Arquivo de maio de 2019

A vírgula, amiga ou inimiga?

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Quem vai fazer prova discursiva, para responder a questões e elaborar uma redação, tem de tomar muitas cautelas com relação à vírgula. As regras de pontuação falam em ponto, ponto final, ponto e vírgula, dois pontos, ponto de interrogação, de exclamação, etc., etc.  Mas, de todos, realmente, a vírgula é o mais importante, porque mais empregada e porque define muitos sentidos para um texto.

Sendo o sinal de pontuação mais empregado, evidentemente é aquele com que o estudante deve mais se preocupar, pois as possibilidades de equívocos, por vezes inesperados, são muito fortes e de consequências péssimas. Um velho mas enfático exemplo disso é a historinha, provavelmente folclórica, da comutação de pena de morte pelo presidente de certo país. O condenado seria executado em horas e seu advogado pediu comutação da pena, para ser transformada em perpétua. O presidente se apiedou e, percebendo que as acusações tinham alguns problemas, resolveu transformar a pena em prisão perpétua e telegrafou ao diretor do presídio para não executar o réu. O funcionário que transcreveu o telegrama, porém, colocou uma vírgula onde não era necessária, e a mensagem, que era Não execute, transformou-se em Não, execute. A vírgula, colocada por engano, alterou para o oposto o sentido da frase.

Embora possa se tratar apenas de uma anedota, o exemplo é bem sintomático sobre a importância da vírgula, não é? E acaba se tornando um padrão, pois muitas outras frases podem sofrer idêntico equívoco: Não pense, com vírgula, pode transformar-se em Não, pense; Não corra, com vírgula, torna-se Não, corra. E assim por diante. Este sinalzinho, portanto, apesar de muito pequeno, encerra muitas armadilhas.

Por isso mesmo, dedique atenção às propriedades da vírgula, especialmente àquelas que podem prejudicar ou até inviabilizar uma oração ou um período inteiro de seu texto de redação ou de resposta discursiva. Um erro bastante apontado, criticado e penalizado em correções de concursos e vestibulares é o de colocar a vírgula entre o sujeito e o predicado. Não faça isso jamais. A relação entre o sujeito e o predicado nas orações é indissolúvel, os dois termos são inseparáveis. Dizer, por exemplo, O candidato fez, a prova é um lapso lamentável. O correto será sempre O candidato fez a prova. Tome bastante cuidado para não colocar distraidamente a vírgula nesses casos. O mesmo se pode dizer da relação entre o verbo e seus complementos; são inseparáveis e não admitem vírgula, como por exemplo: Meu amigo comprou, muitos livros. Errado. O certo é Meu amigo comprou muitos livros. Pode surgir a vírgula, porém, em caso de elipse, para não repetir o verbo numa segunda oração: Meu amigo comprou muitos livros; sua esposa, muitas canetas. A vírgula, neste exemplo sinaliza a omissão do verbo.

Muito cuidado também em certas enumerações de termos separados por vírgula. O último deles não deve ser virgulado: Pedro comprou computadores, laptops, tablets e celulares, do importador. Errado. O último termo desse tipo de enumeração não deve ser virgulado, para não ter interrompida a relação da série enumerativa com o verbo. O correto, pois, será: Pedro comprou computadores, laptops, tablets e celulares do importador.

Percebeu? O Blogueiro apontou apenas alguns exemplos da importância e dos riscos da vírgula. Trate de dar uma boa revisada em livros sobre o assunto, para não cometer nenhuma “mancada” em suas provas.

Pois é. A vírgula, pode crer, é uma boa amiga do texto. Mas pode ser uma  terrível inimiga. Boas provas!

 

 

 

Caligrafia: bela escrita

segunda-feira, 13 de maio de 2019

O Blogueiro já tem explorado esse tema algumas vezes, para alertar os candidatos sobre os perigos de grafar mal.

Antigamente, os professores do ensino fundamental insistiam bastante em exercícios de caligrafia, para que os alunos tivessem letra pelo menos clara e legível. Evidentemente, nem todos os estudantes têm o dom de escrever letras como se desenhassem, que fazem um texto manuscrito perfeito. Alguns têm mesmo letra mais bela que a dos próprios professores.

Houve uma época, porém, sabe-se lá se vinda de fontes oficiais, sabe-se lá se inventada pelos próprios estudantes, em que se dizia que a caligrafia não importa, já que a letra é uma característica da personalidade do próprio indivíduo. Nessa época, passou-se a dar menos importância ao traço das letras que à própria clareza. Isso foi péssimo. Os corretores de concursos e de vestibulares muitas vezes sofrem para “decifrar” as letras dos candidatos. Quando não o conseguem, a questão discursiva fica anulada, zerada. Nenhum corretor tem obrigação de ser especialista em decifrar enigmas, hieróglifos ou escrita cuneiforme.

Num tempo em que corrigiu redações, o Blogueiro se deparou com inúmeros exemplos de escrita tão personalizada, que, no fim, provavelmente, só o próprio candidato podia entender. Ou talvez até nem ele mesmo!

Falando sério, a estória de que a letra revela a personalidade do escritor só tem servido para prejudicar os próprios estudantes que aderem a essa tese bastante duvidosa. Na verdade, tudo o que fazemos revela a nossa personalidade: o modo como andamos, como nos vestimos, como nos comportamos, como seguramos o lápis ou a caneta, etc., etc. A letra é apenas uma parte dessa revelação. De fato, ninguém quer andar como um palhaço, vestir-se com desmazelo, comportar-se de modo ridículo. E ninguém deveria, também, desejar ter uma letra praticamente ilegível. Por quê? Porque ninguém quer reprovar em concurso ou vestibular. Desejamos passar, dar um show com nossas respostas, tirar notas muito altas. Mas isso não será possível se não formos entendidos no que escrevemos.

