Arquivo de junho de 2019

Vocábulos e conceitos

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Você já parou para pensar seriamente na relação entre vocábulo e conceito? Seus professores com certeza tocaram algumas vezes no assunto, para que você e seus colegas melhorassem seu desempenho de redação.

O Blogueiro vai tentar mostrar essa relação de outro modo, para que você a domine ainda mais. Observe que, quando escreve, os conteúdos são transportados por meio dos vocábulos de que se serve, organizados dentro das estruturas sintáticas denominadas termos, orações, períodos, textos.   Ora, se você domina poucos conceitos sobre determinado tema, pode imaginar que terá dificuldades em obter com sucesso total essa expressão, não é? Com base em constatações como esta, pode entender que, para dominar a capacidade de redação, terá de dominar também o máximo possível de conceitos expressos pelos vocábulos.

Imagine uma pessoa que nunca ligou para futebol nem fez questão de assistir a qualquer partida. De repente, lhe pedem para escrever uma redação sobre a Copa América. É claro que não saberá, pois o futebol não é apenas uma área de esporte e de lazer, mas um campo muito vasto de conceitos expressos por vocábulos especializados. Esta é a questão. Quando nos comunicamos, comunicamos a nossa visão das coisas do mundo por meio dos conceitos que as envolvem. Quanto mais conhecemos uma área de conhecimento, de ação, de atuação, de divertimento, de esporte, de arte, de política, etc., etc., mais dominamos palavras que carregam os conceitos dessas áreas e mais capazes nos tornamos de dialogar, debater, escrever sobre elas. Cultura, neste sentido, corresponde exatamente a esse conhecimento. Quanto mais culto um ser humano, mais preparado se revela sobre os campos da experiência humana.

Todas estas observações conduzem a uma conclusão: saber falar ou escrever com competência implica o domínio do máximo possível de vocábulos que expressam o máximo possível de conceitos de diferentes áreas do conhecimento humano. Justamente por isso, em todo o ensino fundamental e médio, você foi estimulado a trabalhar com exercícios adequados a aumentar seu vocabulário e a perceber que um vocábulo pode expressar diversos conceitos diferentes. Mas não bastou o que você fez na escola. É preciso continuar adquirindo vocabulário permanentemente, pelas leituras de livros de diferentes áreas e pela consulta permanente dos dicionários. Não apenas, portanto, a leitura de livros de literatura, mas de todos os campos do conhecimento, até mesmo daqueles que você não aprecia muito.

Por outro lado, é preciso também exercitar-se no domínio daqueles vocábulos que, por largo uso, acumulam a expressão de conceitos diversos e por vezes conflitantes, como por exemplo democracia. Consulte o dicionário e perceba esse fato. Fazendo isso com este e outros vocábulos, você evitará cometer erros em sua expressão, quer oral, quer escrita.

Compreendeu bem? Então mãos à obra, vale dizer, aos vocábulos e conceitos.

 

Como fazer prova de questões objetivas

terça-feira, 25 de junho de 2019

Os sites sobre vestibulares estão repletos de indicações sobre como fazer uma prova de questões objetivas. Você, porém, nem sempre consegue seguir tais conselhos, porque cada pessoa tem um modo particular, todo seu, de encarar as provas. É difícil, portanto, aderir a uma linha de ação proposta de fora, porque, entre outras coisas, exige treinamento adequado.

O Blogueiro não tem, por isso, a pretensão de dar conselhos salvadores a esse respeito, mas, talvez, iluminar um pouco suas ações nas provas. E faz isso com base em sua própria experiência, que pode ser útil para a sua reflexão. Alguns anos atrás, teve ele de prestar um concurso com a duração de quatro horas, que exigia 100 questões objetivas e uma dissertação sobre tema sorteado na hora. Difícil, não é? Sim, nem tanto pela matéria, pelos conteúdos, e mais pela exiguidade do tempo destinado para tal. Quatro horas já é muito pouco para uma prova de cem questões. Imagine agora que essas questões dividam o tempo com uma dissertação. Mesmo conhecendo e dominando o tema sorteado, não é fácil escrever uma redação de concurso em duas horas, pelo menos uma redação que mereça obter nota alta da banca de correção.

