Arquivo de março de 2019

Armadilhas ortográficas

sexta-feira, 29 de março de 2019

É claro que você conhece ortografia, de tanto os professores dos ensinos fundamental e médio insistirem e repetirem, corrigindo sem piedade seus erros. Graças a essa “impiedade” sua ortografia é bastante razoável, a ponto de deixá-lo tranquilo para prestar as provas.

O problema não é, portanto, não saber, de modo geral, escrever com ortografia aceitável. Nosso Sistema Ortográfico, porém, muito amarrado nas antigas grafias, desde o grego e o latim, sem falar nas palavras importadas de línguas estrangeiras, acaba criando numerosas armadilhas, nas quais, sem querer, caímos vez por outra. Algumas pessoas caem sempre, por assumir como corretas grafias geradas por falsas semelhanças.

Neste começo de preparação para os vestibulares deste ano, portanto, é bom começar verificando se você já caiu algumas vezes ou sempre cai nas arapucas do sistema. O Blogueiro tem focalizado bastante esses problemas, por isso que volta e meia repete os alertas para que você não se deixe apanhar em erros crassos.

Preste atenção nas palavras abaixo, todas escritas corretamente, e acione sua memória para não esquecer mais. O Blogueiro apresenta apenas as formas corretas, para evitar qualquer possibilidade de confusão. Entre parênteses, quando necessárias, faz as distinções de sentido:

 

Análise            tigela                                      traz      (verbo trazer)              paralisar

Analisar          berinjela                                 trás      (advérbio)                   paralisado

Atraso             caçar   (perseguir animais)    atrás    (advérbio)                   piche

Atrasar            cassar  (tornar nulo)               vaso                                        pichar

Ideia                cessão  (ato de ceder)             vazar                                      chuchu

Apoio              seção   (parte de um todo)      xícara                                     maxixe

Liso                 sessão  (espaço de tempo)      chácara                                  viagem

Alisar              bege                                        cheque    (documento)            beneficente

Deslize                        exceção                                  xeque      (lance de xadrez)     beneficência

Deslizar          ascensão                                 paralisia                                 maleficência

 

Observe bem estes exemplos, que não são os únicos, e tente maliciar para descobrir as armadilhas que encerram, a fim de ficar bem preparado para não incorrer em outras.

 

Equívocos de intenção

quarta-feira, 27 de março de 2019

Há casos em que, nas respostas às questões discursivas e na redação, os candidatos acreditam que certas atitudes são benéficas ao que respondem, mas, na verdade, podem tornar-se bastante prejudiciais.  O Blogueiro verificou alguns desses casos e passará a comentá-los.

O primeiro surge pelo desconhecimento do que é realmente solicitado na questão ou na redação. O candidato, em vez de responder com palavras, num discurso bem concatenado, imagina que alguns desenhos ou garatujas podem dar ideia do que está respondendo. Para ele, talvez, não para a banca de correção, que espera uma resposta adequada ao que foi indagado. Desenhos, ícones, rabiscos não são resposta que se preze. No caso da redação, então, são desastrosos. O Blogueiro denomina redações camicase aquelas em que o candidato renuncia ao discurso linguístico e apela para os desenhos e imagens. Está frito, como diz o povo. Seu texto pictórico será ignorado e receberá zero. É melhor responder com um discurso bem enquadrado a apelar para esse tipo de subterfúgio, mesmo que o candidato não tenha plena certeza de sua resposta.

Outro engano é imaginar que se pode usar um discurso vulgar, cheio de gírias e coloquialismos, em lugar de um discurso elegante e bem posto. Prova de vestibular, qualquer que seja a disciplina, não é lugar para discurso de mau gosto. Esteja alerta contra isso, portanto, e respeite a norma culta, que é o melhor modelo de comunicação em língua portuguesa na escola e nas comunicações. Em vez de coloquial, seu discurso deve ser formal, bem articulado, sem apelo a vulgarismos.

Outro engano é o de se esconder, na dúvida sobre a resposta, num discurso obscuro, que desvia o tempo todo o tema indagado. Nada disso. É melhor ser claro, mesmo sem ter plena certeza da resposta, em vez de esconder-se por trás de palavras que nada dizem sobre o assunto focalizado.

Do mesmo modo que no caso da obscuridade, não é aconselhável manifestar vacilação em sua resposta. Tomar o máximo cuidado com palavras como talvez, possivelmente, provavelmente, ou frases como eu acho que, eu imagino que, eu penso que, etc. Denotam elas a vacilação no responder. Em alguns casos, a resposta do candidato está certa, mas essas expressões enfraquecem seu discurso e podem ser mal interpretadas. Evite-as. Procure parecer positivo e confiante.

