Arquivo de abril de 2019

Existe a dica perfeita?

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Muitos vestibulandos procuram encontrar em livros, apostilas, sites e em professores especializados a tal dica perfeita. Isso existe? Tentativas, sim, mas realidade, não. Quem conseguisse as tais dicas perfeitas para passar a estudantes acabaria ficando rico. Mas, que o Blogueiro saiba, ninguém ainda ficou rico fornecendo tais informações eficientíssimas, simplesmente porque, no caso do estudo para vestibulares e concursos, o valor não reside apenas na dica, mas na relação que o candidato tem com ela.

De fato, não há dois estudantes iguais: o que pode funcionar com um não funciona com outro, porque depende do temperamento, dos conhecimentos acumulados e da experiência de cada um. Isso explica a decepção que tem um estudante ao receber de outro ou de um professor a informação de que em tal livro ou em tal apostila ou em tal site encontrará sugestões perfeitas para aumentar em muito sua capacidade de fazer provas. O estudante, por exemplo, entra no site indicado por um colega e não encontra nada capaz de melhorar seu domínio. Uma decepção total.

Quem procura dicas desse porte, senão perfeitas, pelo menos úteis para o maior domínio dos conteúdos desta ou daquela matéria, tem de levar em conta sua própria base de conhecimentos e seu modo de considerar as provas. Há disciplinas que o candidato detesta e por isso estuda pouco. Qualquer dica tem de passar por esse verdadeiro muro de preconceitos para poder ser aproveitada.

O caso da redação é sintomático. Há sites e sites que prometem aumentar em muito a capacidade redacional do candidato. Parece bom, mas não é tanto assim. O candidato precisa, primeiro, avaliar sua capacidade atual e em que pontos julga que falha e pode melhorar. Precisa, também, verificar sua própria boa vontade em aprender. De que adianta uma dica sugerindo que, para a redação, os conteúdos da atualidade social, política e científica são muito necessários, se o candidato não é chegado à leitura de jornais, revistas e sites da rede que fornecem esses conteúdos e os renovam permanentemente. Redação não é só escrever bem; é escrever bem sobre atualidades, porque os temas solicitados pelos vestibulares diversos se enquadram geralmente nesse campo.

O mesmo vale para as diferentes disciplinas. O candidato tem de abandonar o preconceito do gosto/não gosto e avaliar o quanto sabe, para depois procurar as dicas, não necessariamente para atingir dez, mas para fazê-lo subir patamares de desempenho com relação ao que sabe.

Finalizando, em resposta ao próprio título deste artigo, pode-se dizer que a dica se torna perfeita na medida em que o candidato consegue mobilizá-la para os seus conhecimentos. Pense bastante nisso e estabeleça sua procura de acordo com suas próprias expectativas.

 

 

As questões objetivas são objetivas?

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Você certamente imagina que as chamadas questões objetivas dos exames vestibulares são realmente objetivas, de modo que é só ler o enunciado e procurar a alternativa verdadeira. Não exagere muito nessa forma de considerar. Essa é apenas uma parte da verdade, razão por que pode conduzir a equívocos.

De fato, quando se presta uma prova objetiva, procura-se a alternativa correta. Mas como chegar até ela?

As bancas elaboradoras dos diferentes exames não trabalham com tanta simplicidade. Uma vez estabelecido o enunciado da questão, buscam elas o enunciado da alternativa que preencha todas as condições como resposta adequada. Isso é fato. O problema começa nesse instante: estabelecer a resposta adequada é fácil; difícil é disfarçá-la no meio das outras quatro incorretas. Aí começa a técnica de cada elaborador. Um deles, certa vez, confessou ao Blogueiro que, estabelecida e conferida a alternativa correta, começa o verdadeiro trabalho para não facilitar aos candidatos encontrá-la. Por isso, busca em seguida uma segunda alternativa que seja o máximo parecida com a primeira, mas com um pequeno erro que a torne incorreta. A terceira alternativa pode ser estabelecida por semelhante método, mas com um aumento dos componentes errados, de sorte que possa ser também equiparada à correta. Isso não é fácil de fazer. Já a quarta e a quinta podem conter diferenças maiores, mas de modo a confundir, como se respondessem a outra questão. O que não faz nunca o elaborador é apresentar alternativas inteiramente erradas, que se revelem por si mesmas como tais. Resultado: esse processo de elaboração de questões acaba não sendo tão objetivo assim, dependendo até de certa imaginação do elaborador.

