Você não pode escrever isso!

Ultrapassada a primeira fase, com méritos, diga-se de passagem, agora você tem de enfrentar a segunda, que lhe dará a classificação para a vaga pretendida.

Se as primeiras provas se resumiram a ler perguntas e marcar respostas, as que vêm agora vão solicitar bem mais: ler e responder com seu próprio discurso. Uma pessoa do povo diria, neste caso, agora é que a porca torce o rabo. É uma metáfora que espelha a pura verdade. Ao usar seu discurso nas respostas e na redação, as possibilidades de erro aumentam bastante, não apenas em encontrar as soluções adequadas, mas também, particularmente, no que se refere a seu domínio do idioma, que estará em julgamento. O problema se agrava pelo fato de, embora aparentemente independentes, esses dois aspectos poderem interferir em seu discurso, propiciando erros inesperados.

Em alguns eventos a que o Blogueiro assistiu neste ano, deparou-se com escorregões de discurso lamentáveis. Apesar de flagrados no discurso oral de debatedores e entrevistados, tais deslizes podem passar para o texto escrito, e justamente nele causam perturbações que as bancas de correção detectam e punem com descontos de nota. Você deve, por isso, precaver-se. Vamos examinar alguns desses infelizes deslizes (a rima vem bem a propósito para alertá-lo).

O verbo ser tem no modo subjuntivo a forma seja (seja, sejas, seja, sejamos, sejais, sejam). Muita gente boa, porém, no discurso oral, carrega o vício de dizer seje, como por exemplo em: Espero que ele seje mais disciplinado. Esse erro está grassando como epidemia, hoje, em entrevistas e debates. Passa quase despercebido. Mas não passará despercebido numa entrevista para obtenção de emprego, e muito menos em respostas discursivas e redações de concursos em geral e de vestibulares. Tome cuidado e escreva sempre: Espero que ele seja mais disciplinado.

Problema semelhante ocorre com o subjuntivo de querer: queira, queiras, queira, queiramos, queirais, queiram. Não é raro ouvirmos pessoas na mídia dizerem: Não acho que ele quera fazer isso. Horrível na oralidade, esse cochilo torna-se ainda pior no discurso escrito. Cuidado, pois. E assim também com o verbo deixar, que não se deve pronunciar dexar. O presente do indicativo desse verbo é deixo, deixa, deixas, deixamos, deixais, deixam. E o subjuntivo: deixe, deixes, deixe, deixemos, deixeis, deixem. Portanto, nada de dizer eu dexo, que eu dexe. E muito menos escrever.

Mais comum que o anterior é a forma errada aleja usada em lugar da correta aleija. E mais comum ainda a forma verbal robo em vez de roubo. Note que o verbo é roubar, que no presente do modo indicativo é roubo, roubas, rouba, roubamos, roubais, roubam. No modo subjuntivo é roube, roubes, roube, roubemos, roubeis, roubem. Os professores, desde o ensino fundamental, lutam com toda a sua força argumentativa para evitar que os alunos digam Eu robo. Espero que ele não me robe. Apesar disso, alguns estudantes teimam em pronunciar erradamente e correm o sério risco de transportar tal erro para o discurso escrito.

Assim também é muito comum na oralidade pronunciar, equivocadamente, popar, popo, popança, em vez das formas corretas poupar, poupo, poupança. Não esqueça que o presente do modo indicativo de poupar é poupo, poupas, poupa, poupamos, poupais, poupam. E no subjuntivo: poupe, poupes, poupe, poupemos, poupeis, poupem.

Os exemplos desses escorregões verbais são numerosos e encheriam algumas páginas. Por isso, o Blogueiro vai acrescentar apenas outros três. Primeiro: cuidado com o verbo agourar. Não é agorar. No presente do modo indicativo devemos dizer agouro, agouras, agoura, agouramos, agourais, agouram. E no subjuntivo: agoure, agoures, agoure, agouremos, agoureis, agourem. Segundo: o verbo medir se conjuga, no presente do modo indicativo: meço, medes, mede, medimos, medis, medem. E no presente do subjuntivo: meça, meças, meça, meçamos, meçais, meçam. Não vá falar, como muita gente, nem tampouco escrever: eu mido. Horrível, não é?

E como somos o país do futebol, não podia faltar um último exemplo de uso na linguagem desse esporte. É comum ouvirmos eu treno, que ele trene, quando deveria o falante dizer: eu treino, que ele treine, pois o presente do indicativo de treinar é treino, treinas, treina, treinamos, treinais, treinam. E o presente do subjuntivo: treine, treines, treine, treinemos, treineis, treinem.

É isso aí. Não queira menosprezar essas possibilidades de erro, dizendo que sabe de tudo. O Blogueiro não agoura, apenas alerta para que você meça bem as consequências desses erros crassos. Não poupe esforços para evitá-los, consultando sempre gramáticas e dicionários, nem deixe que distrações desse tipo roubem sua nota. Treine bastante para não cometer lapsos de conjugação como os apontados neste artigo. Não vai querer perder pontinhos preciosos em sua média final, não é? E seja feliz em suas provas.

 

 

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