Expressão idiomática: uma faca de dois gumes

Alguém já aconselhou a “enfeitar” seus textos com expressões idiomáticas, quer da língua portuguesa, quer do latim? Ou você mesmo resolveu fazer isso? Então é bom ser cuidadoso. Enfeites mal empregados podem tornar-se atrapalhos, isto quando não revelam ignorância. Um bom exemplo que pessoas experientes nos dão é que só devemos fazer aquilo que revele nossa capacidade, não nossa ingenuidade. Isto em qualquer atividade que tenhamos, seja na escola, seja no trabalho, seja em nossas relações com amigos e familiares. Você por certo já ouviu um narrador de futebol ou vôlei ou basquete dizer de um atleta: tentou enfeitar e se deu mal.

A questão do uso das frases idiomáticas se encaixa na observação acima. É interessante empregá-las em nossos escritos ou até mesmo em nosso discurso oral? Claro que é. Mas empregá-las com cuidado e conhecimento do que estamos realmente dizendo. Se alguns colegas seus lhe disseram que empregar expressões latinas revela conhecimento, entenda isso com muita consciência do que está fazendo. Todas as línguas são ricas em expressões idiomáticas, e isso até dificulta o aprendizado por estrangeiros. Você por certo já se deparou com muitas delas em textos em inglês e pode ter passado dificuldades para entender alguma em prova, quando conseguiu entender. Para um falante de inglês, a mesma coisa ocorre com expressões idiomáticas em português. Imagine um novaiorquino tentando entender uma expressão como confundir alhos com bugalhos. Você mesmo, que fala português, entende?

Complicado, não é? Por isso, muito cuidado ao empregar expressões como esta, se continuar sem entender. Mas, se pesquisar e verificar pelo menos alguma explicação, como por exemplo a do fato de que a bolota, fruto do carvalho, quando descascada para fazer farinha, fica bastante semelhante, visualmente, ao alho, poderá compreender melhor que, confundir alhos com bugalhos significa confundir coisas que podem até ter certas semelhanças, mas são muito diferentes. Percebeu?

Nós assimilamos muitas expressões idiomáticas à medida que vamos aprendendo a falar, desde pequenos, e acabamos empregando todas elas adequadamente, sem problemas. No escrever, porém, é preciso ter bastante precaução para não cometer nenhum deslize que prejudique a compreensão do que estamos declarando.

Os comentários feitos até aqui são reveladores, não são? Então passe a examinar com muita atenção cada expressão idiomática que lhe escapa em seu texto. Se tiver dúvida, a internet atualmente tem sites que focalizam e muito bem essa questão. Verifique, só para exercitar-se, expressões usuais como abraço de tamanduá, levantar acampamento, provar por a+b, descascar um abacaxi, ter um parafuso a menos, engolir  sapos, procurar agulha em palheiro, ser algodão entre cristais, amigo da onça, angu de caroço, etc., etc.

E muito mais cautela você deve ter com o emprego de fraseologia latina. Alguns imaginam que o emprego de expressões típicas latinas revela intelectualidade e conhecimento. Revelará, se você houver estudado latim e souber realmente o significado original da expressão e o que quer atribuir a seu texto. Se não souber, é melhor esquecer. Infelizmente, hoje são poucas as pessoas, como o Blogueiro, que estudaram três ou mais anos de latim nos ensinos fundamental e médio e outro tanto em cursos universitários. Cada expressão originária do latim tem sua história, que adere indissoluvelmente a seu significado, como Jacta est alea ou Alea jacta est. Você talvez já tenha empregado, no sentido de “a sorte está lançada”, como comumente se entende. Alea se refere ao jogo de dados. Mas poderá empregar com muito mais certeza e competência se verificar a história por trás da expressão. Esta foi pronunciada, segundo informa o historiador latino Suetônio, por Júlio César, ao atravessar o rio Rubicão, que separava as províncias das Gálias do território romano. Ao atravessá-lo, César iniciava a guerra civil contra Pompeu, em busca do poder romano, o que veio realmente a acontecer.

Percebeu? Você pode até enriquecer seus textos com expressões como essa ou também mutatis mutandis, deus ex machina, dura lex sed lex, auctoritate legis, in abstracto, etc., etc. E também pode se valer de expressões idiomáticas em outras línguas, como inglês, francês ou espanhol. Tome porém muito cuidado para fazê-lo apropriadamente, de modo a enriquecer seu texto com tons de intelectualidade, e não empobrecê-lo com traços de ingenuidade. Não vá fazer como, segundo reza o foclore futebolístico brasileiro, aquele dirigente de clube que usou, em vez da expressão faca de dois gumes, a por ele mesmo inventada faca de dois legumes!   

 

Leave a Reply