Arquivo de outubro de 2018

Vigie os seus as

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O Blogueiro resolveu retomar, neste tempo de vestibulares, uma questão que suscita dúvidas aos candidatos, provocando por vezes muitos erros. Trata-se do emprego de a (artigo), a (preposição) e há (verbo haver). Observe os exemplos:

 

A cidade, hoje, está cheia de entulho provocado pela tempestade.

Da fazenda a São Paulo são três horas de viagem.

Há três dias não para de chover em São Paulo.

 

No primeiro exemplo, o “a” que antecede “cidade” é um artigo, determinante do substantivo. Já no segundo, embora a pronúncia seja exatamente a mesma, não se trata mais de artigo, mas de uma preposição. No terceiro exemplo, “há” é a terceira pessoa do presente do indicativo do verbo “haver” (eu hei, tu hás, ele há), que tem a mesma pronúncia do artigo e da preposição, embora a grafia seja distinta. Não causa problemas quando se fala, mas, na hora de escrever, pode complicar.

O emprego do artigo geralmente não implica grande dificuldade. Já o da preposição e do verbo pode implicar erros crassos. O Blogueiro retoma esta lição, porque na própria mídia (jornais, revistas, tevês), verificam-se muito cochilos dos escritores, como, por exemplo, num jornal:

 

A cinco dias, o empresário disse que estava em Berlim.

 

Na verdade, o “a” inicial está colocado por equívoco, quando deveria o escritor ter utilizado o verbo “haver”. Talvez tenha até pensado nesse verbo, mas, na hora de escrever, escapou o “a”. A frase correta, portanto, é

 

Há cinco dias, o empresário disse que estava em Berlim.

Trata-se de um lapso bastante comum em textos escritos, particularmente na internet, em que a pressa de postar artigos predomina. Num vestibular, todavia, isso não pode acontecer. Então, atente para o fato de que o emprego do verbo “haver”, nos casos citados, aparece sempre com referência ao passado:

 

Doutorei-me há três anos.

Há exatamente nove dias o candidato disse uma grande mentira.

Meu tio garantiu que há cinco meses encontrou uma onça ferida e a curou.

 

Já a preposição “a”, quando empregada com sentido de tempo em frases que poderiam gerar confusão, não aponta para o passado, mas para o futuro:

 

A banda chegará daqui a dois dias.

Estamos a vinte e quatro horas da eleição.

 

Deu para perceber? Então sempre vigie seu emprego de “a” e “há”, para não ser prejudicado na nota, por menor que seja esse prejuízo. Centésimos ou até milésimos em sua média final podem decidir uma vaga. E nem você, nem tampouco o Blogueiro, desejam que isso aconteça.

 

Não seja subjetivo nas provas objetivas

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

As provas assim chamadas objetivas carregam a ideia de que suas questões são elaboradas de modo lógico, com a banca elaboradora criando o enunciado e respostas possíveis a esse enunciado em cinco alternativas, devendo ser apenas uma delas a correta. Vale dizer: a banca elabora e responde cada questão, como espécie de aluno que sabe tudo, cabendo ao candidato identificar “objetivamente” a resposta mais adequada.

Antes de prosseguir, vale lembrar a você os significados de objetivo e subjetivo. Subjetivo quer dizer “relacionado ao sujeito, individual, pessoal, particular ao indivíduo”. Já objetivo quer dizer “relacionado ao objeto, válido para todos os indivíduos, e não apenas para um”.  Um poema, por exemplo, pode ser entendido como subjetivo, pois expressa conteúdos relativos ao eu do poeta. Um texto científico, porém, é necessariamente objetivo, pois a meta do cientista está centrada no que é objeto de sua pesquisa. Uma questão objetiva, assim, está completa, devendo apenas o candidato escolher a resposta correspondente.

Isto posto, você percebe que nesse tipo de questão a interpretação lógica é tudo. Deve procurar compreender primeiro o enunciado e descobrir exatamente o que solicita. Em seguida, deve entender uma a uma as alternativas, comparando-as com tal solicitação, e verificar qual a que mais provavelmente atende ao enunciado. Nesse caminho tome bastante cuidado, porque a elaboração da questão não é ingênua. O elaborador “sabe” qual a resposta correta e elabora as outras alternativas de modo a não facilitar a escolha pelo candidato. A finalidade da questão é verificar se o candidato conhece bem o conteúdo. Por isso, muitas vezes, há alternativas semelhantes, que podem causar dúvida e hesitação. O melhor modo de escapar deste tipo de obstáculo é comparar com o que solicita o enunciado.

Não esqueça, porém, de um fato importantíssimo. Caso ainda pairem dúvidas, por exemplo, entre duas alternativas, não escolha a que você “sente” como mais provável, mas o que a análise do conteúdo aponta objetivamente como mais provável, sempre pensando que a resposta certa está ali, é uma das cinco alternativas. Fazer uma prova objetiva, neste sentido, é como resolver um quebra-cabeça, lançando mão de sua inteligência e capacidade de análise e síntese. Somente em último caso deve arriscar uma resposta de que não tenha plena certeza.

O Blogueiro quase ia esquecendo de lembrar: você precisa, é claro, ter um bom conhecimento dos conteúdos, tanto para questões objetivas quanto para questões discursivas. Sem isso, o melhor dos métodos não funcionará.

