Os verbos: fontes de ideias

De modo didático, os professores de português muitas vezes representam a oração como um sistema solar, com o verbo no centro e os complementos orbitando em torno. Esta imagem tem algum fundamento, pois no sistema da oração o verbo é realmente o ponto principal e em seu entorno, fortemente relacionados com ele, se alojam os complementos oracionais. Neste sentido, o próprio sujeito, que semanticamente é um dos principais elementos criadores e condutores do sentido, faz vassalagem ao verbo, principal condutor da oração.

A reflexão manifestada pelo Blogueiro no parágrafo anterior tem como objetivo alertar o estudante para a grande importância semântica do verbo, que pode, conforme o papel que venha a assumir, mudar completamente o sentido de uma oração. Note, por exemplo, o comportamento dos verbos aspirar e contar nos exemplos seguintes:

 

A menina aspirou com prazer o perfume da orquídea.

Meu filho aspira a um cargo de executivo numa empresa multinacional.

 

O caixa contou o dinheiro.

Meu pai contou uma lenda sobre o Capa-Preta.

 

Percebeu? Nos primeiros dois exemplos verifica-se a transformação do verbo aspirar de transitivo direto, com o sentido de cheirar, para transitivo indireto, com o sentido de desejar, objetivar, por meio da preposição a. Já nos dois exemplos seguintes, embora o verbo não mude de regência (em ambos os casos é transitivo direto), o sentido muda de uma frase para outra.

É esse um dos pontos que os professores têm mais dificuldade de explicar a seus alunos: em boa parte, talvez maioria, dos verbos pode haver significados diferentes com a mesma regência ou com regências diferentes.

Esse fato, embora à primeira vista pareça um complicador para suas redações ou respostas a questões discursivas, é na realidade uma fonte de riqueza expressiva: quanto maior variedade de significados de cada verbo você conhecer, maior a possibilidade de expressar-se com segurança e criatividade. Certo professor do Blogueiro dizia e repetia, em aulas, que a leitura do dicionário era uma de suas preferidas, porque aumentava seu poder verbal (ele era também jornalista que assinava artigos em jornais e revistas). Na verdade, o professor tinha muita razão: os dicionários não estão nas estantes, ou nos devedês, ou na mídia digital da internet para ser olhados de longe, são fontes permanentes de consulta e, como dizia o professor, leitura.

Observe, por exemplo, o que podemos extrair de dicionários sobre as regências e significados do verbo acusar:

 

O promotor acusou-os e pediu justiça.

O exame de sangue acusou a doença.

O delegado acusou-os do crime de lavagem de dinheiro.

Neste momento eu não acuso: apenas ouço seu depoimento.

Nenhum dos dois rapazes se acusou.

Notou como um simples e usual verbo pode acusar surpresas? No primeiro exemplo, acusar é transitivo direto (os, como você sabe, funciona como objeto direto) e significa imputar culpa. No segundo caso, o verbo continua transitivo direto, mas o significado é completamente diferente: acusar, nessa oração, significa revelar, apontar. No terceiro exemplo o verbo assume dois objetos: os, direto, e do crime de lavagem de dinheiro, indireto. Já no quarto exemplo o verbo acusar aparece como intransitivo, sem objeto, portanto, no sentido de incriminar, apontar falta. E na última oração o verbo volta a ser transitivo direto, mas com objeto direto reflexivo (o objeto representa o próprio sujeito): o significado passa a ser assumir a culpa, o erro, o crime, etc.

O Blogueiro acredita que, com os exemplos apresentados e os comentários feitos, você se interessou pelo tema e passou a valorizar mais os dicionários, não como meras fontes de informação produzidas por velhos pesquisadores, mas de aumento de conhecimentos e poder de expressão. Mãos à obra, quer dizer, aos verbos, portanto.

 

 

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