Elaborar, neste sentido, acaba sendo uma técnica e uma arte. Por esta razão, responder terá também elementos de técnica e de arte. Ocorre que, por vezes, o candidato tem uma opinião sobre o que foi indagado bem diferente da opinião do elaborador. Se percebe isso, que faz? Responde com a sua ou com a que percebe na questão. Claríssimo que deve responder de acordo com a questão. O próprio Blogueiro, certa vez, percebeu, ao prestar um concurso, que o elaborador tinha um ponto de vista diferente do seu, que serviu para produzir uma série de questões. Que fez? Acompanhou o elaborador e acertou as questões de toda a série, mesmo sabendo que sua opinião sobre o tema era melhor que a do elaborador. Para atingir essa percepção, evidentemente, não é só contar com a objetividade, mas usar um pouco de imaginação e subjetividade. Sem isso, embarca-se no equívoco.

Percebeu agora a razão do título deste artigo: As questões objetivas são objetivas? Deveriam ser, deveriam ser como matemática, com formulação e resultados exatos. Mas você sabe agora que não ocorre bem assim. Por isso, trate a partir deste momento de encará-las de modo diferente, com maior sutileza. Assim, você penetrará melhor nas intenções do elaborador e no modo como organizou as alternativas. Boas provas!

 

Orações reduzidas: melhor a teoria ou a prática?

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Seus professores muitas vezes ensinaram, no estudo da sintaxe, a diferença entre orações desenvolvidas e orações reduzidas. Não é verdade? É, sim. Mas chega um momento em que você se pergunta: Afinal, para que saber isso?

De fato, a sintaxe, mesmo sendo um dos tópicos dos programas de língua portuguesa dos exames vestibulares, não é hoje em dia lá muito exigida. Uma ou outra questão, e olha lá! Isso quer dizer que seu estudo seja desprezível? Na verdade, não é tão desprezível assim. O próprio ensino tradicional da sintaxe sempre foi um tanto equivocado, privilegiando mais a teoria, puro conhecimento, do que a prática, aprendizado do que pode fazer com que sua capacidade de expressão melhore bastante. O Blogueiro vem insistindo muito neste fato: o ensino de língua portuguesa deve ter como meta principal auxiliar o estudante a aumentar sua capacidade expressiva, tanto em discurso oral, como em redação.

A redação é fundamental nesse caso, pois você será exigido nessa habilitação não apenas em vestibulares e concursos, mas ao longo de toda a sua vida profissional. Em resumo: o principal objetivo do ensino de língua portuguesa na escola é dotar o estudante de capacidade mais que razoável de expressão oral e escrita, porque isso ser-lhe-á exigido ao longo de toda a sua vida como um de seus instrumentos de trabalho.

No caso das chamadas orações reduzidas, que podem ter verbos no gerúndio, no particípio e o infinitivo, opostas às desenvolvidas, saber usar e alternar as duas formas representa um ganho de poder expressivo muito bom. Examine estes exemplos fornecidos por João Barbosa de Moraes:

Comprei um terreno tendo quinze metros de frente e vinte de fundo.

Não sairei daqui sem ver a partida do navio.

Ninguém afirmou termos vendido a geladeira.

Rompidos os cordões de isolamento, o povo penetrou na praça.

Viajando pela Europa, não foi a Paris.

Sendo aprovado, estarei, consequentemente, nomeado.

É necessário considerares teus chefes com respeito e amizade.

Trabalhou toda a noite, crente de ser o seu trabalho escolhido pelo júri.

Comendo demais ao almoço, achou-se, pouco depois, bastante mal.