Confiante, sim, mas não em excesso. Muitos candidatos, certos de que dominam o assunto, abusam das repetições e explicações, engordando o discurso de suas respostas. A esse defeito denominamos prolixidade. É bom evitá-la. A concisão, isto é, o emprego econômico e ponderado de palavras e frases nas respostas é sempre o melhor caminho.

Finalmente, um lapso muito comum e pouco observado, particularmente na redação. Como texto, a redação se distribui em parágrafos, que são visualmente identificados pelo maior afastamento da primeira linha em relação às demais. Cada parágrafo possui um significado homogêneo, que em parte transita para o próximo, estabelecendo-se, assim, uma sequência de ideias e argumentos bem definida. Respeite isso. Nada de amontoar os períodos que formam sua redação em uma sequência só, congestionada e turbulenta. Quem vai corrigir um texto com tal defeito quase desanima ao se deparar com esse aglomerado. Acostume-se a paragrafar, que isso fará bem até ao seu modo de conceber e estruturar seu texto.

Percebeu? Intenção é uma coisa; correção é outra.

 

Acentue, sabendo o que faz

terça-feira, 19 de março de 2019

Nos dois artigos anteriores, o Blogueiro alertou para o problema dos acentos gráficos. Colocou em primeiro lugar a questão das regras alteradas pelo acordo ortográfico. No segundo artigo, examinou algumas regras em que os estudantes costumam cometer equívocos por pura distração. No artigo de hoje, finalmente, apontará as regras fundamentais, que você tem por obrigação conhecer e praticar, sem esquecer os dois aspectos em que se baseou a criação do sistema: primeiro, o econômico, acentuar o menos possível; segundo, o diferencial: distinguir palavras com terminações idênticas, mas tonicidade diferente. Tendo sempre em mente esses dois aspectos, fica mais fácil e prático acentuar sem cometer erros.

A grande maioria das palavras da língua portuguesa são paroxítonas terminadas em a, e, o, as, es, os. Por isso, não são acentuadas. Seria contraproducente fazê-lo. Já as oxítonas com as mesmas terminações, por serem bem menos numerosas, levam o acento necessário: guaraná, ananás, café, jacarés, avô. Na mesma perspectiva se incluem os monossílabos tônicos com idênticas terminações: má, más (adj.), pá, pás, pé, pés, pó, nós. Assim também as palavras paroxítonas terminadas em em, ens são bem mais numerosas que as oxítonas com a mesma terminação, razão por que estas devem ser acentuadas: porém, também, armazéns, reféns.

Já as palavras proparoxítonas são relativamente poucas no idioma. Acentuá-las, portanto, resolve um belo problema, diferenciando-as de todas as paroxítonas e oxítonas. Esta é a motivação da regra que manda marcar com o competente acento gráfico todas as palavras proparoxítonas: árvore, árvores, pérola, pérolas, ótimo, ótimos, tâmara, tâmaras, pêndulo, pêndulos, cômodo, cômodos. Fácil, não é?

Finalmente, a maior dificuldade da acentuação gráfica está nas paroxítonas terminadas em l, n, r, os, x, us, i, is, om, ons, um, uns, ã, ãs, ão, ãos e em ditongo oral (seguido ou não de s). Devem receber o acento adequado na sílaba tônica: tátil, fácil, hífen, éden, gérmen, líquen, abdômen, pólen, cadáver, revólver, bíceps, tríceps, quadríceps, tórax, bórax, ônix, vírus, ânus, lápis, tênis, júri, júris, íon, íons, fóton, próton, elétron, bárion, nêutron, álbum, álbuns, órfão, órfãos, órfã, órfãs, jóquei, jóqueis, túneis. O máximo cuidado com palavras como estas, portanto! É bom rever sempre os exemplos, para evitar cochilos.

Finalmente, uma última regra que provoca muitos enganos: a acentuação das paroxítonas terminadas em ditongo crescente. A regra é clara, mas muita gente parece adorar escrever algumas dessas palavras sem acento gráfico, como, por exemplo, magoa, regua, carie, ingenuo, inicio. Nada disso. Todas devem ser acentuadas: água, mágoa, régua, cárie, ingênuo, início, precipício, espécie. Note que magoa sem acento deve ser pronunciada com tonicidade sobre o o, já que a palavra passa a ser uma forma verbal de magoar; assim também carie passa a ser uma forma do verbo cariar, e inicio se torna uma forma do verbo iniciar.

Neste final, o Blogueiro faz uma pequena pergunta, um tanto brincalhona, a você: Se hífen, como vimos, deve levar acento gráfico sobre a sílaba tônica, por que hifens não deve? E quais palavras dos exemplos dados se encaixam neste mesmo caso?

