Poesia e verso em vestibulares

Por vezes, nas provas de literatura e língua portuguesa nos exames vestibulares, podem surgir questões que envolvem a interpretação de poemas, tanto em versos livres, como em versos tradicionais. Quase sempre essas questões se voltam para a elucidação do conteúdo, mas, vez por outra, surgem questões sobre ritmo.

As escolas, desde o ensino fundamental, focalizam o mesmo tema e tentam, aos poucos, fazer com que os alunos compreendam a natureza do ritmo e sejam até mesmo capazes de criar versos e poemas. O Blogueiro não está dizendo nada de novo, apenas quer esclarecer alguns aspectos que podem ajudar os candidatos a resolver tais questões.

Ora, quando falamos em ritmo no discurso, estamos simplesmente reconhecendo que o ritmo faz parte inerente da própria linguagem. Por isso, a versificação não surgiu do nada, foi apenas um aproveitamento dessas possibilidades de ritmo que se abrem quando falamos ou escrevemos. Vamos a um exemplo, inventando um nome próprio:

 

Antônio Sousa do Prado

 

Trata-se de um nome simples, que pode até corresponder, na realidade, a grande número de pessoas no Brasil e em Portugal. Quando pronunciamos esse nome inteiro, sentimos certa harmonia na sucessão das sílabas fracas e fortes que o constituem. Marcamos as fortes com negrito e grifo:

 

An/to/nio/Sou/sa/do/Pra/do

 

Compare esse nome com os versos de “A Banda”, Chico Buarque:

 

Estava à toa na vida

o meu amor me chamou

pra ver a banda passar

cantando coisas de amor.

Antonio Sousa do Prado.

 

O ritmo é o mesmo! diria você. Correto. Exatamente o mesmo. Todas essas sequências possuem como fortes a 2, a 4 e a 7 sílabas, cuja repetição produz a percepção do ritmo. Trata-se de um verso heptassílabo, também denominado redondilho maior, para diferenciá-lo do do redondilho menor, de cinco sílabas métricas. O verso heptassílabo é o verso por excelência, tanto da literatura, quanto da música popular e do folclore. Até mesmo a música sertaneja atual o utiliza.

Outro verso que geralmente serve de objeto para perguntas é o decassílabo. Podemos criar outro nome próprio como exemplo de verso de dez sílabas, marcando com negrito e grifo as sílabas fortes, que são a terceira, a sexta e a décima sílabas:

 

Godofredo Sampaio de Oliveira

 

Trata-se do chamado verso decassílabo heroico, cujo acento predominante é o da sexta sílaba. A outra variedade é a do chamado decassílabo sáfico, com acentos predominantes na quarta e oitava sílabas, como neste nome próprio criado agora:

 

Jo Alfredo Aparecido Filho

 

Compare estes dois nomes próprios com os versos de Raimundo Correia:

 

Invergável ao pulso dos tiranos (3-6-10)

Godofredo Sampaio de Oliveira                   (3-6-10)

 

E voa, e rasga o luminoso ingresso (2-4-8-10)

José Alfredo Aparecido Filho                       (2-4-8-10)

 

Percebeu? O ritmo é parte inerente do discurso. E você encontra nele sequências com a mesma estrutura acentual de versos.

Um verso que também pode ser objeto de questões é o alexandrino clássico, com acento dominante em duas sílabas, que formam dois meios-versos denominados hemistíquios. E agora nem precisamos forjar exemplo, porque o próprio nome de um grande poeta constitui um alexandrino clássico:

 

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac

 

Olavo Bilac, de resto, foi um dos mestres no emprego desse verso. Examine o exemplo do poema  Alvorada do Amor, observando que a sexta sílaba é sempre marcada por acento forte:

 

Ah! Bendito o momento em que me revelaste

O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!

Porque, livre de Deus, redimido e sublime,

Homem, fico na terra, à luz dos olhos teus,

— Terra, melhor que o Céu! homem, maior que Deus!

 

Lindo, não é? Lindíssimo. No poema mencionado, o poeta reconta a lenda da expulsão de Adão do Paraíso, atribuindo-lhe um novo e original contorno.

É isso aí. Pela beleza de suas imagens, conceitos e ritmos, a poesia sempre dignifica o homem.

 

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