Arquivo de 4 de abril de 2019

Ausências mais expressivas que presenças

quinta-feira, 4 de abril de 2019

O estudioso João Batista de Moraes, em seu útil livro Para as classes de português, apresenta-nos exemplos excelentes de períodos em que a omissão de certos elementos torna o significado das frases mais expressivo do que o seria com a sua presença. É o caso da omissão, em certas passagens, da palavra que. Observe com atenção os exemplos que Moraes fornece e julgue por si mesmo. Em primeiro lugar as frases e períodos com a presença de que:

 

Pediu-me que te apresentasse suas escusas, visto que não podia comparecer à festividade.

Imploravam-lhe a as pobres crianças chorosas e amedrontadas que não mais fizesse sofrer aquela infeliz criatura.

Determino-te, a fim de que se evitem novos prejuízos, que tenhas cuidado daqui para o futuro.

Posto que não achasse já nenhum conhecido antigo, Nóbrega tinha medo de tornar ao bairro.

Tal fato sucedeu mais ou menos comigo, em Paris, se bem que de maneira menos interessante.

O consórcio realizar-se-á no mês próximo futuro, dado que não mais surjam contrariedades ou impedimentos como das outras vezes.

 

São períodos perfeitamente corretos, não cabendo qualquer reparo de ordem gramatical. Todavia, observe como, omitindo-se que em certos pontos e promovendo-se em alguns casos as alterações necessárias, tornam-se bem mais expressivos:

Pediu-me te apresentasse suas escusas, visto não poder comparecer à festividade.

Imploravam-lhe as pobres crianças chorosas e amedrontadas não mais fizesse sofrer aquela infeliz criatura.

Determino-te, a fim de se evitarem novos prejuízos, tenhas cuidado daqui para o futuro.

Posto não achasse já nenhum conhecido antigo, Nóbrega tinha medo de tornar ao bairro.

Tal fato sucedeu mais ou menos comigo, em Paris, se bem de maneira menos interessante.

O consórcio realizar-se-á no mês próximo futuro, dado não mais surjam contrariedades ou impedimentos como das outras vezes.

 

Observou bem as alterações? Que achou? Se você não se sente muito confortável em fazê-las em seus textos, não é preciso. Deixe-as com a presença do que. Mas se é daqueles que pretende sempre tornar mais formal, culto e expressivo seu estilo, comece a praticar desde já, para acostumar-se.

Omitir, portanto, é muitas vezes ganhar vigor e elegância. Bons escritores se servem com naturalidade desse recurso, muitas vezes para evitar a repetição de muitos quês, que deixam as frases um tanto pesadas e monótonas.