 

 

 

Empregue bem “democracia”

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Nesta época de grande efervescência política e eleições, você não tem como esquivar-se das falas de políticos, jornalistas, comentaristas e críticos que a todo instante surgem na mídia (televisões, rádios, jornais, revistas) e o bombardeiam com suas opiniões sobre o que está ocorrendo e o que pode ocorrer. Será este presidente o eleito? Aquele o governador? Aqueloutro o senador? E os deputados federais? E os estaduais?

O perigo, porém, não corresponde aos candidatos nem aos partidos, mas às palavras. E são estas que podem atrapalhá-lo em eventuais questões e propostas de redações dos diversos exames vestibulares. Será difícil, a esse respeito, que muitos vestibulares não adotem como tema de redações fatos políticos sobre as eleições deste ano e os eventos a estas relacionados. Aí, todo cuidado é pouco. Mesmo que não aprecie muito, você deve ter prestado atenção a muitas notícias e, nesse processo, aprendido o significado de muitas palavras que antes não lhe provocavam maior interesse.

Uma dessas palavras, com certeza, muitíssimo empregada, é democracia. É uma verdadeira moeda corrente, que frequenta dezenas de vezes por dia os programas da mídia. Que lhe pode dizer o Blogueiro a respeito? Alerta! Antes de se deixar levar pelo emprego da palavra por este ou aquele jornalista, este ou aquele candidato, procure conhecer muito bem o verdadeiro sentido dela, que dicionários como o Aurélio e o Houaiss apresentam:

Aurélio: Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição equitativa do poder, ou seja, regime de governo que se caracteriza, em essência, pela liberdade do ato eleitoral, pela divisão dos poderes e pelo controle da autoridade, i. e., dos poderes de decisão e de execução; democratismo.

Houaiss: governo em que o povo exerce a soberania; sistema político em que os cidadãos elegem os seus dirigentes por meio de eleições periódicas; regime em que há liberdade de associação e de expressão e no qual não existem distinções ou  privilégios de classe hereditários ou arbitrários; país em que prevalece um governo democrático.

Observando e interpretando muito bem o que definiram os dois mestres, você terá a perfeita noção do que é democracia ou regime democrático de governo. E perceberá, com certeza, que nem todas as pessoas empregam a palavra com esse sentido. Muitos, aliás, a usam com o significado exatamente oposto. Há até países que se intitulam democráticos, em que o povo é inteiramente dominado pelas classes dirigentes. Esteja atento, portanto, para não cair na armadilha de usar a palavra democracia num sentido que não se coaduna com o que aparece definido pelos dois lexicógrafos citados.

Não é demais repetir, neste final, o que resume mestre Aurélio, para servir-lhe de bússola, caso venha a empregar a palavra numa resposta de questão discursiva ou numa redação:  Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição equitativa do poder, ou seja, regime de governo que se caracteriza, em essência, pela liberdade do ato eleitoral, pela divisão dos poderes e pelo controle da autoridade, i. e., dos poderes de decisão e de execução.

 

 

 

 

Sua redação: o começo e o fim

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Dando como certeza que você vai ser aprovado na primeira fase do exame vestibular da Unesp, o Blogueiro quer fazer algumas observações muito importantes sobre a segunda fase, em especial a prova de redação.

Você está cansado de saber que toda redação dissertativa apresenta um início, em que a abordagem do tema é introduzida e justificada, um meio, o corpo da redação, em que sua argumentação se desenvolve, e um final, a que sua argumentação converge. Esses três patamares, em seu conjunto, têm de estar indissoluvelmente entrosados, formando um todo. Tecnicamente, percebe-se que o começo e o final trazem certas dificuldades de entrosamento. Muitas lições são dadas, por isso, a respeito de como proceder, mas nem sempre são muito recomendáveis, vale dizer, podem trazer mais prejuízos que vantagens a seu texto.

Algumas pessoas podem tentar ensiná-lo, em sua prova de redação, a começar com chavões, como, por exemplo, Desde a mais remota antiguidade, Desde os tempos mais primitivos, Nos primórdios, etc., etc. Dizem que, deste modo, seu texto mostrará competência e capacidade de escritor desde o começo. Trata-se, na verdade, de um mau conselho. Você reparou que o Blogueiro disse chavões exatamente para caracterizar que frases como tais são muito batidas pelo uso. Se consultar seu dicionário, verificará que chavões são também chamados lugares-comuns, estereótipos, clichês, chapas, ou seja, expressões ou frases cujo uso repetido e retomado as torna vulgares demais, inteiramente faltas de originalidade. Não enriquecem, mas empobrecem seu texto.

É melhor, portanto, iniciar a redação de outro modo, focalizando diretamente o tema proposto.

O mesmo se pode dizer dos finais. Nada de enfatizar o encerramento com portanto, por isso, concluindo, como acabamos de demonstrar, etc., etc. Será muito melhor fazer uma ligação mais adequada entre os argumentos apresentados ao longo do texto e a conclusão, com palavras e expressões simples que caracterizem melhor a firmeza de sua linha argumentativa e o coroamento desta no parágrafo de encerramento.

Busque sempre, quer no início, quer no final, ser simples e direto, sem recair na vulgaridade e no emprego de expressões batidas. Simplicidade e eficácia serão a melhor solução para a exposição de suas ideias e a compreensão destas pela banca de correção. Não faça como o jogador de futebol que, quando ia marcar um belo gol, resolveu dar um drible a mais, fazer uma firula, e acabou sendo desarmado, desperdiçando a oportunidade.

Exibir-se, quer ao jogar futebol, quer ao escrever, pode ser até prazeroso, mas carrega perigos que nem sempre vale a pena enfrentar.