Afinal, que é um parágrafo?

Alguns estudiosos costumam comparar o parágrafo, entendido como unidade de um texto em prosa, com a estrofe, unidade de um texto em verso. É fácil entender a estrofe como unidade do texto em verso. Num soneto, por exemplo, verificamos com facilidade que a separação dos versos em quatro conjuntos, dois de quatro versos (quadras ou quartetos) e dois de três versos (tercetos) não é arbtrária, mas corresponde a quatro planos de significado, unidos numa sequência semântica da qual o último terceto encerra a chamada chave de ouro, magnífica conclusão do poema. Leia qualquer soneto de Camões, de Bocage ou de Gregório de Matos para verificar esse fato.

O problema, porém, é o parágrafo. Sua comparação com a estrofe não é lá muito fundamentada: são fenômenos bastante diferentes. Muitos estudiosos já tentaram estabelecer uma teoria do parágrafo, mas fracassaram, não tendo conseguido ir além do fato de que há certa unidade de sentido em cada um deles na sequência que os faz constituir um texto.

Isso é muito pouco e pouco preciso, os escritores que o digam! Se houvesse indicadores exatos de quando sair de um parágrafo para outro, o problema nem existiria, mas, na verdade, não há. As lições que lemos a respeito em livros sobre redação nos dizem que devemos sentir, de certo modo intuir o ponto em que um parágrafo se encerra e se inicia outro. Acrescentam que cada parágrafo é uma unidade de sentido. Não há, entretanto, normas e regras invariáveis para paragrafar. E é justamente por isso que, quando saímos dos livros e apostilas para o ato de criação de um texto, temos dúvidas e mais dúvidas. Que fazer?

O primeiro ponto a extrair dos comentários acima é que não há critérios cem por cento objetivos para elaborarmos a divisão de um texto em parágrafos. O segundo, que cada um deve perceber por si mesmo, conforme a sequência de períodos que vai gerando o texto, o momento de fazer a transição, iniciando um novo parágrafo. A verdadeira unidade de um texto, neste sentido, é o período. É a sequência de períodos que vai conduzindo o sentido de um texto para o seu encerramento. Os parágrafos são conjuntos de períodos estabelecidos de acordo com o que vai percebendo o escritor à medida em que escreve. É por esse motivo que encontramos textos em que predominam extensos parágrafos e outros em que os parágrafos apresentam formas mais variadas.

Para falar francamente, os parágrafos de um texto poderiam ser até suprimidos, escrevendo-se tudo numa só sequência, sem qualquer prejuízo para o significado global e unitário de um texto. É o que, aliás, alguns escritores experimentaram fazer, na modernidade, excluindo a divisão de narrativas em parágrafos e até mesmo suprimindo sinais como o travessão de diálogo e as aspas. É claro que você não vai fazer isso em sua redação de concurso ou de vestibular, pois não está de fato criando uma narrativa literária. O melhor caminho, portanto, é seguir mesmo sua própria percepção do texto que vai sendo criado e dividi-lo em parágrafos que se ajustem melhor à sequência, até mesmo para facilitar o trabalho do seu leitor.

Quer saber de uma coisa? Não se preocupe muito com a exatidão da divisão em parágrafos, mesmo porque esta não existe, mas siga sempre seu próprio julgamento, ou, como dizem os ingleses, seu feeling. É isso aí!

 

 

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