É isso aí. Não se descuide com a acentuação gráfica, para não ter descontos na nota. Por menores que possam ser, por vezes significam a perda da vaga. Boa acentuação para você.

 

Uma prova ortograficamente limpa

sexta-feira, 15 de março de 2019

No artigo anterior, o Blogueiro colocou a questão da necessidade de se observar muito bem a questão ortográfica nas provas. Neste, continuando, vai focalizar alguns aspectos da acentuação que foram alterados pela reforma causada pelo acordo ortográfico com os demais países de língua portuguesa. Sempre lembrando que ortografar bem não é favor, é obrigação, e obrigação legal, pois o sistema ortográfico é oficial em nosso país. Não podemos, portanto, escrever como queremos, mas como devemos, segundo o sistema. Muitas vezes, a título de exemplo, se coloca no ensino de literatura que o escritor Monteiro Lobato escrevia “como queria”, isto é, de acordo com um sistema que ele mesmo criara. Mas Monteiro Lobato era Monteiro Lobato, um gênio que tinha o direito de escrever de acordo com sua própria visão do idioma; e nós, pobres mortais, não podemos nos dar a esse luxo ou mania sem sermos penalizados em provas de concursos, vestibulares e textos que escrevemos. Além do mais, nas edições publicadas após a morte de nosso grande escritor, a ortografia oficial voltou a ser obedecida em seus livros. E se ele estivesse vivo hoje e prestasse vestibular, teria de obedecer às regras vigentes.

Pare de pensar também que seguir o que os professores ensinam nas aulas e os livros e apostilas em suas páginas é fazer um favor aos professores. As universidades adotam também oficialmente o acordo ortográfico, que surge como uma parte dos regulamentos das provas.

A grafia das palavras e a acentuação, por exemplo, devem ser seguidas rigidamente pelos candidatos, se querem que sua prova seja “limpa” a esse respeito.

Você já estudou muito e deve conhecer bem as regras fundamentais de acentuação. Observe nas seguintes listas de exemplos o que o acordo ortográfico alterou:

 

1 – Linguiça, pinguim, tranquilo, equino, eloquente, frequente, cinquenta.

2 – Apoio, epopeia, ideia, androide, heroico. Alcateia, geleia, plateia.

3 – Feiura, baiuca, bocaiuva, reiuno.

4 – Creem, deem, leem, veem, enjoo, voo, perdoo.

5 – Apazigue, arguem, averiguem, redarguem, argui.

 

Examinou bem? Então atente para as explicações respectivas:

 

1 – Não se usa em hipótese alguma o trema, antigamente empregado nessas palavras. O trema foi banido da ortografia, embora possamos usá-lo em nomes próprios oriundos de outras línguas.

2 – Em palavras paroxítonas, os encontros oi e ei não recebem acento gráfico. Mas, cuidado: se as palavras forem oxítonas e monossílabas tônicas, o acento é obrigatório: anzóis, pastéis, léu, faróis, chapéu, réu.

3 – Não se acentua o u de ditongos em palavras paroxítonas como as exemplificadas. Mas, se forem oxítonas, receberão o devido acento: teiú, teiús, sucuruiú, sucuruiús, tuiuiú, tuiuiús, Piauí.

4 – Encontros de vogais idênticas, ee, oo cuja primeira vogal é tônica de palavras paroxítonas não devem ser acentuados. Nada de escrever erradamente vôo, enjôo. É tudo sem acento.

5 – Não se acentua o u tônico de palavras como as exemplificadas.

 

Beleza? Então só falta lembrar que palavras oxítonas terminadas em em continuam recebendo o competente acento gráfico. No caso de verbos derivados de ter, entretanto, diferencia-se o plural com acento circunflexo: ele entretém, eles entretêm, ele mantém, eles mantêm, ele retém, eles retêm, etc. E tome muito cuidado com a forma verbal monossilábica: ele tem, eles têm. A esse respeito, vale lembrar que devemos acentuar pôde (verbo poder, pretérito perfeito do indicativo), para diferençar de pode (verbo poder, presente do indicativo); e assim também acentuamos pôr (verbo) para diferençar de por (preposição).

Entendeu? Muita gente ainda comete equívocos nesses casos, colocando o acento onde não deve ser colocado, ou não colocando onde tem de estar. Então dê uma boa lida nas regras de acentuação, para ter em mente o que sempre deve ser feito. Sua prova ortograficamente limpa começa por aí. No próximo artigo o Blogueiro vai focalizar as regras que o acordo não alterou.