Pois é. O Blogueiro, por essa época, estava acostumado a fazer provas objetivas de uma assentada só, sem retornar. Era o seu método. Quando se trata desse tipo de questões, os prognósticos podem ser: sei, não sei, talvez saiba uma parte. E as respostas consistem em acertar ou errar, já que, mesmo conhecendo uma parte, a questão objetiva não dá margem para mais ou menos: ou está certa a resposta ou não está.

Ao planejar sua prova, sem esperança de que fosse concedido mais tempo, depois de muito refletir, o Blogueiro decidiu que tinha de alterar sua prática anterior de responder direto sem deixar nenhuma questão sem resposta. Então decidiu fazer o seguinte: responder as questões que sabia e deixar em branco as que não sabia. Depois, voltar para essas questões deixadas em branco e dedicar um pouco mais de esforço para tentar acertar algumas. Por quê? O estresse de responder a tantas questões pode causar alguns “brancos” e esquecimentos. O tempo restante caberia à dissertação, torcendo, é claro, para que o tema sorteado fosse bom de desenvolver. Vale observar que estava preparadíssimo para a prova, tendo estudado com atenção toda a bibliografia e toda a lista de pontos. Numa prova de questões discursivas tinha certeza de se sair muito bem, mas, em se tratando de questões objetivas, um plano equivocado poderia custar-lhe muitos pontos a menos.

No dia aprazado, quando iniciou sua prova, o Blogueiro pôs seu plano em execução. Das cem questões tinha certeza de ter acertado setenta e estava em dúvida em pelo menos umas vinte. Respondeu as setenta e voltou a examinar as trinta restantes. Acabou por descobrir as respostas de quinze e não descobriu as das outras quinze. Havia sobrado uma hora e cinquenta minutos para a dissertação, cujo tema felizmente dominava muito bem, pois havia lido um livro que tratava exatamente daquele tema. Não deu tempo para fazer rascunho. A um minuto para o recolhimento das provas, terminou. Ficou, assim, mais preocupado com a dissertação do que com as questões objetivas.

Alguns dias depois, o resultado: havia acertado oitenta e cinco questões objetivas e tirado cinco na dissertação, obtendo uma nota final de 9,25. O plano tinha funcionado a contento. Os colegas, alguns seriamente, outros por brincadeira, o chamaram de “gênio”. Gênio nada, respondeu ele, em concursos e vestibulares, tudo é questão de preparação e planejamento, inclusive do modo de fazer a prova.

Por essa história verídica, você pode verificar que, ao fim e ao cabo, quem decide como vai fazer sua prova de questões objetivas é você. E o fará de acordo com seu próprio modo de ser, com seu estilo de prestar provas, com sua preparação, em contraste com o tipo e o tamanho da prova. Às vezes é melhor responder tudo de uma vez; em outras, vale deixar as que não sabe em branco e retornar para uma nova tentativa. Ocorre muito em provas estar respondendo lá à frente e surgir na memória a resposta de outras que pensávamos não saber.

Pense nisso. Siga seu próprio modo de considerar e responder as questões. Depois, planeje. E faça boas provas.

 

Evitar subjetividades

terça-feira, 11 de junho de 2019

Você aprendeu nos longos anos de ensino fundamental e médio dois conceitos que se tornam muito importantes em trabalhos de pesquisa, tarefas, provas, concursos, vestibulares: subjetivo e objetivo. Estas duas palavrinhas são bastante usadas, mas nem sempre de acordo com os conceitos que devem expressar.

Subjetivo se refere ao que é muito pessoal, particular, relativo ao sujeito, que envolve sua visão, suas atividades psíquicas particulares, seus desejos, suas emoções e sentimentos. Quando dizemos que a opinião de um colega é muito subjetiva, estamos querendo significar que é produto dessa visão individual, exclusivamente dele, que vale apenas para ele. Já objetivo é bastante diferente, refere-se ao que é válido para todos, e não apenas para um só indivíduo, àquilo que é determinado por lógica, por critérios científicos, não por visões pessoais.

