Você fala, sim, mas não escreve, certo?

Talvez não seja o seu caso, mas sempre é bom prestar atenção a uma diferença importante entre o discurso falado e o discurso escrito. Por quê? Porque isso pode ser importantíssimo para sua redação e, mesmo, para a leitura dos enunciados das questões. Alguns estudantes creem que  a escrita é apenas transcrição da fala. Nada disso. Estão equivocados. Quando começamos a escrever, penetramos num mundo novo, com suas próprias características, embora a língua utilizada seja a mesma que preside a nossa fala.

Quer observar um exemplo bem simples? O pronome pessoal do caso reto “nós”. Na fala, muitas vezes pronunciamos nós, mas por outras também pronunciamos nóis, e ninguém repara, porque o discurso oral é menos tenso. Todavia, nas respostas a questões discursivas ou na redação jamais deveremos escrever nóis, mas sempre e apenas nós. Em certas regiões do país, algumas vezes o artigo definido “os” é pronunciado ois. Essa pronúncia por vezes invade até os meios de comunicações. O Blogueiro lembra de uma série de tevê, cujo apresentador dizia, logo no começo, Ois intocáveis. E ninguém reparava, a não ser os professores de português. Isso não quer dizer que em documentos, contratos, correspondência oficial e comercial se possa escrever ois. Não se pode, não. O mesmo ocorre com outras palavras. Os estudantes, muitas vezes, dizem Vou fazer hoje uma prova de portugueis. É claro que, na prova, escreverão português. Fato semelhante ocorre com palavras como arroz, propôs, após, etc.

O caso dos verbos na terceira pessoa do plural é também sintomático, porque a escrita não condiz nunca com a fala. Ao dizermos Eles andam, não pronunciamos a última sílaba apenas como um “a” nasal, mas como um ditongo nasal: ão. Os professores da primeira série do ensino fundamental sofrem verdadeiramente para fazer com que os alunos entendam que existe nesses casos uma diferença entre fala e escrita. O mesmo ocorre com a terminação –em num exemplo como Quero que eles contem.

O problema se torna mais perigoso com palavras como inebriante, inelegível, insinuar, que algumas pessoas costumam pronunciar: enebriante, enelegível, ensinuar. Você pode eventualmente até pronunciar assim, mas jamais escrever com e inicial.

Aqui chegamos a um ponto que merece ainda mais cuidado, o de certos encontros vocálicos que, na pronúncia corriqueira, mesmo no discurso formal, aparecem diferenciados da escrita. Você por certo pronuncia, como todos nós, rítimo, embora a escrita aceite apenas ritmo. O mesmo vale para palavras como admirar, psicologia, advogado, observar, abjeto, objeto, objetivo, etc., que muitas pessoas (por vezes até mesmo nós) pronunciam: adimirar, pissicologia, adivogado ou adevogado, obisservar, abijeto, obijeto, obijetivo. É curioso, aliás, notar que o povo mais humilde costuma dizer Hoje vou lá no meu devogado, levando, portanto, a modificação oral um pouco mais longe.

Percebeu a necessidade de ficar de olho no que escreve, para não incorrer num desses deslizes de transferir a pronúncia erradamente para a escrita? É o que o Blogueiro queria alertar neste artigo.

 

 

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