O artista, aclamado pela assistência vultosa do espetáculo, sentiu-se comovido.

 

Na verdade, é menos importante classificar as orações reduzidas que aparecem nesses períodos do que saber alterná-las, para escolher a melhor forma para cada caso. Observe, a este respeito, como ficariam com as orações desenvolvidas:

 

Comprei um terreno que tem quinze metros de frente e vinte de fundo.

Não sairei daqui sem que veja a partida do navio.

Ninguém afirmou que tínhamos vendido a geladeira.

Logo que rompeu os cordões de isolamento, o povo penetrou na praça.

Quando viajou pela Europa, não foi a Paris.

É necessário que consideres teus chefes com respeito e amizade.

Trabalhou toda a noite, crente de que seria o seu trabalho escolhido pelo júri.

Como comeu demais ao almoço, achou-se, pouco depois, bastante mal.

O artista, depois que foi aclamado pela assistência vultosa do espetáculo, sentiu-se comovido.

 

Compreendeu? A língua portuguesa não é algo árido, com poucas soluções. Ao contrário, oferece ao falante e ao escritores inúmeras possibilidades de escolha pela forma que seja mais adequada e cabível ao período que está criando.

Pense nisso e tome amostras de qualquer texto de livro ou jornal, verificando os dois tipos de orações e fazendo as conversões para uma ou outra forma. Será um ótimo exercício para melhorar seu domínio de discurso.

 

 

Ausências mais expressivas que presenças

quinta-feira, 4 de abril de 2019

O estudioso João Batista de Moraes, em seu útil livro Para as classes de português, apresenta-nos exemplos excelentes de períodos em que a omissão de certos elementos torna o significado das frases mais expressivo do que o seria com a sua presença. É o caso da omissão, em certas passagens, da palavra que. Observe com atenção os exemplos que Moraes fornece e julgue por si mesmo. Em primeiro lugar as frases e períodos com a presença de que:

 

Pediu-me que te apresentasse suas escusas, visto que não podia comparecer à festividade.

Imploravam-lhe a as pobres crianças chorosas e amedrontadas que não mais fizesse sofrer aquela infeliz criatura.

Determino-te, a fim de que se evitem novos prejuízos, que tenhas cuidado daqui para o futuro.

Posto que não achasse já nenhum conhecido antigo, Nóbrega tinha medo de tornar ao bairro.

Tal fato sucedeu mais ou menos comigo, em Paris, se bem que de maneira menos interessante.

O consórcio realizar-se-á no mês próximo futuro, dado que não mais surjam contrariedades ou impedimentos como das outras vezes.

 

São períodos perfeitamente corretos, não cabendo qualquer reparo de ordem gramatical. Todavia, observe como, omitindo-se que em certos pontos e promovendo-se em alguns casos as alterações necessárias, tornam-se bem mais expressivos:

Pediu-me te apresentasse suas escusas, visto não poder comparecer à festividade.

Imploravam-lhe as pobres crianças chorosas e amedrontadas não mais fizesse sofrer aquela infeliz criatura.

Determino-te, a fim de se evitarem novos prejuízos, tenhas cuidado daqui para o futuro.

Posto não achasse já nenhum conhecido antigo, Nóbrega tinha medo de tornar ao bairro.

Tal fato sucedeu mais ou menos comigo, em Paris, se bem de maneira menos interessante.

O consórcio realizar-se-á no mês próximo futuro, dado não mais surjam contrariedades ou impedimentos como das outras vezes.

 

Observou bem as alterações? Que achou? Se você não se sente muito confortável em fazê-las em seus textos, não é preciso. Deixe-as com a presença do que. Mas se é daqueles que pretende sempre tornar mais formal, culto e expressivo seu estilo, comece a praticar desde já, para acostumar-se.

Omitir, portanto, é muitas vezes ganhar vigor e elegância. Bons escritores se servem com naturalidade desse recurso, muitas vezes para evitar a repetição de muitos quês, que deixam as frases um tanto pesadas e monótonas.