Rimas e repetições: um horror!

O Blogueiro vem insistindo, nos artigos que posta, em aspectos estilísticos da redação. Observa sempre que não basta escrever de acordo com a norma-padrão, nem tampouco conforme as regras de ortografia e de gramática. Escrever vai muito além dessa base, requer cuidados com o estilo de quem cria o texto. Os grandes escritores são justamente aqueles que se distinguem por dominarem um estilo, um modo muito particular e pessoal de elaboração do texto, quer na criação dos períodos, quer na organização destes em parágrafos, quer nas escolhas vocabulares que faz.

Pois você tem também seu modo próprio de escrever, ou seja, seu estilo, que requer cuidados muito especiais e se vai elaborando e enriquecendo ao longo do tempo e de seu hábito de criar textos.

Que quer dizer, afinal, o Blogueiro? Muito simples: que um texto pode estar correto sob diferentes aspectos gramaticais e de coesão textual, mas ainda pode não estar satisfatório sob o ponto de vista estilístico. Observe, abaixo, um exemplo que um velho professor sempre apresentava, ao manifestar-se a seus alunos sobre o assunto:

 

Cruz! Faltou a luz quando eu propus a solução que não reduz a produção.

 

É claro que todos os alunos (o Blogueiro entre eles) riam bastante, em função do exagero da frase apresentada, que está cheia de rimas. Alguns alunos diziam que jamais diriam ou escreveriam uma frase como aquela. Será? Na verdade, o que o velho professor queria alertar era simples: o perigo que a língua portuguesa apresenta em função do grande número de palavras terminadas em –uz, -us e em -ão. Essa profusão de vocábulos nos faz cair muitas vezes em armadilhas como a que gerou o exemplo apresentado. O português, além disso, possui também numerosas palavras terminadas em –ente, -ida, -ido, -indo, -ando, -endo, etc., etc. Cair na armadilha dos ecos e das rimas, por isso, é muito fácil. Todo o cuidado é pouco para evitar essas repetições que empobrecem estilisticamente nosso texto.

Você poderá dizer que isso não acontece mais hoje. Claríssimo que acontece. O Blogueiro escreveu este artigo exatamente por ter sido provocado pela leitura de notícias de jornais publicadas na rede. Observe os dois exemplos abaixo, encontrados nos últimos dias (algumas palavras foram mudadas, para evitar reclamações):

 

Acompanhou, par e passo, cada passo do andamento dessa operação.

De propriedade do empresário, que também foi denunciado, a indústria foi, segundo o promotor, o canal utilizado para receber e distribuir a propina.

 

Notou? Na primeira frase, o jornalista, para mostrar competência no escrever, se deu ao luxo de empregar a locução par e passo, quando deveria empregar pari passu, expressão latina que significa simultaneamente, a passo igual. E escorregou também ao empregar novamente a palavra passo na sequência, o que criou um eco indesejável. Com um pouco mais de cuidado, perceberia que poderia substituir pari passu por a passo igual ou por simultaneamente, ao mesmo tempo. Ou então deixar pari passu e substituir cada passo por cada fase.

Já na segunda frase, temos a repetição indesejável e desnecessária da forma verbal foi, quando seria muito fácil substituir que também foi denunciado por também denunciado, o que deixaria até mais leve a sequência. E assim poderiam ser feitas outras modificações para evitar o eco entre as duas formas verbais. Note também a rima entre denunciado e utilizado, que poderia ser evitada com a substituição de uma dessas duas formas por outra com diferente terminação.

Pois é. O Blogueiro tem certeza de que você entendeu direitinho os recados: primeiro, evitar repetições desnecessárias, que geram ecos e rimas em seu texto; segundo, não tentar demonstrar competência no emprego de certas expressões, particularmente de origem latina, se não tem plena certeza do que está fazendo.

Conclusão: ter estilo não significa exibir-se, mas ser autêntico, fazer com que seu texto reflita exatamente quem você é. Valeu?

 

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