Muito cuidado com os senões

Usos bastante comuns na fala corriqueira podem, na escrita, causar confusões bastante perigosas. Isto se explica pelo fato de que a escrita acrescenta aspectos de que a fala não tem nenhuma necessidade.

A todo instante você emprega, por exemplo, a palavra senão, que pode funcionar na frase como substantivo, preposição, conjunção. É claro que você não se dá conta disso quando fala, nem tampouco quando escreve: simplesmente fala e simplesmente escreve. Na fala, por isso, nada a comentar. Mas na escrita… bom, aí teremos outra estória. Por isso, você acaba sendo obrigado a perceber que há diferença relevante entre senão e se não.

O Dicionário Aurélio exemplifica muito bem os usos de senão:

Nenhum senão no todo dela existe. (Vale dizer: nenhum defeito, nenhuma mancha, nenhuma mácula. Senão, neste exemplo, é um substantivo, cujo plural é senões).

Ninguém senão os irmãos Correias compareceu à cerimônia. (Vale dizer: ninguém exceto os irmãos Correias, ninguém salvo os irmãos Correias, ninguém a não ser os irmãos Correias. Senão, neste exemplo, funciona como preposição).

Lute, senão está perdido. (Vale dizer: de outro modo está perdido, caso contrário está perdido. Senão, neste exemplo, funciona como conjunção).

 

Se fosse apenas isso, não haveria grandes problemas, não é? Você já estudou bastante estes usos e sabe como resolver as eventuais dúvidas. Na fala, você não se dá conta de haver qualquer problema, pois a pronúncia é a mesma, embora o sentido seja diferente. A dúvida ocorre na escrita, em que surge uma nova personagem, que tem o dom de atrapalhar tudo no enredo: se não. Observe os exemplos:

 

Se não entregar a obra na data combinada, o contrato será rescindido. (Vale dizer: caso não entregue a obra na data combinada. O se, neste emprego, é uma conjunção condicional).

Quero saber se não irão entregar a obra na data combinada. (Vale dizer: quero saber se acaso, se por acaso, se porventura. Se, neste exemplo, é uma conjunção integrante).

 

E agora? Como escapar dessa enrascada? Conselho amigo do Blogueiro: se não quer se aprofundar nesses conhecimentos, mas tão somente não errar, deixe senão de lado; preocupe-se apenas em ter certeza do emprego de se não. O raciocínio até parece simplório, mas é verdadeiro: se souber distinguir com certeza o emprego de se não, tudo o mais será senão.

Captou? Então, mãos à obra, digo, ao se não, para não mais se equivocar em distingui-lo de senão. Valeu?

 

Leave a Reply