Literatura é para ler!

O Blogueiro, quando ainda começava a carreira, ouvia um colega, da área de Exatas, dizer e repetir: Gente! Literatura não é para estudar. É para ler!

A frase vinha no meio de discussões sobre a importância dos estudos literários nos ensinos fundamental e médio, bem como universitário. E o colega, de fato, queria chamar a atenção para o erro de perspectiva que por vezes as escolas cometem, obrigando os estudantes a pesquisar em obras literárias temas como personagens, enredo, espaço, tempo, etc., etc. O colega, professor de matemática, era o maior crítico desse sistema de ensino, sempre afirmando que os textos literários, uma vez lidos, eram ensinamentos por si mesmos, sem necessidade de ficar, como ele dizia, escarafunchando a estrutura das obras, o que só fazia os estudantes desgotarem da leitura e do hábito de ler. A garotada precisa gostar de ler, e não de fazer a análise das obras! dizia ele.

Não se pode deixar de dar razão, ainda hoje, ao colega. Nos próprios vestibulares, nem sempre as obras são focalizadas como tais, nem é verificado o importante: se os candidatos realmente as leram. Algumas universidades colocam, para seus vestibulares, relações de obras literárias, e isso é quase sempre justificado como incentivo à prática da leitura. Seria, quase sempre, mas quase sempre não é. Basta sair uma nova relação de obras para o vestibular de uma universidade e logo toda uma série de livrinhos surge com interpretações de todas elas, de sorte que, frequentemente, os estudantes, em vez de lerem as obras, apenas lêm os livros que as analisam e interpretam para “facilitar” o trabalho dos estudantes. Na verdade, o resultado é afastar os estudantes do verdadeiro prazer da leitura.

Nada mais contraproducente. Se você se enquadra nesses leitores de livros sobre obras literárias, mude seu foco. Pode até ler. Mas, antes, leia integralmente as obras literárias focalizadas. É neste sentido que o colega do Blogueiro dizia que literatura é para ler, não para estudar. Nem mil livros de crítica e interpretação juntos conseguem nos revelar o que uma obra de Machado de Assis, de Saramago, de Gonçalves Dias, de Fernando Pessoa nos revela à simples leitura. Os livrinhos que circulam por aí apresentando análise e interpretação das obras não passam de meros simulacros, tentativas sempre frustradas de substituir o insubstituível. Como foi dito acima, você pode até se servir desses livrinhos, depois que fizer a leitura das obras, para auxiliá-lo a observar melhor este ou aquele detalhe que poderá ser focalizado numa prova. Apenas isso.

Diria hoje aquele colega, com muita razão, que uma canção é criada para ser ouvida, uma pintura é criada para ser vista, um romance é criado para ser lido. Nada pode substituir o que denominamos, singelamente, contemplação da obra de arte, já que ela é destinada exatamente a isso.

Você deve ter inferido, com os comentários do Blogueiro, que o hábito da leitura não é um fato para morrer após os vestibulares, mas, ao contrário, algo que levará para toda a sua vida, algo que o fará experimentar conhecimentos e emoções sobre a própria natureza do ser humano. A literatura revela, por meio do discurso, a humanidade verdadeira e autêntica. Perguntas em exames vestibulares e concursos são meros incidentes que não devem afastá-lo do hábito de fruição das próprias obras, ou seja, um hábito formador, um modo de refletir permanentemente sobre o mundo, a vida e a relação entre o homem e o universo.

É claro que você não quer ser para sempre um iletrado. Pense bastante nisso!

 

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