Você que entra, você que vai entrar, cuidado com o o

Este artigo serve aos estudantes que já ingressaram, aos que estão para ingressar e aos que ingressarão após os exames deste ano. Trata-se de um probleminha que pode virar um problemão em tudo o que você escreve sobre qualquer assunto. A internet está cheia de exemplos, mesmo em textos jornalísticos, que, por necessidade, obedecem à norma-padrão.

Em dois artigos de diferentes jornais online o Blogueiro foi surpreendido hoje pelo emprego errado, baseado num equívoco de sintaxe dos jornalistas, ou, quem sabe? causado por um digitador e um revisor distraídos. Observe o exemplo abaixo, forjado pelo Blogueiro para evitar constrangimentos:

 

Estava numa posição que o permitiu fazer experiências com novos produtos.

 

Reparou? O Blogueiro já perdeu a conta das vezes em que alertou para o erro crasso de trocar o pronome oblíquo lhe pelo pronome oblíquo o. Mas a todo instante se surpreende, nos sites dos melhores jornais do país, com essa pavorosa troca. Pavorosa, porque não se trata apenas de trocar alhos por bugalhos, como diria o povo, mas de estraçalhar a sintaxe do idioma. Até hoje, muitos usuários da rede, inclusive profissionais, demonstram com tais equívocos não dominarem bem a diferença entre objeto direto e objeto indireto. Isso é péssimo, e pode até alterar brutalmente o sentido de um período.

Vamos, então, repetir a velha liçãozinha a respeito. Objetos diretos, quando substituídos pelos pronomes pessoais do caso oblíquo, assumem as formas o, a, os, as, eventualmente com as seguintes variantes lo, la, los, las, no, na, nos, nas, provocadas pela relação entre os finais das formas verbais e tais pronomes. Assim, o objeto direto da oração Comprei o livro pode ser substituído pelo pronome o: Comprei-o. Se a forma verbal fosse, porém, compramos, seria usada a variante: Compramo-lo. No caso de ser a forma verbal compraram, teríamos: Compraram-no. No caso, porém, de se tratar de objeto indireto precedido pela preposição a, a forma pronominal oblíqua será: lhe, lhes. Assim, numa oração como Pedro obedeceu ao pai, o objeto indireto ao pai pode ser substituído por lhe: Pedro obedeceu-lhe.

Aí é que nasce o probleminha que pode virar problemão: colocar, quando se trata de lhe, a forma o, ou vice-versa. É exatamente o que ocorre no primeiro exemplo dado:

 

Estava numa posição que o permitiu fazer experiências com novos produtos.

 

Supondo que esse o corresponda, por exemplo, a Pedro, O redator desta frase deveria ter empregado a forma lhe, que corresponde a a Pedro, e não o:

Estava numa posição que lhe permitiu fazer experiências com novos produtos.

Percebeu a diferença e o perigo dessa má troca? Claro que sim. Então, trate de comprovar, em suas leituras pela internet e até mesmo por jornais e revistas comuns em papel, como esse tipo de equívoco é corriqueiro. Bons escritores não caem nessa, como se observa neste belo exemplo fornecido pelo Dicionário Aurélio no verbete permitir:

 

“A atenção dedicada ao fenômeno linguístico, considerado em si mesmo, permitiu a Machado de Assis aproveitá-lo ao máximo em sua obra de ficção.” (Maria Nazaré LIns Soares, Machado de Assis e a análise da expressão, p. 99).

 

Notou a diferença? A escritora poderia inclusive ter colocado a forma lhe em lugar de Machado de Assis, não o fazendo, porém, por julgar melhor para o período a expressão do nome próprio.

Siga, portanto, os bons exemplos, e não caia nessa onda de erros de textos da internet. Pode serem grandes jornalistas, figuras ilustres da mídia ou profissionais semelhantes, se trocarem lhe por o, têm de ser corrigidas, e não seguidas. A fama não lhes dá o direito de alterar os padrões da língua. Valeu? Então compreendeu que está numa posição que lhe permite aperfeiçoar seu próprio estilo de escrever, fazer experiências com seu idioma, mas nunca a ponto de desafiar o que há muito está consolidado? Mãos à obra!

 

 

 

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