Sinônimos: use e abuse!

Você por certo já fez muitos exercícios com sinônimos, desde o ensino fundamental. Os professores, acertadamente, o levaram a ver que, em vez de repetir desnecessariamente uma mesma palavra, podemos empregar outras que apresentam o mesmo ou quase o mesmo valor no contexto.

Esta é a questão: o mesmo ou quase o mesmo? Uma professora de linguística muito radical ralhou certa vez com o Blogueiro, que havia falado em sinônimos: Sinônimos não existem! disse ela, como quem encontra um menino roubando biscoitos da lata. O Blogueiro ficou ofendido pelo modo da repreensão e, para não deixar por menos, retrucou: Sim, mas nós os empregamos diariamente!

É claro que a professora tinha certa razão: não existem duas palavras com exatamente, 100%, o mesmo significado. Mas o Blogueiro também tinha parte da sua: em nosso uso tanto oral quanto escrito da língua, vivemos substituindo umas palavras por outras, sem que isso cause grandes males à nossa comunicação. Ao contrário, o emprego da sinonímia serve para evitar repetições que, ao fim e ao cabo, tornariam um texto muito fastidioso, de cansativa leitura.

O estudioso luso Rodrigues Lapa, em seu manual de Estilística Portuguesa, chama atenção para o fato de que há, entre os vocábulos que consideramos sinônimos, diferenças de sentido maiores ou menores. Exemplifica ele com a série: belo, lindo, formoso, bonito em exemplos como:

 

O lutador ergueu-se, belo como uma estátua.

Eram duas raparigas, qual delas a mais formosa.

Simples e linda, a noiva saía da igreja.

Laura trazia um bonito vestido de seda azul.

 

Evidentemente, examinando à primeira vista, notamos que entre estas quatro palavras as diferenças de significação podem ser maiores ou menores, particularmente nas frases dadas. Isso significaria que não podem ser usadas como sinônimas? Nada disso. Significa apenas que em determinadas frases ou contextos, podemos usar umas pelas outras, sem grande prejuízo de significação, mas até com ganhos expressivos. O mesmo se pode dizer para outra série, como casa, residência, lar, domicílio, morada, moradia. Cada uma delas tem sua própria característica e até domínio de uso, mas a grande semelhança de sentido permite alterná-las em muitos contextos. Se queremos ressaltar o aspecto afetivo, dizemos: meu lar; se o aspecto particular: minha casa; se o aspecto jurídico: meu domicílio. Essa possibilidade de alternância é provocada por outro aspecto importante da língua: o acúmulo de usos e significados por uma palavra. Observe o exemplo fornecido por Lapa:

 

A cabeça é a parte superior do corpo.

Toda gente o louva: é uma grande cabeça.

Sabia de cabeça todos os versos do poema.

Ele vinha à cabeça de todos os concorrentes.

Essa vila é a cabeça da comarca.

Pagaram dez tostões por cabeça.

Feriu-se na cabeça do dedo.

O cabeça da conspiração foi aprisionado.

Isso não tem pés nem cabeça.

Deu-lhe agora na cabeça fazer versos.

Cada cabeça, cada sentença.

Então perdeu por completo a cabeça.

 

Deu para notar? Em cada frase, a palavra cabeça assume um sentido diferente, demonstrando a riqueza semântica da palavra. Isso ocorre com muitíssimas outras palavras do idioma, o que abre campo imenso para a conquista de expressividade, tal como ocorre com o emprego dos sinônimos.

Os grandes escritores são muito hábeis, de fato, no emprego dos sinônimos, sabendo o que extrair, em  termos expressivos, de cada exemplo. Mire-se no exemplo deles e passe a observar melhor seu texto, evitando repetições desnecessárias, buscando palavras mais adequadas ao contexto de cada frase que usa. Isso ajudará em muito a tornar-se mais que um mero redator, mas o tornará um escritor capaz de produzir soluções criativas. Para começar, em cada um dos doze exemplos de emprego de cabeça, acima fornecidos, busque substituir esta palavra por outra ou por expressão equivalente. Experimente.   

 

 

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