explicar? Nem sempre os erros detectados em frases são de natureza gramatical. No caso exemplificado, trata-se de uma questão por assim dizer estilística: a escolha da ordem das palavras e termos mais adequada à compreensão do leitor. A ordem das palavras na frase, portanto, é algo com que precisamos sempre nos preocupar.

Exatamente por isso o Blogueiro sugeriu, no título deste artigo, uma espécie de conflito entre pensamento e expressão. Quando escrevemos, vamos elaborando do pensamento ao texto nossas frases. Isso não quer dizer necessariamente que estejam prontas para funcionar de modo adequado. Há um segundo nível de trabalho, que o escritor deve fazer lendo o que acaba de escrever, para verificar incongruências como a apontada no exemplo. E as incongruências de ordem das palavras e termos são as mais perigosas, por gerarem ambiguidades e prejudicarem o entendimento.

O Blogueiro encerra este comentário servindo-se de um exemplo deste mesmo artigo. Observe:

Você deve, portanto, ter aprendido o suficiente para escrever redações razoáveis e respostas adequadas a questões discursivas.

 

Imagine, só por um instante, que estivesse escrito:

 

Você deve, portanto, ter aprendido, para escrever redações razoáveis e respostas adequadas a questões discursivas, o suficiente.

 

Evidentemente, o leitor, num primeiro momento, estranharia um pouco a disposição dos elementos. Acabaria entendendo, por uma leitura lógica, o que teria querido expressar o Blogueiro. A frase, porém, estaria um pouco truncada com a deslocação de o suficiente para o final. Justamente por isso não foi escolhida.

Tome todo o cuidado, portanto, com a ordem das palavras e termos em suas frases. Releia o que escreveu, prevendo as dúvidas que seu leitor poderá ter. Deixe as inversões violentas de palavras para os poetas, que adoram hipérbatos e sínquises, como se pode observar até na letra do Hino Nacional, de Osório Duque-Estrada: Do que a terra, mais garrida / Teus risonhos, lindos campos têm mais flores. Ou nOs Lusíadas, de Camões: A grita se alevanta ao Céu, da gente.

Captou?

 

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