Se você é frequentemente advertido por seus garranchos, pode ter certeza de que sua letra vai mal. E, se não tomar providências, irá de mal a pior. Está na hora, portanto, de melhorar o curso e o contorno de suas letras, arrendondar o a e o o, botar o pingo nos is e nos jotas, deixar bem nítidos o g e o q, para que não possam ser confundidos, dar contorno adequado ao s final, arrendondar as curvas do m e do n, para que não se confundam com o u, etc., etc., etc. Nesse caminho, não pode haver preguiça. O objetivo final é ser plenamente entendido pelos corretores, para que não possa vir um desconto na média final que lhe levará embora a vaga. Vagas, como mais de uma vez disse o Blogueiro, se decidem por milésimos.

A melhor forma de afirmar sua personalidade é saber demonstrar, com o máximo de clareza, que sabe muito, que estudou bastante para chegar aonde chegou, uma prova muito bem feita, exemplar, elogiável. Busque esse objetivo. Se julgar necessário, faça até exercícios de caligrafia para um melhor desempenho. Pense que, atualmente, caligrafia não corresponde necessariamente a uma escrita bela, mas a uma escrita clara, perfeitamente inteligível à leitura de qualquer pessoa. Pense e execute. Ou espere alguns anos até que a tecnologia crie carteiras onde possa digitar suas provas discursivas, valendo lembrar que, nessa hipótese, você terá de treinar muito para ser um excelente digitador.

 

Cuidados com o verbo haver

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Outro dia um entrevistado na tevê, focalizando a tramitação de um projeto na Câmara Federal, disse ao jornalista: Houveram muitos problemas nessa sessão, mas o projeto acabou sendo aprovado.

Se você não percebeu o erro crasso, preste bem atenção neste artigo.

O verbo haver apresenta muitos significados, o que pode ocasionar diferentes regências verbais. Por isso, é bom tomar cuidado, pois uma dessas regências é a que induz a mais erros, até mesmo de pessoas bem informadas. O Aurélio apresenta informações muito úteis a este respeito. Informa que haver pode ser transitivo direto nos sentidos de ter, possuir, alcançar, obter, conseguir, sentir, experimentar, considerar, julgar, entender. Pode ser também impessoal, nos sentidos de existir, suceder, acontecer, ocorrer, dar-se, realizar-se, efetuar-se, ocorrer, dar-se, fazer. Pode ser transitivo direto e indireto nos sentidos de obter, conseguir, alcançar. Pode ser transobjetivo nos sentidos de ter na conta de, julgar, supor, considerar. Pode ser intransitivo nos sentidos de existir meio de, ser possível. Pode ser pronominal nos sentidos de proceder, portar-se, comportar-se,  entender-se, arranjar-se, avir-se. Além de tudo isso, pode ser um verbo auxiliar: precedendo um particípio, constitui tempos compostos do pretérito. Sem esquecer que haver pode surgir como substantivo, no sentido de “pertences” e também como indicador  da parte do crédito da escrituração contábil. Tudo isso para um verbo só, hem? Observe alguns exemplos:

Naquela cidade hei um grande amigo. (tenho, possuo)

Estudou bastante, mas não houve o resultado que esperava (alcançou, obteve)

Meus colegas houveram grande medo de entrar naquela casa. (sentiram)

Houveram que era risco demasiado investir naquelas ações. (consideraram)

Haverá muitos prêmios nos sorteios daquela festa. (existirão muitos prêmios)

Houve sérios desentendimentos antes de chegarem a um acordo. (ocorreram)

Havia meses que não chovia. (fazia)

Os filhos mais velhos houveram dos pais a licença para ir à Europa (conseguiram)

Todos os policiais o haviam por arruaceiro. (consideravam, tinham na conta de)

Não há mais contê-los. (não existe meio, é possível)

Havia começado o jogo pouco antes de ele chegar. (haver como verbo auxiliar)

É muito significado e muita regência para um verbo só, não é? Pois é. E note que o Blogueiro não deu todos os exemplos fornecidos pelo Aurélio. Convém completar o que diz este artigo com uma visitinha ao dicionário.

Aqui nos interessa apenas um aspecto, porque nos demais provavelmente você não erra. É o caso da frase do entrevistado:

Houveram muitos problemas nessa sessão, mas o projeto acabou sendo aprovado.

Agora você já deve ter percebido que o entrevistado deveria ter dito:

Houve muitos problemas nessa sessão, mas o projeto acabou sendo aprovado.

E por quê? Porque o verbo haver, no sentido em que é empregado na frase, significando “existir”, é impessoal, apresenta-se sempre na terceira pessoa do singular, não importando se o complemento que surge depois está no singular ou no plural. Confira no Aurélio.

Neste artigo, como deve ter notado, você leva dois conselhos: empregar adequadamente o verbo haver, sobretudo quando é impessoal, e perceber que deve consultar usualmente os significados e as regências dos verbos. Aprenderá muito, pode ter certeza, e evitará muitos erros crassos, que poderiam fazê-lo perder alguns décimos ou centésimos de sua nota e, com isso, até deixar escapar sua vaga.