Pois é. Poderíamos escrever ainda muito sobre as diferenças entre objetivo e subjetivo, mas o que está explicado acima já basta para que você perceba o cuidado que deve ter com manifestações subjetivas em suas provas. Ao responder uma pergunta, não interessa o que você “acha”, mas o que a pergunta quer que você encontre no enunciado da questão e eventualmente no texto em que este se baseia. Seja objetivo, disseram todo o tempo seus professores, e estavam certíssimos.

Justamente por essas razões, tome bastante cuidado em não deixar escapar palavras ou expressões ou até mesmo opiniões pessoais, subjetivas, quando o alvo da questão é uma resposta clara, precisa, objetiva, que não valha apenas para você, mas para todos. Deste modo, manifestações como “eu acho que…”, “eu creio que…”, “imagino que…” são perniciosas em suas respostas e, mesmo, em suas redações. Tais manifestações são tipicamente pessoais, individuais, particulares. Com toda a certeza uma pergunta de concurso ou de vestibular não quer saber o que você acha, mas o que é solicitado como resposta.

Outra escorregadela de subjetividade muito perigosa é o vício de empregar o futuro do pretérito do indicativo. Entre outros significados, este tempo e modo verbal indica uma ação potencial, possível, provável. Formas verbais como seria, poderia, indicaria, etc., podem anular uma resposta, porque não significam que alguma coisa seja, mas que pode ser ou não ser. Resposta assim não responde absolutamente nada.

Finalmente, é bom também tomar cuidado, pelo conteúdo que encerram, com advérbios como talvez, porventura, possivelmente, etc., pois atribuem a mesma forma de indefinição a suas respostas.

Percebeu? Não é não. Sim é sim. Pode ser não equivale a é. Seja preciso. Seja claro. Seja objetivo. Valeu?

 

A norma padrão: para quê?

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Você muitas vezes se pergunta por que tanto falam os professores na norma da língua portuguesa: Afinal, ela é tão importante assim? Por que não posso escrever do meu jeito, como eu gosto?

Nem tudo pode ser como queremos, mas como temos de fazer. A questão da norma é uma dessas coisas que independe de nossa vontade. Afinal, o que é a norma? Para que serve?

Pense um pouquinho. Toda língua, do passado ou do presente, não importa qual, não possui apenas uma forma de realização. A língua falada se diferencia em seu emprego em diferentes formas conforme a região e conforme o nível social. Você já prestou atenção no modo de falar dos nordestinos e o comparou com o dos gaúchos? Ou o dos paulistas? Claro que sim. E já percebeu que há diferenças notáveis, embora se trate da mesma língua portuguesa. As línguas faladas no mundo inteiro não são diferentes. Em Portugal, por exemplo, a mesma língua portuguesa apresenta variações muito grandes conforme a região em que seja falada.

Quando usamos o português em nosso lar, em nossas relações com os parentes e amigos próximos, usamos também uma variedade, a que é chamada usualmente português coloquial. Mas essa mesma variedade não é empregada em todo o país, mas só em seu meio. E nesse ponto é que surge o problema: o país também precisa de uma variedade falada e escrita que seja aceita em todas as regiões, em todas as comunicações oficiais, jornalísticas, profissionais, que os professores possam usar e ensinar em sala de aula e as instituições exijam nos concursos e exames vestibulares. Esta é a que denominamos norma-padrão. Antigamente se dava o nome de norma culta, mas isso não pegava muito bem, porque não se trata propriamente de uma variedade mais culta, mas de uma variedade mais ampla, de maior alcance.

A norma-padrão, assim, é um dos laços que serve para unir o país numa consciência de totalidade. Na mídia, por exemplo, nas televisões, os jornalistas a empregam de norte a sul e de leste a oeste.

Exatamente por isso também se coloca a questão da ascensão social e profissional dos cidadãos. A norma-padrão é um dos instrumentos para essa ascensão. Você, uma vez formado, se tiver de trabalhar no Ceará, não utilizará em suas atividades profissionais nosso modo de falar regional do estado de São Paulo, mas a norma-padrão, tanto em sua fala como em sua escrita. Ela é seu instrumento de trabalho como tantos outros.

Percebeu agora a importância da norma-padrão? Cremos que sim. Então trate de caprichar ainda mais em seu domínio, porque ela o acompanhará pela vida toda.