Alea jacta est? Nem tanto!

Se você gosta de empregar expressões e frases latinas, por certo conhece a que serve de título a este artigo: Alea jacta est. E é claro que sabe também a tradução: os dados estão lançados, ou, traduzindo a metáfora, a sorte está lançada. Consta que esta frase foi empregada por Júlio César, ao atravessar o rio Rubicão, que marcava a fronteira entre a Gália Cisalpina, em que estavam as legiões de César, e o território da Itália, sede do poder do império. Atravessar este rio com soldados em direção a Roma, segundo as leis da época, equivalia a desafiar o poder constituído. E Júlio César estava justamente com essa intenção. Com a frase mencionada, portanto, e o ato da travessia, César colocava, de modo prático e também simbólico, seu desafio. O grande general romano, de acordo com a História, acabou conquistando o poder, escudado em suas legiões. Alea jacta est, portanto, tinha este significado para César: meu destino é desafiar o império e conquistá-lo.

Os candidatos que, como você, conhecem esta frase e o que ela simboliza costumam empregá-la tão logo terminam de prestar seus exames: “Bom, fiz o que podia, alea jacta est”. Na verdade, porém, este emprego não é lá muito adequado, já porque o vestibular não é, propriamente, um desafio, já porque o candidato não vê a universidade como um inimigo a conquistar, já porque um vestibular não é uma guerra, mas uma tentativa de comprovação de competência para obter uma vaga no curso escolhido.

A universidade, neste sentido, não é um alvo a ser abatido e conquistado, mas, simplesmente, mais um degrau a ser galgado na vida do estudante. Não é o poder a derrotar, mas um lugar de acolhida, de recepção e preparação para atuar num campo profissional, talvez até pelo resto de sua vida. Não se trata, por isso, nem de sorte, nem de acaso, mas de comprovação de competência para ser recebido (observe o parentesco entre prova e comprovar).

Por que o Blogueiro está fazendo este comentário todo? Em primeiro lugar, para deixar você mais tranquilo com relação a seus exames: não há nada de sobrenatural neles, são meros exames. Em segundo lugar, para alertá-lo sobre o emprego de locuções, expressões e frases latinas. Fica bonitinho, de fato, usá-las em nossos textos, parece que demonstram intelectualidade, grande conhecimento. Parece, mas não necessariamente. O latim, língua da qual descende o português, não mais faz parte do currículo dos ensinos fundamental e médio, o que é uma lástima. Alguns professores, para enfatizar o parentesco, afirmam que o português é o latim do século XXI (assim como o francês, o espanhol, o italiano, o romeno, todas estas línguas resultantes da modificação do latim nas respectivas regiões). Ora, não sendo mais lecionado no ensino básico, nossos estudantes só têm acesso a ele por meio de dicionários especializados ou pela verificação do uso em textos de jornais, revistas e outros. Apenas quem estuda Letras ou Direito recebe hoje algum ensino de latim.

Deste modo, se você gosta de entender e empregar expressões latinas, deve tomar muito cuidado para fazê-lo adequadamente, sem possibilidade de uso equivocado, que só poderá atrapalhar ou até atravancar seu texto. É bom, por isso, estudar com atenção a escrita correta, o significado e a procedência do emprego dessas expressões. Deste modo, poderá enriquecer seu texto com, por exemplo, mutatis mutandis (= mudando o que deve ser mudado), Amicus Plato, sed magis amica  veritas (=Platão é amigo, porém mais amiga é a verdade; Sou amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade), a priori (= antecipadamente, antes de argumentar, sem anterior conhecimento), ad libitum (= à escolha, à vontade), ad litteram (= à letra, ao pé da letra, literalmente, conforme o texto), habeas corpus (= que tenhas o corpo), in totum (= por inteiro, inteiramente, no todo, abrangendo tudo), etc., etc.

Percebeu? É interessante, para seu texto, empregar locuções, expressões, frases latinas, como também provérbios? Pode até ser. Mas é preciso fazê-lo com o máximo possível de conhecimento sobre os significados e sobre a pertinência desse emprego no contexto de sua redação. E bem assim o mesmo com relação a outros idiomas.

No momento de lançar os dados, portanto, mesmo sem ser um César, verifique se os utiliza do modo mais adequado possível para obter os pontos necessários. Caso contrário, é melhor não arriscar, fique apenas com o português.

 

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